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The Beautiful Schizophonic
O coração examina o meu drone


The Beautiful Schizophonic é a doença e a cura, o amor e a tendência para vivê-lo como armadilha e obsessão. Depois de ter ultrapassado o seu próprio inferno Kim Cascone (um senhor), com apoteoses sombrias e “coros de corvos”, a memória do laptop de Jorge Mantas caminha ultimamente numa direcção mais luminosa. Com o seu nome inserido em seis lançamentos da Crónica (dois álbuns, um split e três compilações), The Beautiful Schizophonic é já um dos heróis da casa e o mote para uma saga que promete ainda muito. Em 2007, Musicamorosa formava a banda-sonora perfeita para encaixes horizontais e outros anseios. Este ano são duas as novidades: Erotikon e Radiance, a colaboração com o japonês Yui Onodera, que, com o piano, frisa, no espectro de The Beautiful Schizophonic, a capacidade deste para compor música a céu aberto, quando necessário.

Enquadrado num novo conceito, Erotikon vem carregado de música de escritório para bordéis de altíssimo requinte. Venham princesas, porque este pode até ser um disco de brisas sonoras para as orgias organizadas por Berlusconi. Imerso nesse universo, o drone surge aveludado e envolto num glamour inédito no historial Schizophonic. A partir de Évora, Jorge Mantas cria atmosferas de luxúria e superficialidade, enquanto fornece novas pistas para resolver a pergunta que persegue o homem (protector e paranóico) há quase 20 anos: o que faziam as jovens de Twin Peaks em privado?

É óbvio que esse enigma deve permanecer assim mesmo. Os restantes, relacionados com o processo e os colaboradores envolvidos em Erotikon, são reconsiderados numa extensa entrevista, que antecede a presença de The Beautiful Schizophonic, acompanhado pelos visuais de Laetitia Morais, no Festival SonicScope, a ter lugar no Teatro Maria Matos, em Lisboa, no dia 25 de Outubro.
Erotikon conheceu uma primeira versão, tal como tinha acontecido com Musicamorosa? Em que aspectos o processo de ambos foi diferente?

De facto Erotikon teve uma primeira versão um pouco diferente da que acabou por sair em disco. A diferença não está tanto no processo mas sim no efeito pretendido. A versão inicial continha uma série de perturbações que introduzi no álbum para provocar um efeito global de contraste ou seja, para que coexistissem momentos luminosos com outros mais sombrios e mesmo violentos. Acabei por abandonar essa ideia em favor de uma maior fluidez e, sobretudo, de uma maior coerência estética.

Erotikon ocupa todo o espaço de um CD e é um disco evidentemente longo. Pensaste-o como experiência prolongada? Era tua intenção esgotar o tempo disponível para mergulhar no imenso espaço The Beautiful Schizophonic ou proporcionar um leque de músicas diferentes para dias diferentes?

Sempre acreditei que a drone music precisa de tempo - de muito tempo - para poder desenvolver as suas propriedades imersivas/meditativas no ouvinte. Não é por acaso que La Monte Young criou em meados da década de 1960 The Theatre of Eternal Music, um ambicioso projecto com performances de extrema duração: a mais longa, “Dream house”, aconteceu na Harrison Street Gallery, em Nova Iorque, e durou 6 anos ininterruptos, de 1979 a 1985! Agrada-me esta ideia de música infinita, ou seja, uma música omnipresente sem princípio nem fim, que simplesmente existe num continuum sonoro que pode ser retomado e assim escutado em qualquer momento. No domínio da drone music é preciso abrandar o ritmo de percepção sensorial e entrar numa velocidade diferente, mais lenta, para penetrar com profundidade na câmara escura dos sonhos. Salvas as devidas distâncias, foi com esta ideia em mente que decidi explorar a capacidade máxima do CD.

Aceito que seja bom manter o mistério, mas eras capaz de corresponder uma das faixas de Erotikon a uma das tuas musas? Pergunto isto também porque “Alba” sugere muito o nome de Jessica Alba.

