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Hauschka
Brincadeira de crianças


Imaginemos cidades abandonadas, umas a seguir às outras, onde o rasto humano ainda é notório - pelas casas, pelos escritos nas paredes, pelas centenas e centenas de objectos deixados para trás -, não tendo sido completamente absorvido pela natureza, pela ramagem, pela selvajaria e até pelo esquecimento. Imaginemo-nos no centro dessas cidades, a única respiração no meio do deserto. Imaginemos a música que daí brota, tensa e nostálgica, banda-sonora de um lugar onde o tempo não corre. Assim é Abandoned City, o novo disco de Hauschka, editado o ano passado, que de "Elizabeth Bay" a "Stromness" traça um fio contínuo de memórias falsas - ou não - a partir da imaginação do seu autor, sendo a "imaginação" algo que, na maioria das vezes, deixamos que seja tratada pelas crianças. Apanha-se Hauschka ao vivo e percebe-se que ele é, grosso modo, uma criança, pela forma como vai dando corpo ao seu piano preparado, recorrendo a uma série de artefactos à procura do som perfeito, tal como um DJ busca incessantemente a batida perfeita. Esta semana, regressará a Portugal, desta feita a solo, escassos meses após ter subido ao palco do Teatro Maria Matos. Volker Bertelmann, em discurso directo ao Bodyspace.
Na preparação do teu piano, utilizas uma série de objectos, como bolas de pingue-pongue, moedas, até mesmo vibradores, entre outros. Que objectos crês proporcionarem o melhor som?

É difícil dizer. Há muitas coisas que fazem óptimos sons, dentro do piano. Uma das minhas favoritas talvez seja a surdina, que é usada por afinadores de pianos - parecem paus e permitem ao tom do piano um som parecido com uma espécie de timbalão.

O teu último álbum, Abandoned City, possui uma temática comum - a das cidades fantasma, com a maioria das canções a ter o nome de uma. Visitaste-as a todas? Quanta música existe em cidades abandonadas? Que há nelas de tão inspirador?

Não visitei nenhuma delas porque, na verdade, utilizei essas cidades como metáforas para um sentimento que tenho ao compor... sinto-me um pouco como uma cidade abandonada - o que não é um sentimento triste. Talvez seja o sentimento que tens quando sabes que o teu tempo na terra é muito restrito. Acho que existem imensos sons em locais abandonados, talvez porque a calma permite aos sons da natureza ouvirem-se num volume muito mais elevado. A inspiração será a história que tiveram e o futuro indefinido que têm. É como uma espécie de reset.

Uma delas, "Pripyat", foi buscar o nome àquela que porventura será a mais famosa das cidades abandonadas e, num álbum já de si prenhe de tensão, é para mim a canção mais tensa de todas. Foi propositado, considerando que a Alemanha também sofreu com o desastre de Chernobyl? Qual é a tua opinião acerca da energia nuclear e das armas nucleares, e que te pareceu a decisão do governo alemão de fechar todas as suas centrais nucleares até 2022?

Acho que para dar às nossas crianças ou à geração seguinte boas perspectivas de futuro precisamos de alterar algumas coisas, e o tempo para grandes discussões escasseia. Apoiei essa decisão, mas só acreditarei quando estiver realmente posta em prática, porque os lobbies da indústria são poderosos e querem fazer-nos acreditar que precisamos mesmo deste tipo de energia perigoso. Os humanos não foram feitos para fazer decisões claras e lógicas... têm de ser forçados a tal, às vezes após uma catástrofe, para que aprendam. Há uma mudança nas opiniões acerca da energia nuclear após Fukushima, após o que aconteceu na Alemanha e o que aconteceu no Japão. Para além disso, sou completamente contra o armamento nuclear, ainda que tenha tido um papel no longo período de paz que se vive na Europa.

Este será o teu segundo concerto em Portugal, este ano, após te teres apresentado no Teatro Maria Matos com a Hildur Guđnadóttir; agora, estarás a solo. A tua abordagem à música é necessariamente diferente quanto tocas ao vivo com alguém do que quando estás sozinho em palco?

