ENTREVISTAS
A Naifa
Canções contemporâneas
· 12 Abr 2006 · 08:00 ·
Mais do que ser um projecto original, A Naifa teve o mérito de surgir na altura e no tempo certo, captando o zeitgeist do início do século: a fusão, a apropriação, a recuperação das músicas tradicionais/populares (“folk is the new loud”, pode-se dizer) e a sua actualização. Ou como bem expõe nesta entrevista João Aguardela, os membros da banda fazem parte da “última geração portuguesa a crescer entre duas realidades”, que teve “toda uma cultura portuguesa ainda bastante presente e activa, quotidiana” e, ao mesmo tempo, “uma abertura ao panorama internacional”.
Depois de Canções Subterrâneas, 3 Minutos Antes de a Maré Encher surge como um álbum menos espectacular e mais depurado: sente-se que a banda junta o fado e elementos da pop moderna já sem a mínima intenção de “chocar” (se é que alguma vez a tiveram), mas sim no mero processo de construir canções contemporâneas. A meio de uma digressão nacional, o baixista d’A Naifa explica um pouco do processo de composição da banda (que inclui a absorção de textos de poetas portugueses dos nossos dias, mais ou menos jovens) e abre as portas a uma tentativa de internacionalização.

Podem não ter sido o primeiro projecto a optar por mesclar sonoridades portuguesas e contemporâneas (de influência anglo-saxónica), mas foram pelo menos os que o fizeram até agora de forma mais coerente. Uma banda assim não reinventa o seu conceito ao segundo disco, mas tem que encontrar novos desafios. O que procuraram desta vez? O aperfeiçoamento das canções, no sentido mais puro da palavra? A canção pop perfeita?

A Naifa transformou a nossa vida de tal forma e em tantos sentidos que nos apeteceu contemplar de uma forma mais demorada o universo que criámos com as Canções Subterrâneas. Aquilo que começou como uma experiência mais ou menos fragmentada à volta de uma determinada ideia de música portuguesa ganhou uma vida própria. Ganhou vida quando tocámos aquelas canções ao vivo, quando elas encontraram pessoas interessadas, quando passaram na rádio e quando se tornaram parte das nossas vidas. Nesse sentido de quotidiano, nem sequer pensámos de uma forma muito consciente no que se seguiria, deixámo-nos simplesmente embalar pel’A Naifa.
É natural que o facto de nos conhecermos melhor e de conhecermos melhor A Naifa se traduza em algum aperfeiçoamento, mas tal não foi consciente, resulta apenas da ordem natural das coisas.

Nota-se uma maior homogeneidade, um corpo mais sólido, nestas canções do que nas do primeiro álbum. Terá sido resultado de o terem composto como uma banda?

É possível. As canções do primeiro disco foram compostas e arranjadas a partir de pequenos fragmentos musicais aos quais a voz da Maria Antónia, num segundo momento, era acrescentada. A própria estrutura e arranjo dos temas eram muitas vezes alinhados no computador. Neste disco as canções surgiram de uma forma mais espontânea, mais participada pelos músicos envolvidos, chegando a ser tocadas em estúdio antes da fase de gravação.

Por vezes parece que quiseram amenizar o confronto entre as influências mais portuguesas e as mais vanguardistas (como a electrónica). Como se dissessem: “Não estamos aqui para fazer fogo de artifício, para explorar mais essa ideia fado versus electrónica, estamos sim preocupados com as canções”. Foi isso?


Para ser absolutamente honesto nunca nos preocupámos com o equilíbrio entre as nossas influências. Queremos sim fazer uma musica à qual possamos chamar nossa, minha, do Luís e da Maria Antónia, que transporte com ela aquilo que nós somos enquanto músicos e enquanto portugueses. Se num segundo momento essa música se tornar de outros, se servir como elemento de identificação, se servir como elemento de reflexão e discussão, se der prazer a outras pessoas, então tanto melhor.

A electrónica parece ter sido usada com mais parcimónia, apenas como um complemento, a “cereja sobre o bolo” (exceptuando talvez “Señoritas”) …

A utilização da electrónica n’A Naifa nunca é um fim em si mesmo, existe como mais um elemento para a construção dessa música, uma ferramenta para chegarmos a determinados resultados em termos do ambiente proposto. Pode servir para sublinhar a atmosfera geral de uma canção ou para afirmar parte de um poema, mas nunca como algo com existência autónoma.

E o maior espaço dado à voz da Mitó, foi consciente?

Mais do que dado, esse espaço foi conquistado pela Maria Antónia. Tendo sempre como pano de fundo o que é necessário para materializar uma determinada ideia, penso que o percurso que ela fez lhe permitiu descobrir de uma forma mais espontânea as diferentes cambiantes da voz no universo destas canções.

Em “Todo o amor do mundo não foi suficiente” há um violoncelo discreto, em “Porque me traíste tanto” há um violoncelo e um sintetizador. Se bem que este último instrumento se possa enquadrar nas pitadas de electrónica que fazem parte da vossa idiossincrasia, parece-me haver aqui alguma novidade. Como surgiram estes elementos em estúdio?

