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Old Jerusalem
Regra de três


Ao terceiro disco, Francisco Silva consegue aquele que é o seu melhor registo até à data. Mais directo que nunca, The temple Bell é decididamente e democraticamente um disco mais livre e vasto mas nem por isso descuidado ou desatento. Além de confirmar Old Jerusalem como um dos veículos de canções mais interessantes da nova geração em Portugal, The temple Bell comprova o bom-humor que se pressentia nas ultimas actuações de um projecto que, nas palavras do próprio Francisco Silva, é cada vez mais uma banda. De novo na Bor Land, a casa de sempre, o último disco de Old Jerusalem reluz em canções como a belíssima “Grasshoppers”, na profundidade das letras (mais significativas que nunca) e na forma cada vez mais natural de escrever canções de Francisco Silva. As influências mais visíveis dos primeiros tempos transformaram-se e diluíram-se em feições e abordagens próprias e cada vez mais singulares. Em entrevista ao Bodyspace, Francisco Silva aclara alguns pormenores do processo criativo e a forma de funcionamento do projecto Old Jerusalem; com a simplicidade e sinceridade que se notam nas suas canções.
Fala-se bastante hoje em dia de uma suposta barreira do segundo disco que ultrapassaste já. Pergunto-te… como foi ultrapassar a do terceiro? Continuas com a mesma prolificidade que imagino que terias quando escreveste as canções para o primeiro disco?

A “barreira” do terceiro disco foi sensivelmente igual à “barreira” do segundo. O nível de incerteza quanto ao que se é capaz de fazer é o mesmo, o nível de trabalho e as dificuldades também. Apenas muda o facto de já sabermos com o que contar porque já experimentámos antes o ciclo. Não sei se sou mais ou menos prolífico do que era antes, mas não me tenho como muito produtivo. O meu ritmo de escrita parece-me até ser lento, embora compreenda que isso não seja evidente para quem está de fora.

Como encaraste o split com Puny e com o Bruno Duarte? Foi de certa forma um tubo de ensaio para este terceiro disco de originais ou consideras o split como um terceiro disco?

O Splitted foi uma edição autónoma, com um conceito e coordenadas bem definidas (tratava-se em exclusivo de material gravado em 4 pistas) e que não teve propriamente relação com o resto do material editado antes ou depois. Não sendo um terceiro disco, foi mais um passo no percurso de Old Jerusalem, uma pequena digressão por outra abordagem aos temas.

Quando comparado com os teus dois discos anteriores, este The Temple Bell parece um disco cada vez mais solto e aberto, e ao mesmo tempo receptivo a diferentes arranjos nas canções. Concordas com esta ideia?

Penso que sim. O disco soa-me efectivamente mais solto e procurámos que os arranjos funcionassem como roupagens adequadas para cada canção, jogando sempre, como é natural, com as nossas limitações. Parece-me que não se trata de um disco de ruptura com qualquer dos anteriores, mas sim um progressivo apuramento de um caminho que já vinha de trás.

Como foram os tempos de gravação desde disco? A composição ou gravação de The Temple Bell sofreu alguma alteração quando comparado com os dois discos anteriores?

A escrita e gravação deste disco não sofreram grandes alterações relativamente aos anteriores. A escrita é um processo mais ou menos contínuo e portanto é difícil definir em que moldes concretos é efectuada; o processo de gravação, por seu turno, sempre foi bastante exigente em termos de desgaste físico e emocional e a gravação do The Temple Bell não foi excepção. Claro que houve diferenças, mas o ambiente geral das gravações acabou por ser similar, com o mesmo tipo de problemas e frustrações e o mesmo tipo de realizações.

Este é também um disco mais irónico e humorado que os anteriores. O exemplo máximo disso será obviamente “Love & Cows”.

Sim, é uma vertente que talvez esteja mais presente em alguns destes temas. Não foi algo deliberado, apenas aconteceu dessa forma.

Dizias no outro dia numa secção da Blitz que ouvias música de uma forma bastante caótica e aleatória. Também escreves música de forma caótica e aleatória?

Sim, pode dizer-se que algumas fases do processo de escrita são caóticas e aleatórias. Há um acumular de ideias, frases, palavras, melodias, progressões, etc que mais tarde ganham forma numa ou em várias canções. Mas há também fases do processo que são muito pouco aleatórias e caóticas, pelo que no fundo não posso dizer que escrevo de uma forma ou de outra. Vou escrevendo da forma que me pareça mais natural e eficaz em cada momento.

