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Nicola Cruz
O homem que seduz



A luz é ténue, como de costume. Não é difícil dar um pisão ou um encontrão a quem está mais preocupado com o seu próprio hedonismo que com quem a rodeia. De cara fechada, os seguranças do espaço vão-se assegurando que ninguém passa das marcas - quer essas mesmas marcas sejam um charro aceso, uma fotografia proibida ou um grau de embriaguez mais elevado que o costume.

Elevado está também Nicola Cruz, francês tornado equatoriano a quem foi encarregue, esta noite, o som que se escuta num Lux à pinha. Poucas horas antes, as filas para entrar eram praticamente intermináveis; houve quem tivesse desistido antes de sequer chegar à porta. Alheio a isso, o autor de Siku, fabuloso segundo álbum, vai disparando percussão e electrónica de maneira hábil perante um mar de fumadores, alcoólatras, raparigas a gritar whoo-hoo! e, evidentemente, o inevitável João Botelho.

© Soraia Correia

Mas "tornado" não é a palavra certa que queríamos utilizar ali em cima. Apesar de ter nascido em França, Nicola Cruz sempre foi equatoriano; os pais eram-no, e levaram-no para o seu país natal ainda criança, após terem terminado os seus estudos. O hobby do pai, coleccionador de instrumentos musicais, sobretudo da região dos Andes, possibilitou o seu primeiro contacto com a música - tanto a desse local como da música no seu todo. «Não sei se isto me inspirou a ser músico, mas foi algo que me ligou, desde cedo, à música», explicou, poucas horas antes do seu live act, ao Bodyspace.

Se dentro de um clube, de um bar ou de uma discoteca a luz quer-se ténue, em Siku isso não é bem assim. Seríamos tentados a pensar que a sonoridade deste que é o segundo álbum de Nicola Cruz não foi feita a pensar em espaços fechados e negros como estes, como o Lux, mas sim em vastos campos verdejantes, em terras prenhes de selva, em aldeias onde o espírito comunitário e comunal persiste, por oposição aos avanços das metrópoles. Siku guarda essa ideia até no título, referindo-se a um tipo de flauta de pã que, tradicionalmente, é tocada por duas ou mais pessoas.

Talvez seja por isso que Nicola Cruz chamou tanta e tanta gente para colaborar com ele em Siku: Castello Branco, Minük ou o português Márcio Pinto são alguns dos nomes aqui presentes. «No caso do Márcio», conta-nos, «era um amigo da minha ex-namorada, que vivia aqui. Vi-o a tocar na rua. Na minha visita seguinte a Lisboa, aproveitei e gravei com ele». Em relação aos outros músicos, a afinidade é a mesma: «São pessoas com as quais não preciso de conversar muito, existe uma ligação musical». Ao compor Siku, Cruz foi fazendo «uns esboços» na sua cabeça. «Sabia que com o Márcio queria algo da África Ocidental, pela sua história enquanto músico» [podemos escutá-lo nos Terrakota ou nos OliveTreeDance, por exemplo].



Saliente-se este «ligação musical». É que a forma como Nicola Cruz abraça a música não se prende apenas com a sua própria cultura, sul-americana; bebe de vários povos, de várias raízes, de várias experiências e sonoridades. "Criançada", tema com Castello Branco que - pelo menos para este escriba - é a faixa mais deliciosa de Siku, é praticamente bossa nova. Estava Cruz a tentar ligar toda a música da América do Sul? «Não, isso seria demasiado ambicioso», atira, entre risos. «Mas esse é um ponto importante. Siku não se encontra apenas no Equador; tem uma visão mais global. Há influências da América do Sul, de Portugal, do Japão, do Oriente, do México, Argentina»..., influências essas que foi retirando de todas as suas viagens, tendo levado a sua música a locais tão díspares quanto o festival de Glastonbury, o Dubai ou o icónico Berghain.

Nada mal, portanto, para um tipo que começou por ter uma banda de versões de bandas como... os Megadeth. Caso raro, um metaleiro que se predispõe a escutar outros tipos de música. «O que despertou o meu interesse foi precisamente a ligação cultural que existe» com o Equador e o que se dança naquele país, afirma. E como é que podemos aprender com isso, meter os nossos amigos a escutar mais para além das guitarras e dos guturais? A resposta, diplomática: «Não é uma obrigação levar outras pessoas a ouvir outros estilos de música. Depende de cada pessoa. Talvez mostrando-lhe um bocadinho mais».

