ENTREVISTAS
Sun Blossoms
Florescer
· 18 Abr 2019 · 13:32 ·
O sol, as flores, e o rock n' roll. Sobretudo o rock n' roll. Alexandre Fernandes lançou este ano um novo álbum, com a preciosa ajuda de um quantos companheiros de armas, e o resultado é - como seria de esperar - eléctrico.

Ali por volta do quinto minuto de "Weeding Out", finalmente percebemos: Alexandre Fernandes não está para merdas. Quem não estiver disposto a entregar toda a sua alma ao rock n' roll e à energia eléctrica que corre pelo ar sempre que uma guitarra ecoa o sangue e o suor, só tem é que ir para casa, meter o rabo entre as perninhas, dedicar-se à pop parola e a coisas mais cantaroláveis; esta vida não é nem será a sua. Mas é a dele; e é dele desde tenra idade, desde que subiu a um palco com os Black Lips, aleatoriamente, desde que formou o seu próprio projecto musical, desde que lança canções e discos e chapadas atrás de chapadas meio punk, meio garage, meio o-que-quiserem. Sun Blossoms é o seu meio, e entretanto albergou dentro dele mais dois camaradas: Alexandre Rendeiro e Luís Barros, baixo e bateria respectivamente. Este ano, houve Sun Blossoms, admirável novo disco que nos levou a conversar com ele via e-mail. Sobretudo sobre rock, claro. Mas há algo que interesse para além disso?
© Martim Teixeira
Torna-se inevitável mencionar o dia em que subiste ao palco com os Black Lips, num concerto na Caixa Económica Operária, quando tinhas apenas 12 anos - é algo que ainda está presente no imaginário de muitos dos que lá estiveram. Foi esse o teu momento "Sex Pistols em Manchester, 1976"? Que é como quem diz, o momento em que decidiste que querias fazer música? E é fácil "despir" essa imagem, a do puto que subiu ao palco?
 
Acho que foi o mais próximo de um momento desses que irei ter! Foi muito marcante para mim, eles eram a minha banda preferida na altura, e a situação toda foi um bocado surreal. Cheguei à Caixa Económica Operária um bocado antes do concerto, e estavam o Jared [Swilley, baixista] e o Ian [St. Pe, guitarrista] a beber a sua cerveja. Fui lá falar com eles, e perguntaram-me logo se os meus pais me tinham deixado estar ali, haha. Eles curtiram de mim, e até me ofereceram um vinil assinado pela banda toda. Depois, no concerto, durante a "Bad Kids" o meu irmão atirou-me para o palco e eu cantei a música com eles; no final o Ian pega em mim, estilo Rei Leão, e o Jared diz ao microfone Alex is a badass!...
 
Agora que penso nisso, deve ter sido tão surreal para o resto do pessoal que estava a ver o concerto como o foi para mim! Foi a primeira vez que tive contacto com pessoal que realmente admirava na música, e foi logo uma experiência épica. Entretanto nunca mais tive oportunidade de falar com eles e agradecer o baptismo.
 
Continuando com os Black Lips, e voltando ainda mais atrás no passado: em 2006, o bom do Mário Lopes falava deles como uma banda «empenhada em atiçar ainda mais a chama do rock n' roll». Faço-te duas das mesmas perguntas que ele lhes fez: esta descrição também te serve? Num momento em que tanto se escreve sobre a "crise" do rock n' roll, achas que as massas estão a precisar do género no seu estado mais cru, ou é no underground que ele tem mais força?
 
Não tenho andado muito atento aos novos lançamentos a nível do rock. Sinto que maior parte das coisas novas que oiço são demasiado agradáveis, e isso chateia-me, por isso prefiro explorar coisas mais antigas. O rock posto numa trela torna-se uma piada de si próprio; ele pertence à street, como me mostraram os Velvet Underground. Sinto que faz parte do meu papel, como músico, que o que eu faço transmita algum sentimento a quem o recebe, quer seja positivo ou negativo. Se o meu concerto só serve para entreter durante meia hora ou fazer uns moves de engate é porque alguma coisa não correu bem. 
 
Adorava que as massas começassem a ouvir um bocado mais de Destruction Unit mas não me parece que estejamos a caminhar nessa direcção. Também acho que não faz sentido andar a discutir se o rock morreu ou não, porque ao longo dos seus quase 70 anos há sempre coisas boas a acontecer. Acho que o papel do underground é manter a chama acesa quando ela está mais fraca, e quando o rock vem à superfície, inspira novas gerações de putos - como me aconteceu a mim, quando descobri a onda garage rock que andava a dar nas vistas em 2009-2010, com Oh Sees, Ty Segall, White Fence, etc.

