ENTREVISTAS
Burnt Friedman
Este músico alemão é considerado um verdadeiro futurista na criação de música electrónica
· 19 Set 2003 · 08:00 ·
É sexta-feira e estou no bar do último andar do Hotel Éden, onde Burnt Friedman está hospedado para uma curta passagem por Portugal. Já é final de tarde, e apesar da brisa mais fresca, preferimos ficar na esplanada com uma magnífica vista sobre Lisboa, dos Restauradores até ao Castelo.

Este músico alemão é considerado um verdadeiro futurista na criação de música electrónica. A sua imagem de marca é a desconsideração de limites na música, arriscando-se a combinar, através de um sentido de ritmo muito próprio, uma miríade de sons que vai do jazz, dub, ou reggae aos ritmos de Caraíbas e África.

À minha frente está um homem alto e magro, que veste t-shirt preta e calças de ganga da mesma cor. Burnt é muito calmo, fala pausadamente, expondo as suas ideias de forma sucinta e sem grande alarido. A sua posição é rígida, senta-se direito e mexe-se pouco. Apenas sorri quando descobrimos o gosto comum pelo grupo australiano The Necks (“I have all their albums” diz com um sorriso tímido). A conversa – curta, dado o avançar da hora - gira à volta do seu último trabalho, Can’t Cool (editado este ano), da sua actuação inserida na Bienal Experimenta Design (www.experimentadesign.pt) e da sua música, algo tão particular como indefinível.
Os teus trabalhos anteriores percorrem um repertório muito diversificado que atravessa o jazz latino (Con Ritmo), calypso beats (Secret Rhythms) e o afro-dub do teu último trabalho, Can’t Cool. No meio de tantas influências, como é que defines a tua música?
Eu não consigo definir a minha música. Só lhe posso chamar “nova música”. È uma música do futuro que está a ser inventada agora. Durante a maior parte do ano estou a viajar, para ir ter com músicos, com contactos que me dão, e é a partir desses encontros que surge a minha música.

E achas que há outros projectos no mundo da electrónica que tentam seguir a mesma direcção do teu?
[pausa para pensar] Não, sinceramente não conheço nenhum outro projecto que trabalhe da mesma forma. Nem mesmo na Europa.

No teu último trabalho chegaste a trabalhar com 20 músicos de diferentes países (Argentina, Chile, Nigéria, Alemanha, etc) e géneros. Como é que conseguiste coordenar todas essas influências?
Foi um processo bastante natural. Conheci muitos desses músicos através de contactos de amigos meus, e aproveito as minhas viagens para trabalhar com eles. Hoje em dia, com as novas tecnologias, é muito fácil trabalhar. Temos programas comuns de computador, a mesma plataforma de trabalho, o email. Tudo isso facilita o trabalho.

Quase não precisam da presença física, não?
Não, isso continua a ser importante. É importante estabelecer uma ligação, conhecer as pessoas, nem que seja por dois ou três dias. O que se passou com este trabalho é que muitas das faixas já estavam no meu computador há três anos. Durante estes últimos anos recolhi muito material, e acabei só por usar metade. Por exemplo, com o Patrice, um cantor bastante conhecido na Alemanha, gravei logo quatro faixas.

Então podemos esperar algo como um Can’t Cool 2, no futuro?
Sim, mais ou menos. Estou a trabalhar nisso agora. O Can’t Cool é um CD que vai muito às raízes da música, que tem como principal influência África. Neste trabalho tenho a participação de Abi, que vem da Nigéria e tem trazido muito dessa influência africana. O meu objectivo é continuar a viajar por África em busca de novo material.

E nunca pensaste trabalhar com músicos portugueses?
Não, eu não planeio as coisas dessa forma... “agora falta-me trabalhar com artistas deste ou de outro país”. A maior parte das minhas viagens é feita no mundo anglo-saxónico. Costumo viajar bastante por Inglaterra, pela Austrália, pela Nova Zelândia.

Apesar dessa procura de novos músicos e influências, nunca deixaste de trabalhar com a tua banda, The Nu Dub Players, desde o teu primeiro álbum (Con Ritmo). Consideras que eles são a base da tua música que te permite ir ao encontro de outros músicos?
Não acho isso. Os Nu Dub Players não existiam quando comecei a trabalhar em 1999. Eles são o produto da minha imaginação. Eu sou um programador, não sei tocar nenhum instrumento. O meu objectivo, quando comecei a trabalhar a minha música, era que os instrumentos de uma banda reproduzissem sons humanos. Que com uma guitarra pudesse fazer o “hum” da voz humana [exemplifica soltando alguns “hums” tocando na barriga para que eu compreendesse melhor]. O objectivo final é chegar aos sons sexuais. É para isso que trabalho com a minha banda. Por isso considero que são projectos em paralelo e não uma base.