[risos] A maioria dos títulos dos temas têm, de facto, uma ressonância feminina que foi propositada. Resulta de uma mistura de marcas de roupa feminina com termos provenientes da teoria musical. Por exemplo, “Erotikon” é uma palavra grega que se refere a canções de amor ou o seu equivalente instrumental. “Alba” não tem a ver com a conhecida actriz - que de resto não figura no meu top de preferências - é antes uma expressão que significa a fuga de dois amantes durante o romper do dia. É um jogo de mistério e sensualidade que nunca se resolve da forma mais óbvia...

Acreditas que a transição de Musicamorosa para o novo Erotikon manifestou-se também na tua escrita?

Acredito que existe um destino sentimental na música, uma revelação do interior mais profundo do coração através da sua verdade acústica. Musicamorosa e Erotikon são fragmentos sonoros dessa busca intensa pela beleza e pelos mistérios do coração. Em toda a minha obra existe uma certa obsessão com esta ideia de beleza feminina. Na verdade, não distingo assim tanto a música (no projecto The Beautiful Schizophonic) da literatura (no blog “Vénus examina o meu coração”, no recente livro de ficção Beltenebros ou na minha colaboração com a revista Umbigo): são meios diferentes para expressar uma mesma concepção, um mesmo fio condutor. Do ponto de vista conceptual, assumo a minha obra como um todo, apenas diferindo os suportes que vou utilizando para me revelar criativamente. A única diferença que existe é que a música é uma forma mais imediata, mais rápida, de atingir as emoções, do que a literatura. Demora mais a ler um livro do que a escutar um disco, embora o efeito do primeiro possa ser mais prolongado no tempo do que o do segundo. A impressão que um livro deixa é mais duradoura também porque exige maior disponibilidade. No final penso mesmo que ambas as linguagens se complementam na construção da obra artística de uma vida. Respondendo mais directamente à tua pergunta, penso que a transição que referes na música se traduziu na escrita, na medida em que encerrei com o livro Beltenebros uma fase declaradamente romântica, baseada no amor platónico e na tragédia de uma paixão não correspondida, para passar a uma fase carnal, se quiseres, onde o amor se traduz com frequência nos prazeres sensuais do corpo, em ambientes sofisticados mas de um propositado vazio existencial. Em vez de Proust temos agora Bret Easton Ellis! As ruínas antigas e os quartos recatados deram lugar a festas privadas em apartamentos de luxo, repletos de gente tão bonita quanto superficial! Neste sentido poderemos considerar Musicamorosa um disco romântico e Erotikon pós-romântico...

De onde retiraste a conversa utilizada em “Fornarina”? Faz-me ver duas ou três Suicide Girls, em Los Angeles, enquanto se maquilham antes de sair. Além do que te levou a essa, Erotikon foi um disco mais ambicioso em termos do material que procuraste para depois trabalhar no todo Schizophonic?

O novo álbum é sem dúvida mais ambicioso do que o anterior e, sem desvirtuar a estreia Musicamorosa, representa um passo em frente na constante descoberta do meu próprio caminho musical. Há certos elementos que apontam para novos caminhos, já não tanto dependentes do loop mas sobretudo da variação sobre um mesmo motivo melódico, e outros que remetem invariavelmente para estratégias criativas exploradas no passado mas agora refinadas. A origem do som é, surpreendentemente, um factor cada vez menos relevante no meu processo de produção musical: seja ele composto por mim em tenori-on, em sintetizador atmosférico virtual ou por intermédio de software auto-generativo, um instrumento real tocado por um músico convidado, processado ou não, um sample, uma gravação de campo, etc., o que me interessa é sentir esse som como meu independentemente da sua origem... No fundo apaixonar-me por esse som e perceber o que tenho de fazer com ele! Por outro lado, gosto de pensar na composição como um processo eminentemente improvisacional, através da provocação dos denominados “acidentes felizes”: a descoberta, por acaso, de um antigo som no laptop que subitamente ganha uma nova ressonância emocional, como se o estivesse a escutar pela primeira vez. A partir daí é uma questão de construir lentamente a peça, adicionando pontos de impacto na interpretação única de cada ouvinte. Por isso também considero o laptop como um repositório de memórias acústicas. Fragmentos, talvez, de um passado imaginário.

