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Carminho
Retrato de uma fadista enquanto jovem


Apareceu do nada, mas para trás havia já um caminho percorrido que começou literalmente nos primeiros dias da sua vida. Carminho, filha de fadista, prepara-se para trilhar um percurso reservado às grandes cantoras do fado. O seu disco de estreia, intitulado Fado, criou mais do que um burburinho e lançou-a para os palcos do país onde se ouve fado; os relatos são entusiasmantes e de Carminho, apesar da sua tenra idade, espera-se tudo aquilo que se pode esperar de uma fadista nos dias que correm: o respeito pela tradição mas a insubordinação para o libertar de algumas amarras características de cada género que envelhece ao seu próprio ritmo. Sabíamos que o fado era triste, saudoso, por vezes negro; com esta nova geração de fadistas ficamos a saber que também pode ser sexy. E porque o fado de Carminho é o fado de hoje, dos dias que correm lentamente, quisemos ir ao seu encontro para uma conversa que traça o seu retrato de fadista enquanto jovem.
Como nasce o fado na tua vida? Que capítulos consideras essenciais para se contar a evolução da Carminho até aos dias de hoje?

A minha história no fado começa na barriga da minha mãe… Que é a minha grande referência. Vivi os meus primeiros anos no Algarve aonde os meus pais organizavam tertúlias de fado em casa e mais tarde abriram uma casa de fados em Lisboa, para onde viemos viver. A partir daí comecei a frequentar bairros fadistas e a conhecer ainda mais à cerca desta forma de expressão tão antiga e profunda.

Como é que se construiu este disco do seu inicio ao seu fim? A escolha dos poemas, a escolha dos músicos, dos arranjos…

O repertório foi escolhido muito facilmente pois tratam-se de fados que canto e oiço há muitos anos. Os temas inéditos foram escritos e compostos por artistas que considero muito e que tornaram o disco ainda mais pessoal. A pessoa mais importante de todo este processo todo foi Diogo Clemente, produtor do disco. Conhece-me há alguns anos, conhece a minha voz, o meu gosto. Os músicos foram convidados por nós e os arranjos foram um trabalho do Diogo em conseguir ter um disco produzido sem retirar a personalidde de cada músico.

Quanto tempo demorou a concepção do disco? Houve alguma etapa que tivesse sido especialmente complicada? E alguma especialmente prazenteira?

Assim que entramos em estúdio foram duas semanas de gravações e experiências novas para mim. Correu tudo muito bem.

O teu disco entrou directamente para a vice-liderança do top nacional, apenas atrás do disco Amália Hoje. Isso surpreende-te?

Claro que foi uma surpresa. Não estava à espera mas fiquei muito feliz.

Em relação ao projecto Amália Hoje, não posso deixar de te perguntar a tua opinião sincera acerca do mesmo, se é que já tiveste oportunidade de o escutar…

Amália Rodrigues é esta voz e pessoa que continua a inspirar muitas áreas musicais e a levar o fado a outros “portos”. Amália Hoje é um projecto que leva grandes temas de Amália a outros estilos. Composto por grandes arranjos e uma imagem muito forte.

Diz-se que as canções da Amália já são em si versões definitivas. Concordas? Apetece-te enfrentar as canções dela no futuro?

Existem fados que, uma vez cantados por Amália, se tornam únicos e irrepetíveis. Há certos deles que prefiro ouvir e aprender do que fazer versões obviamente inferiores.

Mudando a conversa de sentido, já vi chamarem-se «atrevida» ou «sedutora». Como reages a estes adjectivos? Achas que o fado pode e deve ser também sensual?

O fado vai sendo aquilo que os seus intérpretes e poetas lhes dão. Cada um, com a sua personalidade, com as suas características.

Como tens reagido a toda esta atenção mediática repentina sobre ti? Alterou consideravelmente o teu dia-a-dia, quanto mais não seja pela quantidade de entrevistas e artigos publicados sobre o teu novo disco?

Tenho reagido bem a todas estas alterações. Tenho tentado aproveitar todas as mudanças, aprendendo dia-a-dia, gozando este lado agitado e delicioso que me tem surgido na vida. Gosto de dar entrevistas e quero trabalhar mais e mais neste sonho que aos poucos vou realizando.

Já levaste este novo disco a palco. Como é que o agarras ao vivo? Sentes-te totalmente confiante em cima de um palco ou ainda estás a aprender os truques da vida de concertos?

O palco é um lugar cheio de magia. Estou fascinada com tudo o que estou a aprender e quero evoluir. Sinto-me muito confiante pois estou a cantar aquilo que mais gosto.

Como foi participar em Fados, de Carlos Saura, em 2007? Acreditas que foi um passo fundamental para a construção da Carminho como fadista?

Foi uma honra ter sido convidada para o filme de Carlos Saura e de estar ao lado de grandes artistas que, como eu, participaram.

Não pude deixar de reparar que postaste no teu blogue um comentário sobre o Jeff Buckley. O que é que te atrai nele? Tens o Grace como um dos discos da tua vida?

Jeff Buckley é sem dúvida é um artista inspirador. Uma alma enorme que conseguiu transmitir verdade e magia. Uma influencia que me acompanha há muitos anos.

Que outros artistas para alem do fado aprecias verdadeiramente e porquê? Qual é a percentagem de não-fado que ouves habitualmente?

Oiço muita musica, de diferentes áreas. Brasileira: Chico Buarque, Elis Regina, Tom Jobim. Jazz e Anglo-saxónica com Keith Jarrett, Pat Matheny, Nina Simone, Frank Sinatra. Alternativa com Antony and the Johnsons. Maria Callas e clássica, etc..

No fado, tens algum nome ou alguns nomes que queiras destacar no que toca a fadistas recentes? Ou preferes não especificar e avaliar positivamente o panorama geral?

O panorama é realmente positivo. Existem muitas vozes a cantar muito bem e a contribuírem para o fado.

Com tão tenra idade, atreves-te a fazer prognósticos acerca da tua carreira ou preferes viver um dia de cada vez?

Sem dúvida, prefiro viver cada dia da melhor maneira. Têm surgido muitas oportunidades e pretendo ir vivendo-as à medida que vao aparecendo.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
25/01/2010