Jandek
Fundação de Serralves, Porto
10 Jan 2009
Entrar em Jandek, num dos seus muitos discos ou raros concertos (os poucos que aconteceram até hoje) de Jandek é entrar num mundo desconhecido. É dizer que sim a entrar nas zonas obscuras do subconsciente humano e o que daí advém em termos musicais; é comprar um bilhete de ida sem esperar a volta. Quis a Fundação de Serralves, em ano de importante aniversário, receber uma das figuras mais enigmáticas de sempre da música e um dos raros concertos do senhor que responde por Jandek – ele que apenas começou a tocar ao vivo em 2004 apesar de longos anos de carreira - para contentamento dos que seguem a figura misteriosa. E até espanhóis faziam parte da plateia naquele final de tarde de sábado – o concerto teve início pouco depois das 7 da tarde, por, imaginamos, pedido expresso de Jandek.

Jandek entrou em palco de forma algo bizarra, já longo ia o silêncio nervoso e em expectativa do público que encheu o auditório. Sentou-se ao piano e só dali se levantou passadas quase duas horas. Sem dizer uma palavra, sem se mexer para além do necessário para tocar o piano, sem olhares. A sua técnica não é prodigiosa – está longe disso – mas avaliar apenas isso num concerto de Jandek é como ir ao Taj Mahal e ficar-se pela avaliação dos bancos de jardim. Jandek ao vivo é concerto mas é também performance, é música mas também é anti-música. Foi um Jandek sobremaneira melodioso aquele que se apresentou em Serralves, em duas longas composições – com uns 40 minutos minutos cada ou perto disso – onde percorreu as teclas do piano na busca de uma redenção. Apesar de não parecerem totalmente improvisadas, houve espaço nelas para momentos resgatados aos domínios do subconsciente. Quando se aproximou das notas graves sentiu a obrigação de causar massas imensas de ruído, tempestades e tormentas.

Muitos esperavam certamente que Jandek se apresentasse na guitarra; certamente todos aqueles que conhecem a obra de Jandek desejavam que este mostrasse um pouco da sua voz – mas isso nunca chegou a acontecer. Talvez por isso, ou simplesmente por puro desconhecimento, foram muitos aqueles que ao longo das duas horas de actuações de Jandek foram saindo da sala. Mesmo quando melódica, a música de Jandek provoca um certo desconforto. Nem falamos do desconforto quase violento de discos como Ready for the House e outros registos próximos; falamos de uma inquietação, de uma agitação que é humana, de um teste a si próprio e aos que quiseram estar ali naquele momento. Foi tudo imprevisível como se esperava; até a insistência melódica de algumas passagens ao piano foi imprevisível. Como na mais misteriosa das aparições. Naquele fim de tarde de Janeiro, o que Jandek criou ao piano em Serralves foi nada mais, nada menos do que imensas telas de solidão.
· 14 Jan 2009 · 19:22 ·
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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