ETC.
DVD
World is so Beautiful
Takagi Masakatsu
· 19 Fev 2007 · 08:00 ·
World is so Beautiful
Takagi Masakatsu
2006
Carpark Records
World is so Beautiful
Takagi Masakatsu
2006
Carpark Records
Multifacetado artista japonês confere - com inequívoco vigor artístico – que os putos representam mesmo a esperança de que depende este enorme berlinde azul.
A constatação que oferece, a médio prazo, o convívio com as duas principais parcelas do trabalho do japonês Takagi Masakatsu, em termos musicais como em visuais, é de que as mesmas coexistem sem diferenciação: descrevem paralelamente um mesmo espanto delicado perante as maravilhas eminentes do mundo, satisfazem dois dos sentidos com um caudal de estímulos activos que facilmente preencheriam os cinco. Ouvir em disco a radiante electrónica de solstício que produz Takagi Masakatsu, remete logicamente para os seus coloridos visuais e vice-versa. Todavia, as facilidades que oferece a era multimédia rendem a inclusão de ambos os primas artísticos num mesmo objecto e Masakatsu acrescentara já um CD-Rom de vídeos para Quicktime ao seu debute Pia, quando, em 2001, o formato DVD ainda não era a moeda-de-troca complementar que é hoje.

Sabe-se porém que a melhor forma de contrariar a banalização do DVD passa pelos critérios de selecção do seu conteúdo. Embora funcione como um velhinho VHS (sem menus ou extras de qualquer espécie), a reedição de World is so Beatiful, originalmente lançado pela nipónica Daisy World, inclui gloriosamente fundidas as duas matrizes maiores acima descritas e indissociáveis no caso de Masakatsu. Remetendo a uma primeira fase embrionária (2002-2003), o diário estilizado da viagem global efectuada pelo autor de Journal for People aparenta as qualidades próprias de um permanente brainstorm que sucede a despertar resplandecente. E que melhor meio para exercitar essa vocação que não rodeado por miúdos? Pois, os putos estão por toda a parte nos vídeos que compõem em World is so Beautiful: protagonizam o primeiro plano das sobreposições translúcidas, correm em nome da esperança num panorâmico “Run on the Planet”, filmado em modo de visão térmica (tipo Predador), servem perfeitamente aos apanhados cândidos que efectua Masakatsu em registo de quem documenta a alegria infantil como na tentativa de perpetuá-la.

A puerilidade e o seu entusiasmo incondicional são de tal forma omnipresentes que transbordam - através do alastrar da cor - os contornos aos rostos dos corpos em movimento. Em “South Beach”, doseado a partir de um momento filmado em Cuba, os sóis reflectidos no mar desenvolvem um natural equilíbrio no espaço partilhado com as silhuetas escuras dos miúdos que aguardam a sua vez de mergulhar numa rocha. Fiel a essa sensibilidade harmoniosa, a naturalidade aplica-se também à música de Masakatsu, onde é muito mais graciosa que propriamente hostil a negociação de território entre o piano e a electrónica cornucópica. Fossem esses pretextos insuficientes para tornar recomendável World is so Beautiful, acrescentariam-se sem demora outros dois de enorme peso: uma primeira versão bem rudimentar da majestosa balada “One by one by one” (que, na sua refinada forma de diamante, integra o EP Air’s Note) e um tocante exercício, de nome “Sorina Street”, em que Masakatsu efectua a compensação humana de que carece uma criança ignorada enquanto toca acordeão nas ruas de Istambul. Fá-lo povoando de coloridas figuras animadas a repetitiva vida a preto-e-branco que leva a tal miúda. Nesse, tal como em outros momentos, World is so Beatiful é abertamente lamechas, mas validamente lamechas por via da arte.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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