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blac koyote
À falta de melhor, é culpar os astros


Já o conhecíamos de projectos anteriores. Sim, de Nimai, aquele duo que nos faz parar no tempo mas viajar no espaço da electrónica, em que laptops e sintetizadores facilmente se conjugam para nos orientar no imaginário. Agora, lançando-se num projecto aparentemente solitário, e é aqui que acreditamos existir a ponte com o nome coiote, José Alberto Gomes não mudou a maneira de ser. Nem de se fazer ouvir. Rege-se pelos mesmos vícios, rejeitando mutações de personalidade artística, mas acredita que as actuações ao vivo vão ser o momento alto deste projecto. A entrevista que gentilmente concedeu ao Bodyspace representa o segundo de três momentos que a webzine se orgulha de testemunhar e carimbar: depois de apresentar exclusivamente o primeiro single “Orange Breaking Cover” e agora desvendar os mil e um mistérios de quem é blac koyote e como veste a pele deste bicho solitário, Sábado testemunhará a etapa final desta bela trilogia entre o músico e o Bodyspace. Em concerto no Café Au Lait, a estreia de blac koyote, promissor projecto de José Alberto Gomes. E irmos lá viajar um pouco, não?
Fala-nos de ti e desta tua nova faceta, blac koyote. Parece-me inevitável perguntar onde foste buscar o nome.

Os nomes são sempre (acho eu) a parte mais desinteressante nos meus trabalhos. Não tenho muito jeito e demoro sempre muito tempo a tomar decisões. Neste caso o nome foi escolhido mais pelo som e pela relação que tem com os meus trabalhos anteriores. Ou seja, um pouco mais concreto, mais terreno. Mas não há nenhuma razão especial por trás dele.

Isso é uma ideia engraçada, escolher um nome de um projecto presente (e futuro) que está relacionado com trabalhos anteriores. Isso significa que nunca tiveste aquelas "crises" de mutação de personalidade artística a cada projecto que passa?

Não chamaria crise ou mutação. Tenho várias " personalidades " musicais activas e dependendo dos astros vou deixando sair mais uma ou outra.

Guias-te por uma electrónica astrológica, portanto...

(Risos) Não sei o que isso quer dizer, por isso sim. À falta de melhor razão culpo os astros.

Mas o teu caminho tem assentado sobretudo na electrónica, certo? Pelo menos esse é o denominador comum dos projectos anteriores, como Nimai…

Sim. Não em exclusividade mas em complementaridade, espero eu.

Em complementaridade com o quê? Estamos a falar de blac koyote, certo?
Neste caso estou a falar de praticamente tudo. Devem ter sido muito poucos os trabalhos em que utilizei electrónica pura e dura. A maior parte das vezes uso sempre elementos acústicos e instrumentos tradicionais (nem sempre tocados de forma tradicional), embora o ponto de partida seja sempre da electrónica no sentido da organização e tratamento. E também não posso nem tocar nem transportar todos os instrumentos que uso para o palco.

Porque é um projecto solitário?

Neste registo foi, para ver se sou capaz. Até agora grande parte da minha formação e actividade como músico foi sempre do lado da composição, ou seja, tremendamente solitário. Por isso fui procurando o que não consigo sozinho em grupos de improvisação e outras formações. Mas para um projecto puramente musical e para ser tocado ao vivo com registo estético neste campo é a primeira vez que crio sozinho, mas espero nunca estar a tocar sozinho ao vivo.
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Por que não? Se só estiveres rodeado de teclas e knobs talvez a experiência nem seja assim tão ruinosa.

A razão que me leva a não querer tocar sozinho tem dois lados: em primeiro lugar, para tentar levar um elemento novo das gravações. Para replicar o que já está gravado mais vale ouvir a música em casa num bom sistema. Ainda no primeiro, porque gosto dos novos caminhos que os músicos convidados podem dar à música. Por outro lado, é do ponto de vista do público. Eu (muito pessoalmente) não me divirto muito a ver um músico atrás de um portátil com um ou dois sintetizadores, por isso penso no que gostaria de ver se estivesse do outro lado da barricada.

Então isso leva-nos a outra questão, que poderá ficar sem resposta se assim entenderes: como vais apresentar blac koyote no próximo sábado, no concerto Bodyspace?
Respondo com muito gosto: eu em computador, rhodes, metalofone e bandolim eléctrico. Diogo Tudela também no computador, Jorge Queijo na bateria e percussões e Maria Mónica em visuais em tempo real.

E de repente temos uma matilha…

Gostava que fossem mais. Uns metais, um guitarrista, cordas…?

Se percebi bem, o objectivo é ir reinventando blac koyote a cada actuação?

Sem dúvida. Partindo sempre de uma base e reinventado conforme os músicos que estiverem comigo. Mas é possível que toque algumas vezes totalmente sozinho. Estou pronto para isso.

Isso é uma óptima solução para o caso de teres que actuar várias vezes no mesmo sítio.

Não tinha pensado nisso. Mas sim, sem dúvida.

O que me leva a outra pergunta: sendo blac koyote um projecto ainda embrionário, se podemos dizê-lo, onde vamos encontrar a essência da música: nos registos de estúdio ou nas performances ao vivo?

Por enquanto nos registos de estúdio, embora grande parte do material apareça de sessões de improvisação/experimentação, por isso espero que tenha um pouco dos dois mundos.

Como é que comparas este trabalho a Nimai, se é que é possível fazê-lo?

Possível é. Não sei é se faz muito sentido. Nimai não estava muito longe dum projecto individual. Éramos só dois e com uma fortíssima ligação musical. Se nuns dias era um bocadinho mais do Luís, noutros era mais eu, por isso acho que há bastantes semelhanças. Não fiz nenhum esforço nem para me afastar do que fazia nem para recriar. É natural que haja semelhanças, talvez na forma longa das músicas, nas linhas e no timbre dos sintetizadores. Talvez, é difícil para mim distanciar-me para poder avaliar.

Então e para quando o EP?

Gostava de já ter uma data certa. Na melhor das hipóteses em Junho/Julho mas infelizmente o mais provável é ser para Setembro. Ainda há algumas coisas em aberto.

Deixa para Setembro, assim para a rentrée, sempre tens mais ouvintes…

Por mim era já no Sábado. Odeio este processo de espera, parece que a música já sai fora de tempo. Farto-me rápido das minhas músicas.


Simão Martins
simaopmartins@gmail.com
21/02/2011