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Maria
Isto não é uma entrevista


São muitos os nomes que David Almeida utiliza para assinar a sua música, mas um deles ganhou maior proeminência nos últimos tempos: Maria. Isto Não É Uma Beat Tape tomou de assalto a imprensa e os melómanos mais sintonizados com a electónica e o hip-hop, mas é uma cassete (sim, uma cassete!) que poderá agradar a todos os fãs de música. Criado em Alverca, onde ainda reside, David / Didi / Maria aceitou falar-nos num dos ex libris da cidade, e um dos poucos sítios que ainda vale a pena visitar para beber uns copos, o Netos d'Avó. Isto depois de um longo passeio pelas salinas, pelo caminho à beira-rio e à beira-pista de aviões e por edifícios abandonados na Póvoa de Santa Iria. E durante um jogo do FC Porto contra o Moreirense que os primeiros foram vencendo à medida que a conversa corria. Un pasito pa'delante, María:
Preferes Didi, ou David?

David.

Como é que te chamavam na escola?

Didi. [risos] Os profes chamavam-me David, mas os colegas chamavam-me Didi.

Não tinhas nenhuma alcunha específica?

Era só Didi.

É por não teres tido nenhuma alcunha que utilizas vários nomes na música que fazes? Tens MUDDO, tens Maria...

Não, acho que não.

Quando estás a compor, pensas no nome com que assinarás? Do género: esta malha vai para MUDDO, esta vai para Maria... Ou é mais do tipo improviso e só depois é que decides?

Ya, só depois é que decido.

Trabalhas em casa? Com que equipamento?

Sim. Uso um sintetizador digital, dois analógicos - os Volcas - e o Ableton Live.

Porquê o Ableton?

A metodologia do programa enquadra-se bem no meu workflow. Mas, antigamente, utilizava uma MPC.

Porque é que já não a utilizas?

O Ableton é mais versátil.

O que te inspira quando estás a trabalhar?

Esta cidade inspira-me bué... O facto de não haver nada aqui inspira-me profundamente. [risos] E as ideias surgem-me quando ando de transportes públicos...

© Rita Sousa Vieira

És daquelas pessoas que andam sempre de phones nos transportes públicos?

Não, não ando de phones nos transportes públicos. Só se houver pessoas a falar da vida alheia e que me estejam a incomodar é que os meto. Normalmente, [andar de transportes] é o momento em que não ouço música.

Só ouves música em casa e em concertos?

E no trabalho. Passo o dia todo de phones.

Tu és designer, certo? Também és tu que tratas do artwork dos teus trabalhos?

Sim, do último de MUDDO e de Maria fui eu.

Porque é que achas que não se passa nada nesta cidade? [n.a.: é verdade.]

Epá, acho que está a uma distância muito curta de Lisboa, [o que significa] que as pessoas se movem para lá. E a uma distância suficiente para que tudo o que haja seja menos agradável, digamos assim. Tens um público muito pouco educado.

Concordas com a opinião dos SAUR de que isto é um dormitório? Achas que isto alguma vez se irá alterar?

Concordo. Só se altera se houver ali um aeroporto, na base da Força Aérea...

Se a Câmara Municipal desse mais apoios à cultura isto poderia, eventualmente, mudar?

Poderia, porque há várias pessoas a fazer música em Alverca. Tens o exemplo dos SAUR, que tiveram de se mudar para Lisboa para continuar a fazer música... Mas acho que a maior dificuldade é o público. O público daqui é pouco educado.

Em que sentido?

Não tenta procurar coisas novas. É [bandas de] covers e pouco mais...

Com que idade começaste a fazer música? Já na altura estavas virado para a electrónica?

Catorze. Fazia hip-hop. Comecei a produzir com uma MPC e um computador.

O que é que te puxou para esse campo musical?