Não te vou fazer a pergunta habitual sobre aquilo que te faz escrever. Vou-te perguntar ao contrário… o que é que não te fazer escrever uma canção?

Há poucas coisas que propiciem ou me demovam por si só de escrever uma canção. Certamente não escrevo com um propósito definido de abordar uma certa temática, é extremamente raro que isso me sirva de catalisador. Muitas vezes escrevo porque descubro uma palavra que gostaria de usar numa canção. Ou porque uma frase ou expressão são sugestivas e “pedem” uma história. Enfim, normalmente são propósitos muito modestos, escrever com uma “grande” finalidade sempre me pareceu desencorajador e banal.

Um dos temas deste novo disco, “Grasshoppers”, faz parte da banda sonora da curta-metragem Intemporalidade, que estreou na Casa Da Animação do Porto nos passados dias 3 e 4 de Fevereiro. Como é que surgiu essa colaboração? Tinhas a intenção de associar a tua música ao cinema mais tarde ou mais cedo?

O contacto já havia sido estabelecido anteriormente entre a Bor Land e a Filmes da Mente. O uso do “Grasshoppers” foi apenas mais uma de várias colaborações entre as duas equipas. Fui ver uma das sessões e gostei do resultado final, pareceu-me adequado e bonito. Claro que é agradável sentir que a música que faço pode ser assim apropriada por outros e ter uma utilidade concreta que a torna relevante, mas não posso dizer que houvesse uma intenção de associar a música de Old Jerusalem ao cinema. Mas estaremos abertos a outras “miscigenações”, isso é certo.

Sentes de alguma forma que a capa e o artwork do disco são aliados importantes na ilustração das ambiências do disco? Como é que surge o trabalho do Pedro Lino?

O artwork é importante como elemento adicional do carácter do disco, mas não sinto que tenha de o ilustrar de uma forma estrita. Sempre tentámos fugir dessa ligação demasiado linear e levar o artwork de cada álbum por caminhos mais oblíquos aos do conteúdo musical.

Mais uma vez o teu disco surge pela Bor Land, selo já habitual para as tuas edições. Como te sentes nessa casa?

Sinto-me bem, claro, e penso que o sentimento é mútuo, pela facilidade de trato e comunicação que entretanto se foi construindo. É uma relação que não é isenta de falhas, divergências e percalços, como todas as outras, mas em que temos conseguido construir um trabalho com alguma consistência.

Que outros cantautores portugueses desta nova geração tens acompanhado ultimamente? E lá fora? Quis são para ti os grandes escritores de canções do nosso tempo, desde tempo?

Como gosto bastante de música vou acompanhando de alguma forma o percurso de praticamente toda a gente de que vou tendo conhecimento, nacional ou estrangeiro. Não o faço de uma forma exaustiva, é certo, mas vou estando a par. Nomear “grandes” escritores de canções é sempre um exercício circunstancial e fundamentalmente “injusto” – ao fim e ao cabo não são tão poucos quanto isso! Felizmente para nós, os que gostamos desta forma de expressão.

Em relação às actuações ao vivo, como encaras hoje as encaras hoje em comparação com os primeiros tempos? Daquilo que tive a oportunidade ver notei sempre uma evolução de concerto para concerto na tranquilidade e no estado de espírito com que os encaravas. Concordas?

Sim, sinto que tem havido uma evolução positiva e os concertos foram ganhando maior interesse com o decorrer do tempo. É natural que assim seja. Nos últimos concertos Old Jerusalem passou a ser efectivamente uma banda e isso tem tornado as coisas mais divertidas e interessantes em vários aspectos.

Divides ainda hoje a actividade musical com um emprego a tempo inteiro. Esperas ou acreditas alguma vez viver apenas da música?

É uma questão que não se tem posto e que é, para já, absolutamente secundária. Não sei sequer se gostaria de dedicar-me apenas a fazer música ou se seria capaz de o fazer. Tirando um ou outro aspecto prático, não tem sido problemático manter as duas actividades a um nível satisfatório, pelo que não é para já uma questão que me preocupe.


André Gomes
andregomes@bodyspace.net
23/02/2007