O facto de ser "global" não a torna, por isso, previsível. Faz sentido escutá-la em cada um desses locais mencionados, porque ela pertence de facto a todos esses locais mencionados. Pertence à bossa, ao techno (ouça-se, a títulos de exemplo, "Siete" e "Señor De Las Piedras"), ao house ("Siku"), a África ("Hacia Delante") ou ao muy sul-americano realismo mágico, construído de mitos, lendas e espíritos sagrados que o Ocidente judaico-cristão é incapaz de compreender à primeira (a assombrosa "Voz De Las Montañas").

Essa componente mais espiritual - que Cruz não sente que «na Europa exista tanto assim» - deste tipo de músicas talvez seja o que tem levado dezenas e centenas e milhares de melómanos a passar a olhar para as danças de outros povos, não tão eurocêntricas. Saltam à vistas casos de editoras como a Nyege Nyege Tapes, a Awesome Tapes From Africa ou a ZZK, que muito tem feito em relação ao universo musical da América Latina. «A América do Sul ressalta por ter muito misticismo. A selva, a costa... Histórias de cosmologia indígena, no geral... São temas com os quais nos podemos identificar, venha-se de onde se vier. E estou de acordo: estávamos numa época muito eurocêntrica. E egocêntrica, também».

© Soraia Correia

Pode a música de dança electrónica escapar dessas amarras europeias e norte-americanas, como o hip-hop o tem feito? «Para mim sim, porque não venho da Europa», explica. «Não tenho problemas com isso». No entanto, «a América do Sul foi sempre muito influenciada pelo Ocidente. Com Siku, queria trazer de volta as tradições». Por exemplo, «convidar pessoas a participar, crianças que não sabem tocar um instrumento. A visão Ocidental é diferente: é a elite que toca a música. São eles que sabem tocar e são eles que podem pertencer ao círculo de músicos».

Ainda assim, e apesar de Siku ter uma sonoridade mais de raiz, não se pense que Nicola Cruz irá andar com a sua jazz band (como lhe chama em relação ao álbum) às costas. Ao vivo, a música transforma-se; esta não é, afinal de contas, uma digressão feita em torno deste disco. Há elementos da música de dança aos quais Cruz vai juntando uns pequenos toques daquilo que construiu, no conforto de uma casa ou de um estúdio. Em palco, apresenta-se sozinho e sozinho continuará: «Nunca irei apresentar Siku com banda. Gosto de tocar e organizar-me sozinho. Manter o formato tradicional do performer electrónico», explica. Pensávamos nós que a música era sempre uma experiência colectiva... «Não creio que o seja sempre. Há esses dois momentos. Por exemplo, um produtor passa muito tempo a compor sozinho, na sua cabeça, no seu mundo interior».

O que ouvimos então no Lux, depois de termos estado à conversa com Nicola Cruz, é aquilo que muitos outros fãs ouvirão nos próximos espectáculos do músico. «Não quero chamar-lhe "Siku tour", compromete demasiado. Cria falsas expectativas». Este, diz, «é um disco que tem momentos em que estás mais tranquilo, outros mais dançáveis, e por aí fora. O que faço sempre é tocar música nova, composta no momento, e integrar-lhe partes do Siku que ache que se conjuguem com um contexto de clube». Mas o objectivo do álbum não era o de soar mais "tradicional"? «Não necessariamente. Um dos meus objectivos era desafiar-me a mim mesmo. Experimentei com sound design, microfonia, acústica. Talvez por isso soe mais tradicional». E se Prender El Alma, o disco anterior, teve direito a um álbum de remisturas, não se espere o mesmo de Siku. «Não quero», e se quisesse, as remisturas «teriam que ser feitas por alguém em quem confiasse, amigos próximos. O Peter Power, por exemplo».

Tradicional ou não, com remisturas ou não, Siku é precisamente aquilo que um clube não tende a ser: um raio de luz. Um encanto numa era que os não tem. Uma prova de que é possível convivermos todos, sem discussões, sem lamentos, sem nada para além do respeito e sorrisos mútuos. Numa entrevista anterior, Nicola Cruz afirmou «sentir uma essência que nos liga a todos». Se ela existe de facto, por que motivo procuramos, incessantemente, construir tantos muros? «Por egoísmo, talvez. Somos criadores e destruidores». Como Deus? «Sim, cada um se crê Deus».


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
13/03/2019