Fala-me um pouco do rol de convidados presentes no Erotikon.

O principal critério que tive em conta ao convidar estes músicos foi a imensa admiração que tenho pelas suas obras. A ligação com a Christina Vantzou já vem do disco estreia, uma vez que foi ela a autora do brilhante trabalho gráfico de Musicamorosa. Daí a convidá-la para participar com a sua voz em Erotikon foi um pequeno passo. Tive a incrível sorte de ela aceitar colaborar, assim nascendo o tema “Aysha”, sem dúvida um dos meus favoritos de todo o disco e talvez aquele que representa na perfeição o espírito de Erotikon. A sua voz possui o exacto tom de doçura que procurava e acabou por marcar a direcção global do disco. O projecto norte-americano The Refractors foi uma descoberta recente, e a seguir à amizade que estabelecemos à distância surgiu a cumplicidade na música. O tema com que participam no disco foi mais doado por eles do que uma colaboração uma vez que tive pouca intervenção até à versão final. O mesmo se passou com Sleeping Me, um dos segredos da música ambiental mais bem guardados da Califórnia. Logo que ouvi as suas composições atmosféricas para guitarra percebi que tinha de os ter a bordo de Erotikon. Finalmente, Yui Onodera, o brilhante musico residente em Tóquio. Acima de tudo interessa-me neste processo colaborativo que os músicos convidados tragam para a minha música algo que eu não posso dar - neste caso, voz e instrumentos reais como a guitarra e o piano.

Foi a colaboração com Yui Onodera, em Radiance, que levou a que estivesse presente no Erotikon ou o inverso? Como aconteceu o Radiance?

A colaboração com o músico japonês Yui Onodera passou por diversas fases, tendo resultado no álbum Radiance. Começou por ser um mini-álbum para edição digital, evoluindo a seguir para o formato de remistura e finalmente para álbum CD, resultante da quantidade de temas produzidos e do interesse crescente de algumas editoras. O momento em que o Yui introduziu o piano foi sem dúvida marcante no desenvolvimento da colaboração, apontando para uma sintonia entre os ambientes pastorais criados por mim e o instrumento tocado de forma admirável por ele. O Yui Onodera é um músico cheio de talento que conseguiu acrescentar uma nova dimensão à minha música, revelando a melodia como a derradeira hipótese de salvação. O tema “Alba”, em que participa com piano, é um fruto tardio dessa colaboração que resolvi integrar no Erotikon por considerar estar em perfeita sintonia com o ambiente pós-romântico deste disco.

Uma pergunta mais global: fazer este tipo de música exige o estado de espírito certo ou encontras-te geralmente predisposto para criar enquanto Beautiful Schizophonic?

A disposição criativa é algo que apesar de poder ser facilitado, ou se quisermos, provocado, não acontece na generalidade do tempo. Em termos criativos, costumo dividir o meu tempo em dois períodos distintos: um período em que necessito de alimentar a minha inspiração com materiais mais ou menos venusianos, de suporte diverso (filmes, livros, revistas, concertos, exposições), e outro período de exclusiva criação musical em que processo de forma muito pessoal as influências anteriormente recebidas, por vezes de uma maneira muito distante do sinal original. Aprendi que forçar a inspiração é um erro: origina peças de calibre inferior que mais tarde ou mais cedo serão abandonadas. No geral, períodos de inspiração são mais virados para o exterior e para o outro, ao passo que os momentos criativos implicam uma recolha solitária ao ser interior profundo, uma espécie de retirada do mundo real. Neste sentido, penso que as Lições de Estética de G.W.F.Hegel, proferidas entre 1820 e 1829 em Heidelberg e Berlin, se encontram perfeitamente actuais em relação ao modo como encaro a criação musical. O filósofo referia-se à música enquanto modo de expressão da interioridade pura e uma primeira idealidade da alma. Ao extrair da matéria espacial - o estremecimento vibratório da própria atmosfera - a sua alma sonora, a música seria capaz de expressar o amor, de envolver as representações do espírito nos sons melódicos desse sentimento: “é a arte de que a alma se serve para agir sobre as outras almas.” Desligando-nos das necessidades e fraquezas da existência finita, a contemplação musical possui assim esta capacidade de evocar, comover, arrebatar, de nos ajudar a descobrir o verdadeiro significado do infinito, num movimento de retorno à liberdade interior que é ao mesmo tempo um recolhimento em si mesmo e, portanto, uma ressonância afectiva do eu mais íntimo. A arte musical como expressão do divino e revelação do espiritual.

