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Dälek
Guerrilhas na bruma


Vivem-se os dias contados pela prosa distorcida. Os Dälek são implacáveis praticantes de pugilismo mental. Fiquei a saber – após ter visto o oscarizado Million Dollar Baby - que no boxe tudo funciona ao contrário. Quando o trio devia actuar para um público que percebe o hip-hop, fá-lo diante de quem prefere o peso do metal. A tradição obriga a que um crew defenda o seu território, os Dälek assinam tréguas a cada vez que fazem coabitar dois extremos na mesma terra de ninguém. O Bodyspace foi ao encontro do mentor Dälek (MC/produtor/autor máximo) e ficou a saber das melhores formas de combater a ausência de ideias.
Ao escutar Absence, fiquei com a noção de que estes ainda são tempos difíceis. Até que ponto este é um disco elaborado a partir da tensão?

Dälek: Desde sempre que a nossa música percorre a mesma linha que Absence. É óbvio que o actual clima sócio-político pesou muito na sua concepção. Não creio que seja um disco reaccionário perante George Bush, já que o problema vai além de uma pessoa apenas. Caso Kerry tivesse vencido as eleições, o álbum seria igual. Não reprovo apenas uma pessoa, mas sim o sistema como um todo. O problema existe há 200 anos e não apenas desde há alguns anos para cá. É inegável que as coisas têm piorado. Provavelmente, o mandato Kerry não resultaria em algo muito diferente. Dar-me-ia por satisfeito com um presidente que soubesse ler.

Interpretei Absence (ausência) como uma referência ao desaparecimento das torres, tal como vistas a partir de New Jersey. O título está relacionado com isso? Presumo que também possa estar associado à falta de “tomates” no hip-hop actual...

D: Não ponderei atribuir um significado específico ao título do disco. Parece-me interessante referires a ausência das torres. Vou aproveitar essa ideia para um próximo disco [risos]. Existem tantas forma de ausência no mundo de hoje: de liberdade, de humanidade. A lista poder-se-ia prolongar indeterminadamente. Basta preencher o espaço em branco. Talvez se refira à ausência de capacidade artística entre o meio musical. Não me estou a referir apenas ao hip-hop. Dá-me um enorme prazer testemunhar o que de melhor tem vindo a surgir no underground, especialmente no que se refere a hip-hop. Gente como os Immortal Technique, MF Doom, Cannibal Ox. Uma grande variedade de artistas a fazerem boa música. No entanto, não recebemos o mesmo tipo de atenção que os artistas mainstream. O problema passa pela sobreexposição do hip-hop mainstream, que acaba por definir a noção que as pessoas têm do género. A popularidade não impede a música de ser hip-hop. Mas essa é apenas uma facção, de muitas. Não pertenço àquela facção underground que coloca o mainstream de parte. Creio que toda a música tem o seu propósito e lugar. Aprecio uma faixa de 50 Cent tal como uma de My Bloody Valentine ou Public Enemy. Costumo usar a seguinte analogia: quando estás num strip-club, é natural quereres escutar algo apropriado.

Excelente analogia.

D: Eu não desejaria escutar Dälek nesse caso [risos]. Mas nada disso torna a minha música pior ou melhor do que a restante. O 50 Cent ou quem quer que seja não é melhor ou pior que nós. Representa estilos diferentes. A minha ira não foca alguém em particular, mas sim a indústria musical e o que se oculta além dela. Porque, de forma inerente, continua a ser uma indústria racista, pela forma como estabelece os estereótipos que retratam a minha etnia. É óbvio que os negros e latinos são responsáveis por uma quota parte de criminalidade equiparável à dos brancos. Porém, os primeiros vêem os seus crimes glorificados e expostos até à exaustão pelos media. Esse tipo de exposição acaba por estabelecer uma definição errada do que somos. Se permitissem o mesmo tempo de antena a todas estas facetas da nossa cultura, dariam conta de que tudo isto é espantoso.

A gravação do disco funcionou como terapia?

D: Todos os discos funcionam como terapia.

Falas por ti ou pelos três?

D: Talvez não deva falar pelo colectivo, mas acredito que tenha sido igualmente terapêutico para eles. No meu caso, tenho a oportunidade de subir a um palco e estardalhar sobre tudo o que me parece errado.

Deitar tudo cá para fora...

