ENTREVISTAS
Acid Mothers Temple
"Groove" destrutivo
· 17 Jun 2006 · 08:00 ·
Acid Mothers Temple (AMT) é um nome comum sempre que se fala da psicadelia dos anos 90 e do novo século e mais habitual ainda em qualquer texto sobre a música marginal japonesa. Formados em 1996 por Makoto Kawabata e um grupo de músicos que gravita em torno do guitarrista, os AMT têm uma impressionante discografia (com discos que vão do muito bom ao inconsequente) que bebe tanto do rock psicadélico mais anacrónico como da exploração do ruído e do drone. Resultado: uma música que tem tudo para fazer mais sentido em cima dos palcos (a confirmar dia 20 de Junho, na Galeria Zé dos Bois, em Lisboa). Numa curta entrevista, Makoto Kawabata desfia um pouco do que vai na sua cabeça.

Que banda do universo dos Acid Mothers Temple vem a Portugal?

Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno. É um quinteto formado por mim, líder do "soul collective" Acid Mothers Temple, mais Higashi Hiroshi (guitarra e sintetizadores), membro dos AMT, Tabata Mitsuru (baixo, vozes), que já tocou com os Boredoms e Zeni Geva, Shimura Koji (bateria) que já pertenceu a vários grupos da cena underground de Tóquio desde os anos 80, como os High Rise, Mainliner e White Heaven. E, finalmente, Okano Futoshi (bateria), que tocou com o trio lendário de hard rock Subvert Blaze, os Ghost e muitos outros.

O que é que distingue estes Cosmic Inferno das outras ramificações dos AMT?


O princípio fundamental dos Acid Mothers Temple & The Cosmic Inferno é o uso de duas baterias, o que significa que a música não está presa a apenas um groove. Isso foi também um importante princípio para nós quando começámos os Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O.. De facto, pode-se dizer que a nossa metodologia original foi fundada sobre a ideia de um groove tão pesado que se torna destrutivo. No entanto, os Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. abraçaram gradualmente uma musicalidade mais complexa e o conceito original desapareceu. Os Cosmic Inferno vêm agora reavivar o conceito original de AMT e estamos a tentar levá-los a uma nova dimensão.

Na obra dos AMT há constantes referências a bandas, tanto no som como na arte visual dos discos e nos títulos dos temas. De que forma é que usaram, por exemplo, os Black Sabbath como inspiração para “Starless and Bible Black Sabbath”, lançado este ano?

A Alien8 Recordings pediu-nos para gravar um tributo aos Black Sabbath. Há muitos grupos que seguem os Sabbath, mas são quase todos inspirados no imaginário demónico e nos riffs pesados e negros. Mas aos meus ouvidos eles soam muito diferentes disso – é blues rock muito pesado com riffs únicos. Os solos de guitarra são muito bluesy mas o som não é pesado devido à escassez de notas. Portanto, o meu elemento preferido nos Black Sabbath é a parte blues rock – não considero que sejam os inventores do heavy metal. O nosso disco tenta enfatizar estes elementos blues rock do som dos Black Sabbath.

No passado, disse que não via os AMT como um projecto duradouro, o que não se verificou. Como é que os AMT ainda existem?

Tornaram-se uma entidade possuída pela sua vontade própria e independente. É óbvio que fomos nós que montámos os AMT, mas, de alguma forma, sem que estivéssemos conscientes disso, eles deixaram de ser o que queríamos e transformaram-se (ou cresceram?) em algo com vontade própria. Esta entidade tem poder suficiente para sugar o nosso baixista Tsuyama, Yoshida Tatsuya dos Ruins, Ichiraku Yoshimitsu (Doravideo), Daevid Allen, Mani Neumeier e Gilli Smyth dos Gong. Tudo o que podemos fazer é obedecer aos seus comandos, indo para onde ela nos quer levar. Não temos forma de saber qual será esse destino.

Como é a sua relação com o som? Parece mais interessado no som enquanto um cosmos e não como ponto de partida para canções.

Ouço certos sons na minha cabeça e tudo o que faço é agir como uma antena de rádio e tornar esses sons audíveis para outras pessoas. Esses sons vêm de um sítio a que chamo cosmos. Tudo o que quero fazer é reproduzir esses sons o mais fielmente possível. Por vezes, os sons parecem ruído ou um zumbido nos meus ouvidos, outras são imensamente minimais com uma melodia bela, e noutras vezes parece que estou cercado por sons muito rápidos e rock. É por isso que toco rock, música minimal, noise e música experimental.

Como é que despertou para a música?

O meu primeiro grande choque musical foi provavelmente ouvir música clássica indiana num documentário na televisão. Particularmente o som da tambura era muito próximo dos sons que ouvia constantemente. Ouvir Stockhausen na rádio quando tinha 10 anos foi outro grande choque. De novo, os sons dele eram muito semelhantes aos que ouvia, mas foi ainda mais chocante quando me apercebi que aqueles sons eram vistos e apreciados por outras pessoas enquanto música. Quando era bebé, a minha mãe odiava música popular e tudo o que ela punha a tocar em casa era Beethoven. Quando íamos passear, eu assobiava sempre a Sinfonia Pastorale.

E como é que passou para o rock?

O meu primeiro choque relacionado com o rock foi ouvir The Who na rádio com 12 anos. Antes disso tinha ouvido os Beatles e os Rolling Stones mas não tinham tido qualquer efeito em mim e, por isso, desprezava o rock. Mas depois de ouvir The Who comecei a ouvir bandas como os Zep, Deep Purple, Pink Floyd, ELP, King Crimson, etc. Depois comecei a investigar o jazz e música contemporânea, tradicional e folk. Por volta de 1978, tornei-me obcecado em encontrar uma banda que combinasse o hard rock de uns Deep Purple com a música electrónica de um Stockhausen. Procurei por todo o lado e, como não conseguia encontrar nada desse género, decidi que teria que ser eu a criar música assim. Foi assim que me tornei músico. No início não tinha instrumentos, por isso construí-os eu. Quando finalmente consegui pôr as mãos num instrumento a sério, nem fazia ideia de como afiná-lo, por isso limitei-me a desenvolver a minha forma de tocar.

Envolveu-se na cena underground da altura?

Nessa altura, a new wave e o punk eram muito grandes mas não me sentia ligado a essa cena porque o que eu andava a tocar era música improvisada experimental/psicadélica anacrónica. Também não me enquadrava na cena noise, por isso toda a gente me odiava! Alguns dos meus amigos do liceu tocaram com os Boredoms mas esse foi o único contacto que tive com a chamada cena underground. A primeira vez em que me envolvi a sério com essa cena foi a meio da década de 90, quando comecei a tocar com grupos como os Musica Transonic e Mainliner.

Os AMT já editaram dezenas de discos. Como é que encara os erros e o material menos bem conseguido no contexto da vossa discografia?

Não existe um “disco perfeito” e estou sempre insatisfeito com alguma coisa nos nossos discos. Mas isso dá-te algum objectivo, algo para melhorares no próximo disco. O que, por sua vez, dá energia espiritual e física. Acredito que um músico estaria acabado se estivesse 100% satisfeito com um dos seus discos.

Pedro Rios
pedrosantosrios@gmail.com

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