Com o final da década começam a surgir os balanços e as listas. Conseguirias destacar nesta década 2 ou 3 drones particularmente bonitos? Eu não consigo deixar de ouvir a segunda faixa de 92982, do William Basinski.

Salvo raras excepções, tenho notado uma tendência cada vez maior para escutar discos longe da minha área de intervenção musical. Penso que a obra do William Basinski tem sido crescentemente sobrevalorizada devido a um hype tardio construído à sua volta pelos media especializados, embora reconheça a relevância e a beleza de obras como os imensos Desintegration Loops. Dentro da música ambiental, tenho descoberto os verdadeiros prazeres acústicos longe desta década, em obras seminais como por exemplo Structures From Silence, um clássico de 1984 do Steve Roach, que contém alguns dos mais deslumbrantes e delicados drones que escutei até hoje, ou ainda a série de discos La Vie Electronique, os arquivos inéditos datados do final da década de 1960 e princípio de 1970 de Klaus Schulze. Brian Eno é também uma audição recorrente e uma fonte inesgotável de inspiração.

Consegues idealizar aquele que seria o contexto perfeito para uma actuação de Beautiful Schizophonic? Eu imaginava-te numa sauna de Budapeste ou num jardim de Paris repleto de mulheres mais à vontade.

Esta é uma questão muito interessante e na qual penso com frequência. Ambos os cenários que mencionas são sem dúvida muito apetecíveis e relacionáveis com a sonorização afectiva de espaços - físicos ou emocionais - que procuro explorar. A ideia conceptual que vou tendo sobre a minha própria música vai sofrendo ao longo do tempo algumas variações. Neste momento agrada-me a ideia de tentar construir através do som uma zona de conforto, uma espécie de câmara intra-uterina acústica onde me sinto em completa segurança. Através das propriedades emocionais do som, tento criar um sítio melhor, onde é possível aceder a um estado superior do próprio ser. Seja onde for, o contexto perfeito para uma performance minha será sempre um sítio confortável onde o ouvinte se sinta disponível para sonhar.

Tens preparado algo de especial para a actuação no Teatro Maria Matos?

Cada performance ao vivo é preparada minuciosamente, tendo em conta o espaço onde vai decorrer e o meu próprio estado de espírito, e até hoje nunca repeti um live set. O concerto integrado no festival SonicScope 09 não vai ser excepção. Sem querer entrar em detalhes posso adiantar que vai consistir em três longos andamentos, o primeiro dos quais uma espécie de variação ambiental sobre um 'adágio expressivo' auto gerado por software. A performance conta com a participação da Laetitia Morais, que vai trabalhar vídeo em tempo real, contribuindo para um efeito global certamente fluído e, sobretudo, orgânico. É um enorme prazer poder colaborar com ela uma vez que sou um admirador do seu trabalho visual. Para aqueles que não sabem, o festival SonicScope vai decorrer no Teatro Maria Matos, em Lisboa, dia 25 de Outubro, a partir das 16:30h. Um programa perfeito para uma matinée experimental de domingo!


Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com
19/10/2009