ENTREVISTAS
Bypass
Sem prazo de entrega
· 14 Jun 2006 · 08:00 ·
Em 2001, depois de algumas maquetas, o EP homónimo Bypass colocava os Bypass no mapa musical português e suscitava algumas comparações com o pós-rock de Chicago e com projectos com casa mãe na Thrill Jockey. A partir daí e desde então esperava-se um disco com principio, meio e fim que desse continuidade ao trabalho desenvolvido nesse primeiro lançamento e ao que se ia mostrando nos concertos ao longo dos tempos. A pausa foi grande, mas o momento chegou por fim. Muitos anos após o inicio de tudo (os Bypass levam já mais de dez anos disto) e cinco anos depois do EP, o projecto que tem como formação base Bruno Coelho, Eduardo Raon, Miguel Menezes e Rui Dias, cumpre a promessa subentendida com Mighty Sounds Pristine, o primeiro full length da banda lisboeta, com selo da nortenha Bor Land (o 30º). Chegou sem pressas, aterrou pensado e cuidado, tal como os Bypass o quiseram. Em entrevista, Eduardo Raon e Bruno Coelho desvendam algumas questões mais ou menos pertinentes, com respostas suficientemente esclarecedoras.

Reza a história que os Bypass se juntaram em 1998, mas quais são os pormenores dessa história?

Eduardo Raon: A história começou antes ainda quando o Rui o Miguel e eu começámos por nos juntar em casa uns dos outros simplesmente a fazer experiências sonoras, quando éramos colegas de escola secundária. A dada altura houve o desejo de construir algo de mais palpável e formámos uma banda juntamente com um vocalista e um baterista. A formação foi evoluindo em termos de elementos e sonoridade e só a partir de 1998 com a estabilização dos elementos começámos a trabalhar com consistência.

Todos vocês foram formados pela via clássica mas diria que, embora não tenham posto de parte esses conhecimentos, decidiram fazer as coisas à vossa maneira. Assumiram esse “risco” desde o início?

Bruno Coelho: Fazer música à nossa maneira sempre foi uma prioridade e uma necessidade. É óbvio que quando a ideia de ser um músico profissional surge, é preciso fazer algumas concessões, principalmente em Portugal, no entanto os Bypass sempre se mantiveram acima de tudo isso.

Quando começaram a tocar juntos existia no seio da banda uma forte empatia musical ou existiam várias influências em cada um que se reuniram e convergiram no som geral da banda?

B.C.: Penso que ambas. Sempre existiu uma grande empatia, mas as influências são muito diversas e muitas vezes “chocamos” uns com os outros. Tentamos sempre chegar a um consenso de forma democrática. Uma das coisas que diferencia os Bypass em relação a todas as outras bandas onde já toquei é o facto de não se ter medo de criticar os outros.

O que recordam agora dos tempos de criação e lançamento do Bypass EP, editado em 2001? Como vêem agora anos depois esse ‘filho’?

E.R.: Foi obviamente uma altura para nós de grande entusiasmo pelo alcançar de um importante objectivo nosso que era o de mostrar a nossa música através de um registo que não o de um concerto. Em relação ao disco em si, acho que sentimo-lo como a nossa estreia e como tal há um misto de orgulho e ingenuidade associados.

Desde o início chegaram até vós comparações que os relacionavam com o pós-rock de Chicago. Como receberam essas comparações?

E.R.: Recebemos muito bem. Em boa verdade as comparações não foram exclusivamente com o pós-rock de Chicago e sempre foi para nós motivo de expectativa, antes, e risota, depois, saber com quem é que nos associavam de cada vez que surgia uma critica. Sobretudo porque sabendo nós que desenvolvemos um trabalho que depende sobretudo da interacção dos elementos da banda e tendo em conta que os gostos de cada um são tão abrangentes, nunca sentimos perigar a música que fazemos em termos de personalidade.

Lê-se no press-release do novo disco que a maior parte dos temas que respondiam a essa observação tinham nascido antes de qualquer um de vocês tomar conhecimento da música dos Tortoise ou dos Trans Am…

E.R.: Pois assim aconteceu. Acho que a questão das influências nem sempre é encarada de uma maneira muito lúcida. Para mim é natural “roubar” elementos a outras músicas. Mas o que se “furta” tem naturezas muito diversas, pode ser um tipo de som de um instrumento qualquer, pode ser um pormenor dinâmico, pode ser a abordagem melódica, harmónica, tímbrica, estrutural, conceptual, um qualquer maneirismo vocal ou instrumental e tantos outros. E assim, qualquer sítio é possível de ser objecto de “furto”, seja música, cinema, publicidade, artes plásticas ou performativas, culinária ou engenharia, da esfera do quotidiano ou do domínio da fé, tanto faz! Desta forma Trans Am ou Tortoise ou qualquer outra coisa específica tem uma influência muito diluída/diminuta na maneira como fazemos música.