Os elementos que dão corpo às canções vão surgindo de forma natural. Uma linha de violoncelo, determinado ritmo ou tempo, um acorde de guitarra, a voz, a interpretação dos poemas, todos estes elementos vão surgindo e vão-se influenciando mutuamente, fazendo do processo de construção das canções algo de verdadeiramente imprevisível.

Pode ser este um caminho de futuro para A Naifa? Seguir a mesma linha mas adicionar texturas diferentes às canções?

Não faço a menor ideia de qual será o futuro da Naifa em termos criativos. Vamos agora iniciar uma digressão nacional e penso que será o decurso desse tempo e dessa vivência que determinará o caminho a seguir.



Há ainda o caso de “A verdade apanha-se com enganos”, que começa com um ritmo que parece inspirado no folclore português.

Ainda que a referência mais visível n’A Naifa seja o Fado, visto ser este talvez o único sobrevivente das músicas populares portuguesas, existe ainda em nós uma memória das músicas regionais, do folclore, que sem grande esforço se vai manifestando no nosso trabalho e que, dito de outra forma, faz parte de nós.

Para este álbum entraram em estúdio apenas com alguns poemas seleccionados. Como foi o método de trabalho? Partiram dos textos, começaram pela composição e depois foram encaixando os textos, ou foi tudo mais anárquico?

N’A Naifa, em termos de processo criativo, podemos dizer que é tudo bastante anárquico. Podemos começar por ler um poema, podemos começar por um pequeno fragmento musical, por um ambiente ou por uma ideia. Na sua maior parte os poemas que utilizámos já faziam parte das nossas vidas, já eram nossos conhecidos antes da existência d’A Naifa, mas mesmo eles acabaram por nos levar ao encontro de outros poemas, de outros autores, fazendo com que nada esteja determinado à partida, nem o método nem os processos, e muito menos o resultado.

Tematicamente, o disco parece carregado de infelicidade urbana, tédio, solidão. Há marcas de contemporaneidade, mas por baixo de várias camadas parece que se encontra a melancolia do fado, um destino a que não se pode escapar, apesar de as personagens dos poemas bem tentarem. Intencional ou ocasional?

Penso que uma das coisas que nos atraíram nestes autores foi o facto de partilharem o mesmo tempo e o mesmo espaço que nós. Escrevem sobre o quotidiano e mesmo com uma visão desencantada, ou realista se preferires, existe neles uma ironia que eu penso que é uma boa ferramenta para exigirmos um mundo diferente, se possível melhor.

Há uma continuidade temática com o disco anterior. Qual é a razão da escolha dessa identidade? Por vezes, ouvir a guitarra portuguesa como harmonia de algumas das letras é anacrónico, ou sugere um mundo a duas velocidades…

Não se pode escolher uma identidade. Esta é a nossa, e eu desconfio que tem muito a ver com um fenómeno geracional. Somos provavelmente a última geração portuguesa a crescer entre duas realidades. Por um lado, toda uma cultura portuguesa ainda bastante presente e activa, quotidiana. Por outro lado, uma abertura ao panorama internacional, quebrando assim um isolamento de quase cinquenta anos. É pois nesta dualidade aparentemente contraditória que é criada a nossa identidade.

Parece ser consensual que é mais fácil vingar no panorama internacional com um projecto que tenha uma centelha de diferença face à pop de raiz anglo-saxónica, uma marca da música tradicional do país de origem. A guitarra portuguesa e a inspiração fadista não podem servir como marca de diferenciação que vos permita o acesso a um mercado maior do que o português? Já houve algum contacto nesse sentido?

Desde o início que os discos d’A Naifa têm feito um percurso curioso. Sem sabermos como, temos tido notícias de interesse por parte de pessoas de diferentes países que têm tomado contacto com a música d’A Naifa. Da nossa parte teremos de nos disponibilizar para dar sequência a esses contactos, o que não nos foi possível até este momento.

Ao vivo são só quatro em palco. Os arranjos sofrem algumas alterações em relação aos discos (talvez no caso das músicas de Canções Subterrâneas…), ou são fiéis à matriz?

Tentamos manter o ambiente dos espectáculos o mais próximo do disco. Ainda que sejam experiências diferentes, têm como base comum as nossas canções. A diferença é depois feita pelo público, pelos espaços e pela nossa interpretação. Em alguns espectáculos tocamos algumas canções que não sendo nossas pensamos partilharem o mesmo espírito.

A digressão que têm programada passa por espaços mais ou menos pequenos, fechados. Até onde pode chegar a música d’A Naifa? Ela não parece fadada para grandes espaços…

Estes espaços mais pequenos, mais íntimos, pareceram-nos os mais indicados. Um concerto d’A Naifa exige alguma disponibilidade das pessoas que o vão ver e ouvir e estes espaços proporcionam uma proximidade, um espaço de partilha para fruir aquela música e aqueles poemas, que de outra forma talvez não fosse possível.

Já têm planos para a pós-digressão, para depois de Maio?


Depois da digressão, em princípio, começaremos a estabelecer contactos com vista à internacionalização d’A Naifa.

João Pedro Barros
joaopedrobarros@bodyspace.net

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