Sim. Sinto-me muito mais à vontade para tocar ao meu estilo e de acordo com aquilo que sinto nessa ocasião, por oposição a tocar com alguém. É comparável a estar sozinho em casa: às vezes é óptimo ter tempo para ler e para decidir quando queres comer, mas também adoro estar com outras pessoas, a planear coisas juntos. Isso torna-te flexível. As pessoas que vivem sempre sozinhas podem tornar-se estranhas... por isso, tocar sempre a solo faz-me sentir solitário.

© Mareike Foecking

Disseste numa entrevista recente que tocarias sobretudo canções do Abandoned City, e que estas seriam como que "remisturadas". Como é que isso se irá processar, exactamente? Para ti, um concerto ao vivo é uma oportunidade de experimentar com a tua própria música?

Na verdade, irei utilizar temas, ritmos e padrões do Abandoned City, e trabalhar com eles de forma divertida. Não sou o tipo de pessoa que quer tocar exactamente a mesma canção que está no álbum, uma e outra vez. Numa noite isso poderá acontecer, mas regra geral estou feliz por ter a liberdade de reagir espontaneamente. Os concertos ao vivo são especiais e a energia entre mim e o público é especial... Por isso é óptimo interagir com eles e fazer disso uma experiência única.

A tua música é praticamente inclassificável - a maioria das pessoas coloca-te junto a compositores clássicos, mas também existem elementos de música pop e música electrónica. Como descreverias a tua música, sonoramente falando?

A minha música é música contemporânea ao piano, e o meu novo trabalho com a Orquestra Sinfónica MDR baseia-se em composições contemporâneas. Ambos têm elementos de noise, beats e música electrónica, mas ao mesmo tempo tentam ligar-se a uma ideia de "classe"... Acho que a pior descrição que podem fazer da minha música é "Neo-Clássica", que é basicamente tu num barco com a música de piano mais azeiteira que possas imaginar. É um género bastante aborrecido.

A tua música também é descrita como "cinematográfica", e já fizeste bandas-sonoras para filmes. Há algum realizador com o qual gostasses particularmente de trabalhar?

Não especificamente... Acho que, regra geral, interesso-me por filmes que utilizam verdadeiramente a música, e não como uma espécie de carpete com a qual se cobre um enredo fraco. Creio que a música, nos filmes, deveria ser feita antes ou ao mesmo tempo que este é filmado, já que existem inúmeras possibilidades para pensar em cenas diferentes quando tens a música em mente. Claro que tudo isto é idealismo: estou, neste momento, a trabalhar em música para um filme que já está feito... Mas o que gosto, na verdade, é quando existe uma boa ligação entre o realizador e eu, no que toca a encontrar a melhor solução para o filme - que tanto pode ser não existir quase música nenhuma no filme como este ter música do início ao fim.

Nos teus concertos, na maior parte das vezes assemelhas-te a uma criança a brincar com um piano enormíssimo, a enfiar coisas lá dentro para ver a que soa... Crês que este aspecto mais divertido de trabalhar com um piano preparado é uma extensão da tua infância sem preocupações? Tens três filhos: já lhes mostraste o quão divertida pode ser a música?

Tento mostrar aos meus filhos todas as experiências pelas quais passo. Claro que para algumas explicações eles terão de chegar a uma certa idade, primeiro... Mas, regra geral, quero transmitir-lhes o meu conhecimento, e fico feliz quando conheço pessoas mais velhas que eu, que me ensinam como devo portar-me ao vivo. A brincadeira e a aleatoriedade é algo que me ajuda a sentir-me vivo, por oposição a ser apenas uma parte de uma máquina que cria grandes espectáculos para as massas, com jogos de luzes... Quando és parte da máquina perdes esse lado de brincadeira porque é tudo planeado antes de sequer tocares uma nota. Procuro reinventar-me sempre que posso.

Após o Abandoned City e as digressões, que se seguirá na vida de Hauschka?

Como já disse, estou a trabalhar com uma Orquestra Sinfónica, e um coro, e continuarei a compor música para conjuntos clássicos. Tenho também algumas colaborações em mente... Em Junho e Julho sairão dois novos discos: um deles gravado ao vivo, intitulado 02.11.14, que será um exemplo das "remisturas" das canções do Abandoned City, e outro que conterá canções extra desse mesmo disco, incluindo remisturas de Eluvium e Devendra Banhart. Serão ambos lançados exclusivamente em vinil, em edições limitadas. Também farei mais música para filmes e, ainda, música para um projecto de dança.


Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com
26/05/2015