D: Sim, quem me dera que mais gente usufruísse de um meio para expor a sua raiva e frustrações. Sou um tipo perfeitamente normal fora do palco.

É habitual referirem o controlo de qualidade em entrevistas. Caso isso implique a aprovação dos três perante a inserção de uma faixa no álbum, será mais provável que venhamos a escutar esse material sobressalente em discos futuros ou pela mão de projectos a solo?

D: Tudo isso acaba por surgir sob diferentes formas. O caudal de produtividade é de tal forma imenso que nem sabemos ao certo o que fazer com tudo. Quando algo não me parece apropriado aos Dälek, é bem provável que porções disso surjam nos discos de Oddateee [o MC apadrinhado pela banda]. Caso haja uma faixa que lhe agrade mais do que a nós, não se acanha em perguntar: “Posso tentar essa?”. Nós aceitamos sem problemas. Grande parte do que produzimos emerge em colaborações. A verdade é que continuaria a praticar o meu som, independentemente de ser ou não editado em disco. Não existe um ego Dälek que obrigue a minha música a surgir com a minha assinatura. Pode surgir em qualquer disco. Nada disso me importa. A matéria encontra-se em permanente mutação. O que começa por ser um faixa Dälek acaba por se tornar um exercício country da Laura Minor [cujo novo Let Evening Come foi produzido por Dälek e Oktopus].

Isso é surpreendente.

D: Adoramos a nossa música e fazemos os possíveis para que o que editamos represente o melhor do que produzimos. Não chegamos a lançar metade do que compomos, nem creio que o mundo esteja disposto a receber essa outra metade [risos].

Fazes por manter intacta a essência dos Dälek, mesmo quando colocas a vossa música nas mãos de Kevin Martin (Techno Animal) ou I-Wolf?

D: Sucedem-se duas situações distintas. Os Techno Animal tinham o seu trabalho definido antes de eu intervir. Enviaram-me a faixa, inseri as minhas vocalizações e enviei-a de volta. A produção ficou a cargo deles. Tal só acontece com alguém que mereça a minha total confiança. Não tenho por hábito colaborar com produtores que não permitam um trabalho conjunto.

Tudo se torna mais nobre...


D: Grande parte dos produtores concede-me o direito de escutar o resultado final e tecer uma apreciação final. Agrada-me intervir no processo e a fusão de ideias frequentemente resulta em melhores músicas. Quando me agrada por completo a música e método de produção de alguém – e, neste caso, Techno Animal é um exemplo perfeito -, não tenho problemas em ceder carta verde. Tudo ocorreu de uma forma bastante diferente com o I-Wolf, já que estivemos juntos em estúdio. Acabou por soar a Dälek à mercê de outro produtor. Enquanto íamos adicionando elementos, as ideais mantinham-se num vai e vem. Procuro envolver-me ao máximo com o processo. De forma a operar o tal controlo de qualidade e até porque é a minha voz que está em questão. Sou obrigado a ser meticuloso na selecção de material a lançar, tendo em conta que estou a ser representado nesse material.

Já lançaram discos com os Faust e Kid 606, além de terem partilhado digressões com os Solex. Parece existir uma apetência natural para confrontar. Gostas de assistir ao colidir de universos na vossa música e colaborações?

D: Grande parte dos nomes que mencionaste representam conhecimentos adquiridos em tournée. A oportunidade de colaborar com tão abrangente variedade de artistas é das mais gratificantes recompensas pelo que faço. Nem sequer me estou a referir aos Faust que são lendas e ocupam um patamar superior. Agrada-me conviver com todo o tipo de artistas. Podia até acontecer encontrar alguém aqui em Portugal. Tal não aconteceria se não viéssemos até cá. As colaborações enriquecem a música e toda essa troca de ideias favorece a aprendizagem. Adoramos colaborar com outros músicos. Essa tem sido uma das paixões que nos norteia desde o início. Temos umas três ou quatro colaborações pendentes.

Referes-te ao projecto com os italianos Zu?


D: Sim, também.

Como correu isso?

D: Está praticamente pronto. Somos capazes de ainda gravar algum material adicional, de maneira a que possamos ter por onde escolher. Soará a uma mistura entre Coltrane dos anos 60 e a fase eléctrica de Miles Davis – tipo Bitches Brew - com uns pozinhos de Melvins e Wu-Tang Clan. Será bem marado.

