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La La La Ressonance
La La La não é um refrão


Os La La La Ressonance são André Simão, Gil Teixeira, Jorge Aristides, Ricardo Cibrão e Paulo Miranda, vêm de Barcelos, não cantam mas são polivalentes. Nascem em 2005 das cinzas dos The Astonishing Urbana Fall com quem chegaram a tocar em festivais como Vilar de Mouros ou Paredes de Coura. No ano seguinte lançam Palisade, o primeiro álbum da banda, assentando numa atmosfera claramente amadurecida entre o experimentalismo e o jazz. Desde cedo criam os primeiros laços da sua música com o cinema criando, entre outras, a banda sonora do Le voyage dans la lune de Méliès, como fizeram os conhecidos Air ainda este ano. Ainda em 2009, editam Outdoor sempre sem se desviarem do conceito inicial. O terceiro e último álbum, inspirado no filme do expressionista alemão F. W. Murnau, foi lançado em Abril de 2012 pela PAD com a participação especial de The Astroboy. Gil Teixeira, guitarrista do grupo, conta-nos que "Faust é mais escuro, denso, progressivo e extremado." A música dos La La La Ressonance não é "previsível, escolástica", nem tampouco fácil de ouvir. Não é dreampop, nem jazz convencional. Mas estimula o nosso imaginário com o aparente improviso límpido de canções sem letra.
Como passam de The Astonishing Urbana Fall a La La La Ressonance?

Esse rebaptismo do mesmo leque de músicos tem sido sempre encarado com estranheza por quem não viveu o processo por dentro. Para nós foi um passo lógico dado o crescente afastamento da música que estávamos a criar na altura face à matriz estética dos The Astonishing Urbana Fall.

Surge naturalmente como uma forma de amadurecimento musical?

Claramente. Eu diria que na transição dos The Astonishing Urbana Fall para os La La La Ressonance deu-se uma mudança de enfoque, da performance para a composição. Os The Astonishing Urbana Fall eram aquilo que levavam ao palco, e nunca o pisavam para se repetirem, tendo ficado célebres vários devaneios performativos da banda. Dos La La La Ressonance queremos que perdure sobretudo a música que fazemos. E acho que amadurecer é isso mesmo: sentirmo-nos confiantes e fluentes ao ponto de abdicarmos de artifícios. A matéria prima já diz quanto baste.

Ainda nos anos 90 tocaram em Vilar de Mouros e em Paredes de Coura. O que guardam daí e o que pensam disso volvidos mais de dez anos?

Ainda não fazia parte da banda nessa altura, mas marquei lugar no público. Havia uma atenção muito maior à música e muito menos do folclore que hoje gira em torno deste tipo de eventos. Eram oportunidades únicas para ver e conhecer alguns projectos.

E tocar em Barcelos é diferente de alguma forma?

Traz consigo o conforto do jogo em casa, e isso reflecte-se sobretudo na nossa interacção com o público.

Confirmam o misticismo que ronda a cidade?

Eu sou um barcelense que desde muito cedo se afastou de Barcelos. Não sou outsider nem insider, portanto. E deste limbo em que me encontro, sinto que toda a mística em torno da cena musical barcelense se tornou numa espécie de profecia auto-realizável, alimentada quer pela imprensa quer pelas bandas da cidade.

Sobre Faust, como surge o processo de criação? Estavam parados há algum tempo...

Nós nunca estivemos parados. Só não nos movemos tanto na esfera mediática. No ano anterior a este, por exemplo, abraçamos um projecto megalómano chamado Daqui a Dili, o qual foi levado ao palco da Casa da Música no verão de 2011, e que envolveu para além da banda uma orquestra juvenil, um coro infantil e o Gamelão da Casa da Música. No que diz respeito a Faust, o processo desencadeou-se duma forma bem familiar aos La La La Ressonance: através de um desafio externo, neste caso, vindo do Cineclube de Joane.

O filme inspirou o álbum ou a banda sonora original do filme inspirou o álbum?

Uma variação sobre a primeira hipótese: o filme inspirou a nossa banda sonora original, a qual por sua vez serviu de matéria prima para o álbum.

O que muda essencialmente de Outdoor para Faust?

A cor e a amplitude expressiva. O carácter hiperbólico do filme transportou a nossa música para registos impensáveis nos álbums anteriores: Faust é mais escuro, denso, progressivo e extremado.

Convidaram o Astroboy para compor em conjunto convosco. Como aparece no meio disto?

Aquando da primeira audição dos temas gravados para o disco, fomos invadidos por um sentimento de orfandade face ao filme que nos tinha acabado de abandonar. Era imperativo colmatar essa ausência antes que ela pudesse de alguma forma fragilizar a nossa relação com o objecto em mãos. Surgiu então a ideia de uma parceria sónica que cumprisse essa missão, e em simultâneo o nome do Luis (aka Astroboy), um "vizinho" cujo trabalho acompanhávamos com admiração e respeito.

Ao vivo contar-se-á sempre com a projecção de vídeo?

Temos vários formatos possíveis em carteira para actuações La La La Ressonance. Para já, enquanto durar a tour de promoção do novo álbum, devemos manter a projecção de video sempre que possível. Mas temos preparado um concerto mais old school, logo que faça sentido.

Acham que a música deste álbum não se pode dissociar das imagens, do filme?

Pode e deve. Ela é autónoma da sua fonte. Quem nunca tiver visto o filme e ouvir o nosso disco jamais se irá sentir perante algo de incompleto. O filme foi apenas o nosso ponto de partida, o disco foi onde nós chegamos.

Qual o conceito do artwork neste disco?

É expressa um ideia de contaminação da realidade e do quotidiano sobre as utopias (neste caso, fundamentalmente, as do personagem principal: Fausta). O disco representa graficamente a virtude, aprisionada e viralizada pela tentação. Ou uma quimera que se esconde dentro duma espécie de carapaça inacessível. É uma representação abstracta mas apesar de tudo simples e directa de binómios filosóficos e existenciais clássicos.

Como não definiriam a vossa música?

Previsível, escolástica, passível de ser inserida num festival de verão entre a Hannah Montana e o Justin Bieber.

Daqui a três anos, haverá outro álbum?

A aparente regularidade do nosso ciclo editorial é mera ilusão, pois nada foi planeado nesse sentido. Daí que pode ser daqui a 3 anos, antes ou depois. Mas eu sinto que o intervalo inter-discos dos La La La Ressonance tem jogado a favor da banda, e que a imensa actividade criativa que temos tido noutros campeonatos, acabou sempre por se revelar decisiva na hora de gravar um disco novo. Prefiro o silêncio ao picar do ponto mediático.


Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com
12/06/2012