Andava de skate... E o skate está ligado à cultura. Podia ter virado para o punk, mas já apanhei uma altura em que o skate era bué presente na cultura hip-hop. E esta zona, a linha da Azambuja, teve sempre uma grande potencialidade no que toca ao graffiti, e o graffiti está directamente ligado ao hip-hop. Foi uma coisa que também me vez enveredar por esse meio. Curto a estética. A cena urbana estimula-me.

Falámos dos SAUR, mas ainda não falámos dos Black Bombain...

...Podemos falar...

O que é que retiras do período em que estiveste com eles?

A melhor experiência que tive de palco foi com eles. Não foi a primeira, porque já tocava antes - acompanhava outra malta que ia tocar e eu era tipo o backup DJ. Também no hip-hop. Foi uma adaptação bué fixe, porque, em primeiro lugar, estava habituado a trabalhar quase sozinho. Fazia um beat, produzia qualquer coisa, depois enviava-a... Não havia uma ligação de trabalho, de muita interacção. Foi com eles que comecei a tê-la. Aprendi a trabalhar em grupo, com dinâmicas distintas. Como produtor fazia uma base musical com todos os elementos - baterias, baixos, os instrumentos todos... Com eles, comecei a limitar-me só à minha função, que era a de tocar teclados.

© Rita Sousa Vieira

Isto tendo em conta que é um campo musical distinto, o reggae, apesar de algumas semelhanças. Ajudou-te a expandir horizontes musicais?

Sim, mas era completamente distinto. Ajudou mais ou menos. Mesmo no reggae eu curtia cenas como Thievery Corporation, Fat Freddy's Drop - que têm uma ligação entre a electrónica e o reggae -, mais a vertente dub...

Que aconteceu aos MATE? [n.a.: banda que se candidatou a tocar no Mexefest e depois desapareceu]

Não aconteceu logo. Demorámos ali um bocado de tempo a mais, e as nossas maneiras de estar na vida eram distintas... Eu trabalhava, eles estavam na faculdade, em cursos completamente diferentes... Vivíamos em sítios diferentes... Era bué difícil organizarmo-nos para fazer as coisas. E para estar a fazer algo no qual estás ali com pressão, e não sei quê... Mais vale cada um dar espaço à sua vida. E porque somos amigos desde infância. Às vezes, mais vale ficares com uma boa recordação de amizade, e partilhares isso, do que estragares tudo porque queres ter uma banda ou algo assim.

Porque é que Isto Não É Uma Beat Tape?

Porque o conceito de beat tape, na minha opinião, é "despromovido". Ou seja: tu podes ter vinte malhas feitas em dois minutos, que sejam, basicamente, só loops e que, todas organizadas, fazem uma beat tape. E eu não pensei assim. Criei uma estrutura na música, os temas têm ligações entre eles, tenho bué elementos gravados - não é só um loop... Interpretei aquilo como um EP, mesmo. É uma coisa mais conceptual.

Portanto pensas mesmo em termos de "canções".

Exacto. Aquilo, para mim, são canções. Só que sem voz.

Alguma vez pensaste em produzir para um rapper?

Já o fiz. Quando era mais novo. Produzi para o Phoenix, para o Magistrado, malta aqui da zona com a qual me dava. E eles tinham participações, deixavam entrar malta de fora nessas músicas. Continua a ser uma cena que quero fazer hoje em dia, explorar mais com outro tipo de pessoas, rappers e não só.

Com quem é que gostavas mais de trabalhar?

Epá... O que eu curtia mesmo fazer, no hip-hop, era produzir para o Keso. Não produzir directamente, mas fazer uma malha, construí-la ali entre nós dois. E já falámos sobre isso. Fora do hip-hop... Sei lá. Bué de gente. Mas o melhor, para fazer coisas fora do hip-hop, seria fazer remisturas a coisas que estivessem ligadas à música portuguesa, derivadas dessa cena. Os First Breath After Coma. Os PAUS, curtia remisturá-los.

Queres o contacto do Quim?

Manda-me depois, por MP...

Desde que lançaste o EP tens feito algumas remisturas...

Sim, é uma coisa que curto bué fazer.