Quão sólido e influente é o sentido de comunidade que vos une à Ipecac e aos colaboradores?

D: O normal seria ter uma turma gigantesca de artistas ligados ao hip-hop. Isso não acontece connosco. Dou-me bem com o Oddateee, assim como mantenho uma convivência estável com outros MCs, mas não vejo porque não incluir neste circulo bandas de metal, kraut-rock, hip-hop ou seja o que for.

Optam por ser cegos perante os géneros, certo?

D: [Hesitante entre alguns risos.] Os meus amigos costumam comparar o nosso método ao de um DJ: a quantidade de discos é proporcional à criatividade. A variedade estimula-nos e alguns resultados são surpreendentes. Até certo ponto, o colectivo que temos vindo a edificar permite-nos mergulhar num oceano de possibilidades a que de outra forma não teríamos acesso. Quando me dá na telha gravar qualquer coisa mais country, torna-se mais fácil contactar alguém como o Eric Bachmann dos Crooked Fingers para um participar num dueto. É porreiro manter estas ligações, nem tanto pelo name dropping mas sim para usufruir de uma maior acessibilidade ao talento; ao ponto de poderes dizer ”Era louco inserir aqui uma lap guitar!” e saberes a quem telefonar nesse preciso momento. Torna tudo muito mais divertido.

E julgo que impedirá a vossa música de estagnar?

D: Sem dúvida. Fomentar todas estas conotações torna tudo mais vívido.

Como lidam com a recepção em países como a Eslovénia e a Croácia? Tendo em conta que é habitual actuarem perante um pequeno público, faz sentido referir as vossas performances como acções de guerrilha?

D: Completamente.

[O escriba olha à sua volta e o espaço é tudo menos luxuoso.] Este espaço tem o seu quê de guerrilha...

D: [Risos.] Começámos do nada. No início, dispúnhamos de um telemóvel e de uma velha lista de contactos que – salvo o erro – pertencia aos Fugazi. Enfiámo-nos numa carrinha e quase que forçámos os promotores a escutarem a nossa demo, já que ainda nem sequer tínhamos disco. Não tínhamos problema em actuar antes de três bandas e por uns irrisórios 5 dólares – dinheiro para combustível. Mantivemos essa rotina durante anos. Acho que isso está entranhado em mim. Independentemente da dimensão ou sucesso alcançados em alguns lugares, havemos de percorrer sempre países afastados dos principais roteiros. Na verdade, estes aposentos são bem mais agradáveis do que muitos em que já estive. Não tenho problema com isso, tal como não desgosto de descansar num hotel de quatro estrelas. Tenho 29 anos e aprecio ter uma cama onde dormir. Se analisar isso em perspectiva, custa-me a crer que a nossa música viesse a gozar do apoio da indústria, das televisões ou das rádios. A única forma de veicular a nossa música aqui, no Porto ou em países como a Croácia, passa pelos concertos. Seja diante de cinco ou cinco mil pessoas. A música tem de chegar até às pessoas se quisermos recrutar fãs.

Quase como os Black Flag, que, no seu apogeu, criaram um circuito hardcore por si sós. Achas-te transportador da chama de um novo hip-hop?

D: Torna-se difícil estabelecer a devida distância que essa questão exige.

Talvez as coisas se clarifiquem daqui a uns anos...

D: Acredito que a nossa influência venha a deixar algumas marcas. Se serão boas ou más, ainda não sei. Caso venha a acontecer, teremos de aguardar 10 ou 15 anos para conhecer os efeitos da nossa música no hip-hop desses países.

Como reages perante aquela habitual tomada de posição de alguém que afirma:”Odeio hip-hop, mas adoro Dälek.”?

D: [Risos.] A minha reacção costuma passar por uma mão no ombro dessa pessoa e as seguintes palavras:”Obrigado. Lamento ter de ser eu a informar-te disto, mas agora gostas de hip-hop.” Todos ficam sem reacção [risos]. Agrada-me a ideia de que a nossa música possa servir de portal para artistas old-school como os Public Enemy, Boogie Down Productions ou para colectivos underground como nós.

O Buzz Osbourne dos Melvins (parceiros de editora na Ipecac e ocasionais companheiros de estrada) aponta o hip-hop como o disco-sound dos dias de hoje. Quão distantes e imunes se sentem em relação a esta acusação?

