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Gramme
Vai um grama?


São sucintos, mas incisivos. 2013 foi, para poucos, um ano melhor porque os Gramme decidiram fazer-se à estrada e lançar o seu primeiro álbum, Fascination. Mas esta não é a melhor parte da história. Estamos a falar de veteranos, nascidos a meio da década de 90, e que o tempo foi enrugando, remetendo-os para o quase anonimato. Há quem diga que foram um dos grupos que mais influenciaram a sonoridade da DFA. Nós não tínhamos a certeza e por isso fomos falar com eles. Luke Hannam, baixista, contou-nos em poucas palavras como fazer renascer das cinzas uma banda com um passado turbulento mas um futuro já cheio de planos.
Primeiro que tudo, devo confessar que só soube da vossa existência na primavera de 2013. Depois, fiquei bastante surpreendido, ao deparar-me com um excelente disco de uma banda que esteve dez anos parada. Têm tido mais pessoas a abordar-vos desta forma?

Acho que sim. Temos a noção de que, apesar de termos sido uma influência para outros artistas, somos relativamente desconhecidos para a maioria das pessoas.

Há muito pouca informação sobre vocês na Internet. Quem são, afinal, os Gramme?

Os Gramme são uma banda de quatro elementos de olhos postos na música de dança, sobretudo nos primeiros movimentos post disco e no wave. A nossa sonoridade continua a ser guiada pelas nossas influências mais remotas, como ESG ou Liquid Liquid, mas também por sonoridades contemporâneas tal como Juan MacLean, Solomun e Disclosure.



Como já foi dito, vocês esperaram dez anos até lançarem o primeiro longa-duração, sem sequer darem concertos. Parece-me comparável ao cenário de alguém que passa uma década encarcerado e é libertado de repente, vendo na liberdade um corpo estranho. Como é que lidam com isto, agora? Como é que estão a correr os espectáculos?

Os concertos têm-nos ajudado bastante a definir a nossa sonoridade e têm ficado cada vez mais fortes ao longo do último ano. Provavelmente tocámos mais vezes em 2013 do que na nossa carreira inteira. Tocar ao vivo, sobretudo em França, ajudou-nos a criar o novo material, com o qual estamos muito entusiasmados, com uma sonoridade que é uma progressão natural de Fascination, mas podem esperar faixas mais uptempo!

Quando falam na influência que tiveram em bandas como os Hot Chip e outros projectos, isso deixa-vos não só orgulhosos, mas ao mesmo tempo com um sabor agridoce (não interpretem como inveja), sabendo que podiam ter “explodido” há muito mais tempo? Talvez não quisessem, nessa altura…

Não temos inveja nem guardamos rancor, somos muito positivos. E, olhando para todos os outros, estivemos sempre ocupados de diferentes formas, não sentimos que tenhamos desperdiçado tempo. Tudo aconteceu como devia ter acontecido, e se houve algum benefício com o trabalho de artistas como os LCD Soundsystem ou os Hot Chip, foi precisamente o facto de eles terem aberto caminho para bandas como nós.

Vocês foram uma grande influência na sonoridade da DFA, mas nasceram dos anos 80, dos New Order aos Liquid Liquid, combinando essa vertente com uma certa sujidade, que é uma das coisas mais interessantes na vossa identidade. Concordam com isso? Como é que chegaram a este som?

A sujidade representa a urgência, o som da emoção! Acho que podemos fazer o paralelo com o tipo de som das vozes nas primeiras gravações de blues – cruas, emocionais e directas. Da primeira vez que a banda terminou estávamos completamente obcecados em obter os sons mais sujos possível, velhos amplificadores de baixo, altifalantes estragados, o Leo (baterista) chegou a usar pratos de choque partidos para alcançar um som ainda mais desintegrado…acho que é uma textura que consideramos inspiradora. O David também tem muito interesse na musique concrete e adora criar sons totalmente novos, recorrendo a todo o tipo de técnicas de estúdio como tape looping, sampling de sons de rua, etc. Olhamos para trás, para um tempo em que os artistas se dedicavam a uma procura intensa de novas texturas e tinham que ser inventivos para criar um som, com equipamento muito caro, sobretudo tecnológico. Acho que isto promoveu uma abordagem mais experimental.



Pelo que vi no vosso facebook, já estão a gravar o segundo disco. O que é que nos podem adiantar?

É definitivamente um passo em frente, em relação a Fascination, mas com todas as referências clássicas no sítio. Vai haver temas mais acelerados, mas não temos qualquer intenção de deixar para trás o bichinho da experimentação. Vamos apostar mais nas vozes, reflectindo o ano incrível que a Sam teve. São os Gramme clássicos, pujantes, apaixonantes, com uma onda de disco nascida de uma autêntica aventura em estúdio.

Porquê o nome, Gramme?

Gramme é uma palavra fixe e sentimos que representa as nossas atitudes individuais, mas não me perguntes porquê porque não sei mesmo explicar… Os nomes das bandas são como truques de magia, funcionam melhor quando não os consegues entender.

Estão a planear vir a Portugal? Digam que sim, adorávamos tê-los por cá.

Adorávamos tocar em Portugal, só precisamos de um promotor para nos marcar um concerto (risos).


Simão Martins
simaopmartins@gmail.com
13/01/2014