Mas não é um paradoxo tentar reproduzir sons humanos através da manipulação do computador?
Sim, é verdade, é um paradoxo. É um paradoxo porque as máquinas nunca vão poder imitar os humanos. Isso nunca vai acontecer.

Além da tua actividade musical também geres a tua própria editora, Nonplace (www.nonplace.de). Quais são os principais projectos da editora?
Agora temos trabalhado muito com Olivier Beige, que é um músico de Colónia. Na realidade ele e eu vimos da mesma terra. Ele tem feito o seu próprio trabalho com a sua banda.


O que é que podemos esperar da tua actuação amanhã à noite?
Amanhã à noite vou tentar fazer um mix de todos os meus álbuns. Os que estão mais familiarizados com o meu trabalho vão de certeza reconhecer algumas faixas. Quero também apresentar ao vivo, pela primeira vez, uma faixa nova, que espero sinceramente que resulte, mas que ainda não sei qual vai ser o impacto final. Além disso, nesta actuação não estou com o Jaki [Liebezeit, o baterista dos Can que costuma pontificar nas actuações de Friedman e que tocou para o álbum Playing Secret Rhythms, de 2002). Vou ter lá a sua bateria, mas ele não vai estar lá.

Então quem é que vai tocar a bateria?
Ninguém, a bateria está em sentido figurado. Tenho toda a actuação dele já gravada num mini-disc. O que se vai passar é que vou ter cinco mini-discs a funcionar em simultâneo, e vou programar por cima dessas gravações. Vai ser algo complicado, porque os mini-discs têm de estar todos sincronizados e não se vai poder voltar para trás. Mas acho que vai resultar bem. Também vai lá estar o D-Fuse, um amigo meu de Londres, que vai apresentar uma instalação de vídeo que acompanha a música.
Só espero que as pessoas não fiquem por lá a passear de copo na mão, a conversar, mas que prestem atenção à música. Gostava de voltar a Portugal para um evento maior, onde pudesse trazer mais músicos. Espero voltar ainda este ano, ou no próximo.

O que te falta criar? Visto de fora parece que já experimentaste de tudo…
Não, acho que ainda falta muito para criar. Acho que não há limites à criação. Não tenho medo de experimentar coisas novas e de trabalhar com material novo. Há ainda muito por descobrir, não me sinto nada limitado…

E o que é que pensas da indústria musical, que parece viver mais do ‘revival’ que da criação de nova música?
Eu acho que é uma situação muito triste, os músicos viverem da música do passado. A palavra que encontro para descrever essa situação é “redundância”. É redundante continuar a recriar a música. Eu continuo a querer criar coisas novas.

Voltei a encontrar Burnt na noite seguinte, no restaurante panorâmico de Monsanto, para a sua actuação na Noite Super Panorama, integrada na bienal do Experimenta Design em Lisboa. Por uma noite o restaurante foi transformado numa nave espacial gigante, para receber uma série de DJ’s numa festa em que se pretendia encerrar a semana inaugural da Bienal. Os pisos do restaurante foram remodelados para acolher pistas de dança e bares.

Vi-o passar com ar algo aluado, entre o primeiro e segundo piso, e perguntei-lhe quando ia actuar. “Oh, I think at 8 a.m… They‘re running late”. Não foi às oito da manhã, mas quase. Já passavam das quatro quando Burnt começou a actuar no segundo andar, para um público meio receptivo. Muitos já se tinham ido embora e a maioria estava no andar de baixo, onde a música house continuava a atrair mais gente.
A actuação foi intimista. Conseguia-se discernir, na música de Burnt, todas as camadas referidas na entrevista. Ali estava o beat das Caraíbas, acolá um trombone, ou o som de batuques e tambor que acabou por transformá-la em algo muito tribal. Os mais atentos sentavam-se nos degraus do palco, mas a maioria - como previra o músico - estava a dar as suas voltas de copo na mão, a conversar. Ruídos interferiam com a música; quando esta baixava de intensidade, eram as vozes das pessoas que se ouviam, como se tivéssemos voltado ao tempo do restaurante. Uma pena…
Sofia Barbosa

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