D: Na verdade, o Buzz é daquelas pessoas que não gosta de hip-hop e aprecia o que fazemos [risos]. Eu próprio concordo com essa afirmação, até porque o hip-hop surgiu a partir de breakbeats pilhados ao disco. Agora que penso nisso, ele tem toda a razão [risos].

Por vezes reduzes o tom e ritmo de voz ao ponto de quase parecer que estás a falar. Nunca pensaste em tentar spoken word? Sentes-te dependente dos beats e loops como amplificadores do discurso?

D: Parece-me pouco provável que isso venha acontecer, dado que actuo como um músico. Seria incapaz de converter em palavras muito do que digo entre sons. Repara no seguinte exemplo: uma faixa como “Images of . 44 castings” (pertencente a Negro Necro Nekros) prolonga-se por 12 minutos (11, para ser mais exacto) e inclui apenas três versos. A parte instrumental que os intercala acaba por dizer mais do que os próprios versos. Não me sinto dependente de beats ou loops. Em vez disso, sinto que estes, unidos à palavra, formam um todo íntegro em função do pensamento.

Funcionam melhor quando combinados.

D: Não sou aquele tipo de MC que procura ser ouvido a toda a hora. Não vivo obcecado por ter o volume da minha voz acima de todos os outros elementos. Repara bem no que faço: ocupo-me da produção com eles dois (Oktopus e DJ Still) e isso permite-me transmitir algo através das vocalizações, assim como através da música. Tenho a noção de que, por vezes, a melhor opção passa por não dizer nada. A música fala por si só. [Pausa.] É curioso... Desde sempre que sou um grande fã de Jack Kerouac e dos poetas “beat”...

E grande parte deles aventuravam-se no spoken word...


D: Exacto, mas eu não. Não me parece.

Que memórias guardas das primeiras passagens pelo Porto e Lisboa com os Tomahawk?

D: Foi fantástico. Ver garantida a oportunidade de vir até um lugar onde nunca tínhamos estado e actuar diante de mil pessoas! Ainda que seja pouco provável termos agradado a essas mil pessoas. Não sou ingénuo. O mais certo é que metade nos tenha odiado. Ainda assim, metade de mil ainda é uma boa soma. Surge aqui mais uma vez a mentalidade de guerrilha. Que se foda! Nós queremos é tocar. Sem temer o que irão achar de nós. Havemos de conquistar alguns fãs e serão esses a espalhar a palavra caso regressemos. Só assim podemos acumular público. Foi excelente a oportunidade de actuar perante tanta gente. Ambas as cidades são lindas. Da última vez, tocámos numa universidade.

Sim, a Aula Magna.

D: Isso. Não tive a oportunidade de conhecer a cidade, mas o campus [presume-se que se esteja a referir à Cidade Universitária] é fabuloso. Desta vez pude visitar esta zona [Bairro Alto] e fiquei encantado.

Apanharam bom tempo.

D: Também adoro o Porto. Amanhã espero ter tempo para ver um pouco mais da cidade.

O que acham da comunidade portuguesa a viver em Newark?


D: Excelente comida. Fazem uma coisa muito boa a que chamam “churrasco”. Dão-se muito bem com as comunidades da América do Sul. Dá gosto ver isso.

Julgo que a seguinte questão dirige-se aos dois [desde o início da entrevista que Oddateee estava aterrado numa cama por perto]. O que podemos esperar do Oddateee esta noite?

Oddateee: Entro com tudo. Trago a Broadway até vocês. Sem merdas. A mais pura das realidades. Uma peça de teatro sem actos. Sempre a rachar. Muita diversão.

E quem vai estar nos pratos?

D: Estamos com azar. Convidámos o DJ que o acompanhava, mas ele não aceitou. Vai ser um “one man show”.

A sério? Ele desempenha o lugar de "beat box” humana?

D: Não. O Oktopus alinhará as faixas e ele limita-se a cantar por cima. Será o suficiente como primeira amostra do Oddateee perante o público português. Ele não quer relevar-se de uma só vez [risos].

Podemos esperar por um novo disco do Oddateee para breve, não é verdade?

D: Já está pronto. Temos tentado encontrar editora para o disco. Vamos lançar um 12 polegadas em breve para promover o álbum. Esperem novidades do Oddateee em breve.


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
29/05/2005