© Rita Sousa Vieira

Porquê? Porque não precisas de ser tu a fazer a canção, por já teres ali material com que trabalhar - tipo plasticina?...

O que é fixe nas remisturas é a limitação que tens, que é a de não desvirtuar a malha original. Pelo menos a minha interpretação é essa. Mas, ao mesmo tempo, tens de pôr o teu cunho. É como se estivesses a fazer um jantar, mas só com recurso a cinco elementos. Se os deres a quatro pessoas diferentes, todas elas, certamente, farão quatro pratos diferentes. Ter essa limitação obriga-me a puxar pela minha criatividade de outra maneira. E também para não tentar cair na malha original, dar-lhe mais alguma coisa.

Qual foi, até hoje, a remistura que mais gozo te deu fazer?

Fiz uma, recentemente, para a "Brightly Night", do Sensei D. com o Nerve, o João Tamura e o Noiserv no refrão. Essa foi bué fixe, curti bué dessa.

Como vez a cena musical nacional actual, não só no hip-hop como noutros campos? Fomos ao Eurosonic, vamos ao SXSW...

Acho que a música está a passar pela melhor fase já vista, pelo menos desde que me lembro. Nós não tivemos grande impacto [internacional] nos anos 70, nos anos 80, e agora estamos a passar por isso. Daqui a trinta anos vais olhar para esta fase e pensar nos anos 10 como o auge da música portuguesa. Há bué espaço para bué linguagens distintas. Isso vai ser fixe. Vais ficar mesmo a pensar: "fogo, estes gajos naquela altura andavam a fazer isto"...

E até já começa a haver públicos para o hip-hop, num país que sempre foi mais do rock...

...E para diferentes estilos de hip-hop.

Qual é para ti o momento zero do hip-hop em Portugal? Na tua opinião houve algum rapper que contribuiu mais que os outros para que o hip-hop tenha deixado de ser nicho?

Há os Black Company, que foram muito importantes, mas não sei se serão o momento zero. Até porque na altura era demasiado novo (mas foi o primeiro disco que comprei). E mais do que os outros não creio, todos contribuíram à sua maneira. Mas a música que, na minha opinião, abriu as portas ao hip-hop em Portugal foi a do Sam the Kid. Os discos de instrumentais, principalmente, e depois o Pratica(mente). Abriu bué portas aos media mais generalistas e fez com que as pessoas estivessem mais de olho na cena. Mas acho que todas as pessoas que estão dentro disto - e fora disto, mesmo que não sejam músicos - fizeram com que o hip-hop tivesse, hoje em dia, mais credibilidade. Ajudaram a educar o público para que houvesse espaço para coisas mais distintas. Já não ser só aquilo que era ou é suposto ser.

E já pensaste em trabalhar com o Sam the Kid?

Era um bocado difícil que isso acontecesse... [risos]

Porque ele está numa posição inatingível, ou porque tens vergonha?

Não é uma questão de vergonha nem de posição... Normalmente trabalho com pessoas que conheço pessoalmente, com quem tenho uma dinâmica pessoal, de afinidade, de amizade. O que não é o caso com o Sam. E porque são linguagens distintas. Uma remistura oficial? Fazia na boa. Trabalho directo não me parece que venha a acontecer. Mas era fixe que acontecesse... [risos]

Como é que preparas os teus concertos? Ainda te sentes nervoso?

Sempre. Sofro de mega ansiedade. Uso extractos das músicas originais, peças que são, digamos, os leads, que identificam as canções, e depois estão todas separadas e eu, ao vivo, vou construindo as canções com outras dinâmicas. Improviso na altura. Tem mais ou menos uma estrutura mas não é regrada: o que vais ouvir ao vivo conseguirás identificar em determinadas partes, mas a música original não está feita dessa maneira. E sigo um alinhamento.


© Rita Sousa Vieira

Porquê "Maria"?

