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Taylor McFerrin
O improviso é uma arma


De acordo com Taylor McFerrin, o seu álbum de estreia, que se intitulará Early Riser, está praticamente concluído, devendo ser lançado durante o próximo mês de Julho. A entrevista que se segue - e durante a qual foram tiradas as duas fotos cimeiras – é resultado duma conversa bastante descontraída no backstage do Clube Ferroviário, em Santa Apolónia, logo após a penúltima data da tour que passou por diversas cidades europeias, incluindo Lisboa e Guimarães. Comecei por agradecer o óptimo material que o seu Mac me tinha dado para começar a escrever sobre o espectáculo: o computador teimara em não colaborar durante a primeira meia hora – apesar dos esforços da task force que o tentava reanimar –, obrigando o norte-americano a desenrascar-se à boa maneira lusitana. Depois falou-se de música, digressões a solo e basquetebol, enquanto o artista descomprimia do concerto e adoçava a boca com uma morangoska.
Esta foi a primeira vez em que tiveste de lidar com problemas técnicos desta dimensão durante um concerto?

Sim, foi a primeira vez (risos), e tinha um pressentimento que algo do género fosse acontecer durante esta tour, até porque nunca tinha feito nove concertos seguidos em nove dias. Achava que numa das noites alguma coisa iria correr mal. Mas estou feliz por o computador ter acabado por recuperar.

Lidaste com o bug com bastante imaginação e criatividade. Improvisaste uma letra sobre Lisboa e o computador, por causa dos problemas informáticos, e quando o Mac recuperou tocaste a “Everything In It’s Right Place”, dos Radiohead. Improvisar é uma parte importante nas tuas actuações ao vivo?

Todo o espectáculo ao vivo é improvisado. É completamente o oposto do trabalho de estúdio, que é muito meticuloso e cirúrgico, o que até acaba por se revelar algo difícil de reproduzir ao vivo. Durante algum tempo tinha alguns beats preparados para os concertos, mas acabava por ser chato limitar-me a carregar em botões. Por isso comecei a misturar estilos de música e elementos, a alterar os ritmos ao longo das músicas, um pouco como se fizesse um dj set.

Existindo essa preponderância do improviso, como é que partes para os concertos?

A minha atitude mudou um pouco. Os concertos costumavam deixar-me bastante nervoso. Se começasse mal um concerto, isso deixava-me incomodado para o resto da noite. Agora deixo a coisa fluir mais, intercalo beatbox com um dj set mais dançável e períodos em que canto. Os concertos têm sempre umas partes melhores do que outras, mas há sempre momentos especiais. Se estiveres com a energia certa, isso passa para as pessoas. Se não te sentes confortável ou estiveres nervoso, as pessoas até acabam por dispersar a atenção, conversar umas com as outras…

Tens uma grande variedade de referências musicais. Quais são as tuas maiores preferências?

Principalmente a música dos finais da década de 60 e anos 70, muito por causa dos instrumentos utilizados. Gosto de instrumentos vintage, Fender Rhodes… sintetizadores analógicos. Dentro dessa minha era favorita gosto de soul, rock, jazz de fusão. Ah, e também gosto muito da era de ouro do hip hop.

E música electrónica?

Também, e sinto-me influenciado por muita dela. Nos concertos gosto de manter o andamento e mudar o estilo ao longo da música, até porque há muitos estilos com o mesmo andamento. Pode-se mudar dum ritmo brasileiro para techno, house ou hip hop sem nunca mudar o andamento. E gosto também de fazer algo parecido com o beatboxing: mudar o estilo mas manter o ritmo.

O som do single “Place My Heart”, do álbum Early Riser, que deverá sair no Verão, é muito diferente do que tocas ao vivo, tem uma estética mais convencional. Ponderas rodar este álbum ao vivo com banda?

Pretendo começar por perceber que músicas serei capaz de tocar sozinho ao vivo, de uma forma que seja representativa do disco. A ideia será manter a parte da improvisação, mas tocar também as canções, e depois ter uma segunda versão do show, em que possa tocar em conjunto com outros músicos; mas apenas para certas ocasiões especiais, como festivais maiores, por exemplo, em que faça mais sentido tocar com banda.

Existe alguma razão para optares por tocar preferencialmente sozinho ao vivo?

Assim é mais fácil contratarem-me, porque é mais barato. Mas também acaba por ser um bocado estranho andar em digressão completamente sozinho. Conheço gente incrível por onde passo, mas o momento do concerto acaba por ser o ponto alto do dia. O resto são hotéis, aeroportos, acordar cedo, soundchecks… Gosto de andar em tour sozinho, mas quando o faço durante muito tempo torna-se algo solitário. Quando estás numa banda, mesmo que estejas numa cidade estranha em que se fala uma língua que não compreendes, ao menos pode perder-te na companhia de amigos, o que é bem mais divertido. Na próxima digressão sou capaz de viajar com um cameraman para registar os concertos e documentar a tour.

Qual foi a cidade que mais gostaste durante esta digressão europeia?

Ao aterrar em Lisboa senti-me como se estivesse em casa. Isso foi o melhor, sem dúvida. Sou californiano e adorei a boa energia das pessoas, o clima. Paris é um bocado parecido com Nova Iorque. É uma cidade muito bonita, mas a energia é tão intensa que não dá para descontrair.

Vi no facebook que és fã de basquetebol. Chegaste a jogar?

Taylor McFerrin: Sim, joguei durante os tempos de liceu. Acho que se tivesse continuado a praticar, podia ter atingido um bom nível. Continua a ser o meu desporto favorito de assistir e sou um hiper-fã do Michael Jordan, o melhor basquetebolista de todos os tempos. E continua a haver excelentes equipas e jogadores, como o Dwayne Wade, dos Miami Heat. Tudo o que faço no facebook é publicar vídeos engraçados e jogadas de basquetebol.


Hugo Rocha Pereira
hrochapereira@bodyspace.net
13/04/2011