ENTREVISTAS
Pan American
A ecografia de uma paternalidade
· 21 Mai 2006 · 08:00 ·
Após cumprida uma década de produção musical que por si só atribuiria uma definição compreensiva ao termo pós-rock, Mark Nelson aplica-se com uma dedicação extremosa à documentação em disco do período de dois anos que tomou o nascimento do filho Lincoln e da adaptação que esse milagre implica. Desta feita, com um zelo meticuloso que a experiência paternal derramou sobre o novo For Waiting, For Chasing. Contrasta este debruçar criativo com a vocação de alguém que, ao contribuir para os Labradford ou dedicado ao seu veículo Pan American, não o fazia com a intenção voluntária de oxigenar as células que compunham o pós-rock de 90. Aquele que um dia ajudou a tornar inquebrável a compostura esfíngica a um disco como Mi Media Naranja (dos Labradford), é agora um pai babado e amigavelmente cedente. O Mark Nelson que se dispôs a partilhar com o Bodyspace detalhes sobre o seu mais recente álbum fala como um homem de família, mas nunca tropeça nos tiques “caretas” que essa responsabilidade, como se um acne adulto se tratasse, vai conferindo a discursos conformados. For Waiting, For Chasing é o primeiro dia do resto da sua vida.

De que forma mantém o entusiasmo que o leva a produzir discos de Pan American? Tomou algumas resoluções inéditas ao partir para For Waiting, For Chasing?

Para falar a verdade, não tomo a música como um emprego. Por isso, se não fosse excitante, deixaria de gravar discos. Mas surge sempre uma qualquer motivação interessante que desejo experimentar. Começo por explorar sons ou melodia, e deixo que o projecto evolua a partir daí. O mais entusiasmante é reparar que cada novo disco progride como um puzzle. Vai adquirindo forma durante um ou dois anos. Não tenho uma ideia definida quando inicio a sua feitura, ou casos há em que as minhas intenções iniciais mudam por completo na conclusão. É quase como uma improvisação muito lenta que dura dois anos!

Conte-nos um pouco acerca da colaboração com Steven Hess e David Max Crowford neste novo disco. Até que ponto vai a presença deles num disco à partida tão pessoal? Em que aspectos esta colaboração diferiu da mantida com Mimi Parker e Alan Sparhawk dos Low (em 360 Days/360 Bypass)?

Foi semelhante, atendendo a que todas estas colaborações partem da amizade mútua. O Steven também andou comigo em digressão durante algum tempo, e o seu estilo tem-se tornado cada vez mais numa parte fundamental de Pan American. O Al e a Mimi vivem muito longe de mim e isso dificulta a que possamos sair juntos. Mas é fabuloso trabalhar com alguém que adoras e algo de novo resultar disso.

Uma das coisas que reparei em For Waiting, For Chasing é a total ausência de batidas constantes (que se escutavam, por exemplo, a um disco como The River Made No Sound de Pan American). Significa isso que estes são tempos distintos? A direcção contemplativa do disco anula por completo tudo o que possa impelir à dança ou movimento?

Acho que talvez seja um tipo diferente de dança. Não me sinto confortável com a ideia de que o corpo se encontra separado da mente e a mente do espírito. Idealmente, não existe qualquer conflito – quero dizer que a mente não é inimiga do corpo ou da alma. Todos têm os seus momentos importantes e espero que todos sejam parte da mesma coisa!

Além do pulsar do coração, houve outros elementos sonoros captados ao processo de nascimento do bebé Lincoln que tenham integrado o disco?

Não, mas na primeira música é possível escutar a mãe a cantar para ele.

Quão forte é a ligação entre este disco e o período de gravidez de nove meses? É de algum modo umbilical?

Constituiu uma forma de celebrar a espera. É diferente para uma mulher que está a viver a experiência no seu próprio corpo, mas, para mim, foi irreal. Havia muitas vezes a sensação de:”Certo. Isto está a acontecer, mas não sei ao certo o que representa...”. Foi divertido, mas alturas houve em que parecia estar a acontecer a outra pessoa. Talvez este disco tenha servido a que eu pudesse “contribuir” de alguma forma.

No que se refere à combinação de camadas, “Dr. Christian” parece-me alcançar um balanço perfeito. Caso as colocasse numa escala, que texturas tomaram a maior fatia de tempo ao gravar For Waiting, For Chasing?

Tentei durante os últimos dois discos introduzir alguns elementos granulosos no meu som. Isso representa uma novidade para mim. Gosto de ver presente na música algo um pouco mais áspero ou menos “musical”, nem que seja numa primeira abordagem. Esses sons e momentos ocupam a maior fatia de tempo, mas são os mais divertidos. É fantástico mencionar o tal “balanço”, porque essa palavra e ideia é muito importante durante o processo. Procuro sempre reflectir sobre como obter o obter o balanço entre equalizador alto e baixo, textura, melodia, ritmo, componentes granulosas.

Este novo álbum parece terminar com o sol a ocultar-se entre a linha do horizonte, como se antecipando um próximo dia. Sente que gerou muitas pistas a seguir?

O melhor na vida é desconhecermos o que surgirá amanhã. É óbvio que isso também é o mais assustador.

Existe um sentido literário no título For Waiting, For Chasing? Recomendaria a alguém experimentar ambas as sensações?

O “For Waiting” refere-se à gravidez e o “chasing” ao bebé. Primeiro espera-se uma eternidade, e depois passam-se vinte anos a perseguir alguém. Recomendo ambas as experiências. Mas ainda sou um novato nestas tarefas.

Como se sente com o facto de ter sido lançado pela Mosz (label vienense propriedade do Radian Stefan Nemeth e de Michaela Schwentner)? Que opinião tem do material recente dos Radian?


Os Radian são a minha banda favorita. Partilhámos uma digressão no Estados Unidos há uns anos e foi assim que os conheci. Ninguém veio aos concertos, mas foi das melhores experiência que já vivi em termos musicais.

O que pode revelar acerca do status actual dos Labradford (o outro projecto bem mais pós-rock de Mark Nelson)?

Nós três ainda continuamos amigos, mas agora espalhados pelo mundo. Espero que ainda venhamos a gravar outro disco, mas, mesmo que tal não aconteça, não vejo razão para acabar com a banda.

Tem trabalhado em algum material que não diga respeito a Pan American?


Não. Infelizmente, disponho de pouco e precioso tempo para a música actualmente. Talvez um dia venha a gozar da hipótese de tocar com bandas lideradas por outras pessoas. Gostaria imenso disso.

Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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