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Kayo Dot
Os pontos negros


Nascidos das cinzas dos Maudlin of the Well, os Kayo Dot, que em 2008 lançaram o complexo Blue Lambency Downward são o veículo de Toby Driver para a democrática fusão das mais variadas linguagens musicais dos mais variados tempos. Do metal à música clássica. O que leva tudo e todos a aplicar-lhes a sempre interessante etiqueta avant-garde, buraco negro de criatividade. Ouvir Toby Driver falar sobre a música dos Kayo Dot é o mesmo que perceber que esse é provavelmente o rótulo que lhes cai melhor. Toby Driver é o senhor comandante dos Kayo Dot mas não está só: Mia Matsumiya, no violino e muito mais, está ao seu lado. E tudo o resto parece um pouco fruto das circunstâncias: músicos entram e saem apenas para que se possa por em marcha o plano de Toby Driver, perfeitamente explicito na entrevista que quis dar ao Bodyspace. Numa conversa directa ao assunto, Toby Driver tratou de colocar os pontos nos is, que é como quem diz, deixar a nu os motivos que justificam a existência dos Kayo Dot, que esta semana se apresentam em Portugal para concertos no Porto (Passos Manuel), no dia 24 de Setembro, e em Coimbra no dia seguinte.
A história primeiro, os Kayo Dot formaram-se das cinzas de outro projecto chamado Maudlin of the Well. O que é que os Kayo Dot mantiveram desses tempos, aparte de algumas preferências estilísticas?

Além das preferências estilísticas, muitos membros da banda permaneceram. Para além disso, no entanto, as ideias e abordagens musicais eram consideradas como sendo diferentes e separadas dos tempos de Maudlin of the Well.

lançaram o vosso disco de estreia no mesmo ano que se formaram, em que iniciaram este novo projecto. Foi fácil traduzir para a música os vossos pensamentos da altura?

Isso não está inteiramente correcto – já vínhamos a trabalhar nesse disco há dois anos antes do seu lançamento, apesar de o fazermos enquanto Maudlin of the Well. Mudamos o nome para Kayo Dot muito pouco antes do lançamento do álbum, mas a música demorou muito tempo a ser criada.

Quão importante foi lançar esse disco, Choirs of the Eye na editora do John Zorn, a Tzadik Records?

Foi mesmo muito importante; mudou tudo para nós em termos do caminho da nossa carreira. Durante o tempo em que o Choirs of the Eye era o nosso álbum actual, víamos muitos novos tipos de pessoas nos nossos concertos e muitos novos interessados na nossa música e novas oportunidades. A audiência da Tzadik parecia apreciar muito e estar muito atenta à subtileza na nossa música.

Li algures que tu, o Olson e o Dickson foram alunos do músico de jazz Yusef Lateef e que isso pode muito bem ter afectado decisivamente o vosso som hoje em dia. O que é que nos podes dizer acerca disto?

Acho que estudar com o Yusef Lateef ensinou-nos realmente algumas novas formas de abordar a harmonia, e pode ter influenciado o nosso som ligeiramente. No entanto, hesitaria em dizer que afectou o nosso som de uma grande forma. A maior parte de nós tem um background em rock e em metal, e isso foi o que sempre transpareceu mais na nossa música, no entanto, talvez, de uma forma criativa.

Tendem a racionalizar acerca da vossa própria música, ou acham que, pelo contrário, a música rock tem de, de certa forma, libertar-se a si própria de demasiadas teorias e racionalização?

Eu gosto de começar de um ponto de racionalização, como dizes, mas depois deixar a composição ter uma nova vida por si própria à medida que se desenvolve no tempo. Acho que é aí que o espírito do rock entra – pegando numa ideia formada e adicionando-lhe caos à mistura.

A vossa música explora sempre vários e diversos géneros, do metal à música clássica. Quão difícil é explorar todos estes territórios e ter de respeitar ou não as regras implícitas a cada um desses géneros?