Do lançamento do EP Bypass até à chegada deste álbum passaram-se muito anos (cinco, para ser mais preciso). Este foi o tempo necessário para os Bypass criarem aquilo que imaginavam?


E.R.: O disco que podemos ouvir agora é resultado de um processo de constante evolução, amadurecimento, reformulação, desenvolvimento, experimentação. Foi um processo moroso para nós mas compensador no sentido em que chegámos à fase de gravação com todas as ideias muito claras em relação a todas as músicas e sons e à maneira como os queríamos gravar. Durante o período que separa a edição dos dois registos houve ainda ausências forçadas de alguns elementos que naturalmente comprometeram uma maior celeridade do processo.

Bypass © Tatiana Macedo

Como se prepararam para seguir para o estúdio, em termos de instrumentos, para trazer ao mundo este “Mighty Sounds Pristine”? Tanto quanto sei chegaram até a levar instrumentos criados por vocês próprios…

E.R.: Essencialmente trabalhámos cada tema procurando o que de mais essencial havia em cada um e, em seguida, que sons ou, se lhe quisermos chamar meios, seriam os mais adequados para veicular a ideia que identificámos para cada música. A escolha dos instrumentos decorre desse processo e, por isso aparecem alguns instrumentos menos usuais ou efectivamente engenhocados por nós caso da Lap-Steel ou do chocalho de Jacarandá ou outros menos usuais como a escova de dentes ou o zacli-trac.

Com este novo disco parecem retroceder um pouco as tais ligações com esse tal pós-rock de Chicago. Os Bypass de hoje parecem até ter uma certa vontade de fazer algo mais aproximado às ‘canções’, pelo menos num ou outro caso. Como se deu essa evolução?

E.R.: Não sei se concordarei com essa imagem mas há efectivamente um momento do disco em que abordámos o formato canção assumidamente. É no tema “Ashford”. Fizemo-lo porque o tema se insere numa trilogia (“Eurostar”) que versa a questão da inércia cultural e as dificuldades de comunicação persistentes entre membros de países que fazem parte de uma Europa comunitária que se quer, apesar de multi-cultural, consentâneamente fraterna e solidária e tolerante. Ora o tema “Ashford” representa precisamente o capítulo de chegada desta viagem de “Eurostar” que esta trilogia pretende ser. E como a chegada é precisamente em Inglaterra decidimos utilizar um formato canção que fosse reminiscente do pop/rock britânico. Já se o conseguimos é outra história.

Mais recentemente, entraram para o núcleo duro dos Bypass, Joaquim de Brito (teclados, voz e percussões) e Tiago Lopes (baixo). O que ganharam os Bypass com estas novas entradas?

E.R.: Para alem de nos possibilitarem executar de uma forma mais total os temas ao vivo, creio que é a personalidade de cada um a sua mais valia para o grupo. A maneira de pensar música é forçosamente e, nesse sentido tem sido desafiante para todos trabalhar com pessoas novas.

Como surgiu a oportunidade de lançar este “Mighty Sounds Pristine” pela Bor Land, aquele que é curiosamente o 30º lançamento da editora nortenha?

E.R.: Nós decidimos gravar o disco a nossas expensas e apresentar o registo a várias editoras posteriormente. E assim fizemos e a proposta que, para nós, foi mais satisfatória foi a da Borland com quem já tínhamos tido contacto através da edição da compilação Use Your Imagination em que participámos.

A apresentação oficial do disco aconteceu no dia 5 de Maio no Fórum Cultural José Manuel Figueiredo, na Moita. Como foi apresentar as canções deste “Mighty Sounds Pristine”?

E.R.: Foi para nós um motivo de grande entusiasmo e que despoletou em nós um sentido de entrega enorme. Finalmente poder mostrar o disco pelo qual esperámos tanto tempo que fosse editado fez com que esta actuação específica se rodeasse de uma carga emocional adicional e foi óptimo sentir a reacção empática do público a cada tema executado.

Numa nota informativa galega surgida aquando de um vosso concerto em Vigo apontavam os Bypass como sendo “um dos grupos mais interessantes do actual panorama musical português”. Qual é o peso desta afirmação para vocês?

E.R.: Não nos é especialmente pesada. Temos noção que a música que fazemos é um trabalho sério e isso é o mais importante para nós. Se as pessoas acham especialmente interessante, tanto melhor. Eu gostaria que todas as pessoas que nos ouvissem ficassem com essa opinião pois também é importante o reconhecimento como incentivo mas a responsabilidade não é acrescida. Essa é decorrente do nosso espírito crítico e brio profissional em apresentarmos o melhor que conseguirmos fazer em cada momento.

André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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