Primeiro porque não tinha nome quando concorri ao concurso do Rimas e Batidas. Não estava a fazer, assumidamente, hip-hop com uma identidade. E pensei: vou mandar uma cena com um nome aleatório. E achei Maria um nome fixe, porque também é um sinónimo de carinho, [a expressão] "a minha Maria"... E também por ser um nome comum. E porque a música não tem que ter uma identidade, um sexo, uma raça. Não deve haver diferenças, nas oportunidades, na música que fazes, que sejam influenciadas por género, idade, ou estrato social. Sou um homem, faço música com um nome feminino. Mas isso não quer dizer nada. Até porque a música é instrumental - cada um tira dela a ligação que quiser.

E em relação a MUDDO?

Isso é porque, na altura, tinha outro projecto de electrónica, com um guitarrista - os A2 Project -, e como deixámos de trabalhar senti que era altura de mudar, e então... MUDDO. [risos]

Onde é que te vês daqui a dez anos?

Aqui em Alverca. Ainda. Curto deste sítio. Posso ir parar a outro lado... Mas podes sair de Alverca que Alverca não sai de ti.

Há algum festival em que gostasses especialmente de tocar?

Festival era o Sónar, sem hipótese. A internacionalização é um goal. Este ano é pouco provável que aconteça, [até porque] trabalho em tudo sozinho. Mas daqui a dois anos, talvez, gostava que isso acontecesse. A vantagem de fazer música instrumental é essa, não tem uma linguagem, portanto não tem uma área geográfica específica à qual tenha de estar restrita.

Vais ver Thievery Corporation nas grades?

Mais uma vez. [risos]

Que mais te atrai na música deles?

Acho que há ali uma ligação muito bem conseguida entre a world music e a electrónica, está muito bem feita. Tem uma dinâmica muito fixe, tu num concerto vês doze elementos distintos em palco, em momentos distintos. E curto a sonoridade lounge... Consegues abanar a cabeça, 'tá-se bem...

© Rita Sousa Vieira

Já estás a pensar noutro nome para fazer algo diferente depois de MUDDO e Maria?

Acho que não. Para já, não. Vou gerir estes dois, principalmente Maria. O ideal, aliás, era conseguir cruzar as duas linguagens tão bem que acabasse por só ter uma cena. Um ponto em que não sabes bem o que é, como fez Bonobo. Começou com uma cena bué trip-hop, depois há ali discos que passam por outro tipo de electrónica, e agora está num momento [em que não distingues]. E, cada vez mais, irá haver uma mistura entre sub-géneros. E cada vez há mais espaço para isso. Hoje em dia estás tão mais receptivo a tanta coisa, tens informação a correr tão rápido... Ficas sujeito a influências distintas. Estás no teu Facebook, vês o feed, um partilhou uma coisa, outro partilhou outra, e tu podes gostar das duas... São elementos distintos que são referências para ti, à mesma. Vai acontecer cada vez mais.

Como é que vai ser o teu espectáculo no Lisbon Dance Festival?

Epá, não é bem um espectáculo... É mais um workshop/conferência em que vou apresentar praí três músicas e vou explicar a forma como as faço. Como é que construo o set, como o divido, quais são os impulsos para eu fazer aquilo assim, o que me motiva...

Achas que esse tipo de eventos também serve para abrir as portas à malta que faz música em casa, e que é totalmente amadora?

Ya. E para desmistificar o trabalho das pessoas. Ainda há aquela onda de estares a ver um gajo da electrónica a tocar, e não perceberes muito bem o que é que ele está a fazer... Se houver espaço para ele to explicar...

Sentes algum preconceito, ainda, por fazeres música electrónica? Do estilo: "é só um gajo a carregar em botões"...

Não, porque o meio em que estou a tocar é formado por pessoas que já vieram de outros estilos musicais mais "tradicionais", digamos assim, e que hoje em dia conseguem perceber as potencialidades da electrónica. É um público mais consciente. Num campo mais generalista, acredito que possa existir esse preconceito. Mas não é o tipo de pessoas com as quais tenho estado envolvidas. Normalmente cago para essas pessoas...


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
31/01/2017