Eu não diria que a “generificação” da música vem primeiro e depois os músicos têm de encontrar uma forma de quebrá-la… Na verdade, eu diria o oposto. Que a música vem primeiro e que a “generificação” é apenas uma forma de identificar algo. No seu nível mais genuína, nenhuma música tem um género, por isso a música verdadeiramente genuína não deveria ter problemas com a não consideração destas regras.

Muita da música feita hoje em dia – e mesmo noutras décadas – têm uma função especifica. Por exemplo, entreter ou para dançar. Mas parece que os Kayo Dot, como outras bandas, têm um propósito maior. Qual é esse propósito dos Kayo Dot?

Eu acho que a música é um dos grandes milagres da existência, como músicos vanguardistas, estamos sempre à procura de novas coisas milagrosas. Coisas que nos lembram quão profundamente inspirador o mundo é. Nós tentamos encontrar essas coisas e transmiti-las através do som, e partilhar as nossas descobertas com os outros para que possam experienciar também o milagre.

A vossa música explora de certa forma um território entre a violência e a serenidade. Acham que a arte é um veículo privilegiado para lidar com estas dualidades?

De maneira alguma; estas dualidades existem em todo o lado. Também existem em nenhuma parte – a perspective dualística está apenas a arranhar a superfície (na música e também na vida).

Como é trabalhar com a Mia Matsumiya? Sentes-te confortável durante o processo criativo com ela? Tendem a concentrar todo o processo criativo no duo?

A Mia é uma excelente pessoa para ter por perto para transparecer ideias. De uma forma geral, o meu processo criativo é totalmente hermético, e o papel da Mia é o de interpretar ideias na performance. As ideias dela que não são relacionadas com o som são também muito importante para a identidade criativa da banda,

O vosso ultimo disco, Blue Lambency Downward, tenho a sensação que não foi completamente consensual entre os críticos e os vossos seguidores. Têm alguma explicação para isto? Estão satisfeitos com esse disco?

Sim, esse disco foi, de uma forma geral, não bem recebido por muitos fãs antigos da banda. No entanto, para toda a gente que não era fã do material antigo de Kayo Dot, Blue Lambency Downward parece ter sido muito apelativo. A explicação mais fácil é apenas que os fãs mais anteriores da banda estavam interessados e esperavam uma certa estética que não foi fornecida pelo Blue Lambency Downward. No entanto eu adoro o álbum e tenho muito orgulho nele.

Nos últimos anos os Kayo Dot mudaram bastante os seus membros. Vês isto como um ponto negativo ou, pelo contrário, um ponto a favor, uma forma de explorar outras possibilidades, de trazer à banda diferentes perspectivas?

Os Kayo Dot têm tido uma história de mudança na formação da banda em cada álbum. Eu espero que isso possa parar mas no passado foi uma forma de sermos capazes de tentar diferentes instrumentações e ideias completamente novas. De uma perspectiva funcional, no entanto, torna muito difícil que possamos chegar a algum lado com a nossa carreira. [risos]

Tanto quanto sei têm um disco pronto para ser lançado muito em breve. O que é que nos podes dizer sobre esse disco? Como é que o descreverias?

Talvez possa ser melhor descrito como sendo novo-gótico ou fusão gótica; uma nova identidade gótica para a década de 2010 que usa muitos dos home-runs sónicos do art-punk-gótico clássico tal como [lamentamos] chorus bridge-picked bass guitar and echoplex brass. As vozes são do tipo das que se ouvem no ultimo disco do Scott Walker e a música é muito mais orientada para o ritmo que os nossos outros álbuns.

Considerando a vasta gama de território que normalmente exploram, achas que os Kayo Dot têm ainda muitos anos pela frente. Imaginam-se a tocar daqui a muitos anos?

Sim, acho que os maiores compositores no mundo são todos pessoas velhas. [risos] A música é uma coisa da qual nunca te podes reformar… apenas podes tentar ser melhor e melhor (a não ser que tentes reciclar as tuas próprias ideias e negar o teu próprio processo de envelhecimento).


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
21/09/2009