B Fachada
Clube Ferroviário, Lisboa
19 Set 2010
Dias há em que Lisboa só pode agradar a uma das partes e deixar a outra com um amargo de boca. E, nestas coisas do “alguém ficar a rir”, o desagrado de uns intensifica sempre a satisfação dos outros. É verdade que ser benfiquista e ser fachadista não são compromissos fáceis (ambos exigem entrega e resistência), mas, quando Lisboa alinha, num só dia, um óptimo concerto de B Fachada e uma vitória esclarecedora do Benfica no derby, é evidente que pode estar aqui uma nova noite clássica na cidade. Leia-se então com ritmo: só com muita sorte escaparam à goleada, mas foi preciso um Cardozo para superar o B Fachada.

© Mauro Mota

Ainda era cedo quando o serão clássico começou a ganhar forma no Clube Ferroviário, a actual sala da berra, que é realmente perfeita para a apresentação de Há Festa na Moradia, o mais recente “disco de verão” de B Fachada. Pois bem, um “disco de verão” pede um cenário concordante e foi isso que teve num Ferroviário repleto de gente gira, aspiração, muitos Ray-Bans, ritmos de São Tomé, calorzinho nos ombros e influência. Foi como se uma boa parte dos hábitos referidos em "Há Festa na Moradia" (a canção) se materializassem ali mesmo no muito tropical terraço do Ferroviário. B Fachada já canta perante as canções que criou, e assistir a isso é muito bonito e estimulante para a mente.

© Mauro Mota

Muito bonitas também são as novas canções que B Fachada apresentou logo de início sentado diante de um teclado Hohner. Depois de duas noites de concerto com Diabo na Cruz, Bernardo revelava um cansaço até certo ponto favorável no moldar da ternura das quatro novidades (tocou outro inédito mais tarde). À primeira escuta, parecem canções do Vitinho escritas com outra sofisticação. A lírica, desta vez, anda infiltrada no contexto emocional-familiar de um miúdo que pensa muito no ontem, hoje e amanhã. Esteticamente as novas lembram dois temas tão afastados no território como próximos no tom melancólico: “Pior que tio”, a raridade do próprio Fachada, e “I’ll try anything once”, o lado-b dos Strokes, que é obrigatório escutar nem que seja para sentir o calor único daquele Rhodes tocado por Nick Valensi.

© Mauro Mota

Sem vacilar, B Fachada volta a cumprir a promessa de ter novas canções a cada semestre. No fundo, é assim que defende a larga vantagem no jogo de “toca e foge” com as vinte comparações propostas pelas muitas publicações que o destacaram recentemente. Parece que só o Borda d’ água não dedicou um artigo ao lançamento de Há Festa na Moradia. Depois houve também tempo para o disco em apresentação, passagens pelo homónimo e uma versão personalizada de “Etelvina” (um original de Sérgio Godinho) – tudo isto enquanto entravam e saíam de cena o contra-baixista Martim e a baterista Mariana (excelente no que oferece de novo). O final acontece com a sempre forte “Zé”, que agora obtém um efeito ligeiramente diferente. O Cadillac que B Fachada conduz por estes dias leva na pendura uma Lisboa rendida - essa que já não passa sem estas canções e que tão cedo não esquecerá esta noite de Benfachada.
· 21 Set 2010 · 01:07 ·
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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