© Vera Marmelo

Falemos agora do disco novo: Sun Blossoms. Porquê um LP só agora, e porquê dar-lhe um título homónimo? Quanto tempo demorou a ser feito?
 
O projecto começou quando eu tinha 15 anos. Sempre quis tocar com mais pessoal, mas nessa altura simplesmente não conhecia ninguém que partilhasse a minha visão. Eventualmente, comecei a gravar sozinho e fui encontrando pessoal com vontade de tocar comigo, mas sempre como uma coisa provisória, porque essas pessoas também tinham os seus projectos. Antes do lançamento do álbum tinha lançado dois EPs e um single, sozinho ou com a colaboração de alguns amigos, e conto pelo menos sete pessoas que já partilharam o palco comigo em Sun Blossoms. 
 
Sinto que os primeiros anos foram o meu desenvolvimento como músico e como pessoa, e o LP veio numa altura em que senti estabilidade tanto ao nível do que andava a escrever, como no pessoal com quem toco. As músicas do álbum foram escritas entre os meus 18 e 20 anos. A primeira foi a "Harmony", escrita logo depois do lançamento da minha primeira cassete, e a última foi a "Hageshii", escrita depois de ter visto os Lightning Bolt em Paredes de Coura.
 
A primeira vez que te vi tocar foi a solo, quando o projecto estava ainda a começar. Agora, tens contigo uma banda, com a qual gravaste este mesmo disco. O que mudou no teu processo criativo desde que deixaste de estar sozinho? Sendo Sun Blossoms, grosso modo, um projecto *teu*, és aberto às ideias que as pessoas que te acompanham possam ter ou és de facto - como dizes - «o chefão da porra toda»?
 
A sério? Só me lembro de ter tocado Sun Blossoms a solo uma vez em Évora. A forma como as melodias e riffs surgem ainda é a mesma: estou em casa ou no estúdio, fumo uma e toco guitarra. A forma como a música se constrói a partir daí é que mudou um pouco. Quando fazia tudo sozinho, gravava a ideia da guitarra no meu 4 pistas, e depois tocava bateria e baixo por cima. Acaba por ser um processo rápido e instintivo, porque as minhas limitações como executante desses instrumentos e do próprio modo de gravação faziam com que o caminho fosse bastante claro para mim. 
 
As músicas deste álbum já foram mais um esforço colectivo. Eu chegava aos ensaios com a guitarra e a voz geralmente já bem definidas, e às vezes uma sugestão rítmica, ou para o baixo, e depois íamos tocando até o Alex e o Luís terem partes para os seus instrumentos. Acho que estas músicas vivem muito da interacção musical entre nós os três; o objectivo foi sempre o de que as músicas soassem bem nos ensaios e concertos, sem ter de pensar em overdubs ou partes adicionais. Nunca foi a minha ideia ser um ditador na banda, mas como fui eu que comecei isto e sou a única pessoa que certamente estará no projecto do início até ao fim, prometi a mim mesmo que as contribuições dos outros membros nunca seriam numa tentativa de chegar a um denominador comum, mas sim contribuições que na minha visão elevassem as canções.
 
Não és o primeiro músico das novas gerações a adoptar o formato cassete, e certamente não serás o último. Qual o fascínio por este formato em particular?
 
Comprei um gravador 4 pistas quando fiz 16 anos e foi lá que fiz as primeiras gravações de Sun Blossoms, e é onde continuo a fazer as minhas demos. Tenho a certeza que bem mais de metade das bandas e sonoridades que me influenciam foram gravadas em analógico, e para mim só fez sentido seguir esse caminho, mesmo que na sua versão mais lo-fi. Como gravo em cassete, acho fixe manter o produto final o mais próximo da fonte. Sinceramente não gosto nada de CDs; acho que na situação actual, em que consegues ouvir tudo na Internet, é o formato físico que morreu mais. Se quero apoiar uma banda de que gosto prefiro pagar 5€ por uma cassete do que 10€ por um CD, que vai soar igual ao Spotify e que podia facilmente gravar em casa. Toda a gente pode sacar as nossas músicas legalmente na Internet, gratuitamente, e como formato físico acho que a cassete tem muito mais pinta.
 
Que importância teve, e tem, a Spring Toast Records: no teu percurso em específico, no meio musical português, e nos teus gostos pessoais enquanto melómano?
 
Conheci a Teresa Castro, uma das fundadoras da editora, quando ainda éramos muito novos. Eu estava a começar Sun Blossoms e ela estava a começar Mighty Sands. Acho que foi muito bom para os dois lados sentir que havia mais pessoal com ideias e influências semelhantes, numa altura em que não havia mais bandas do género a surgir por cá. Vi a editora nascer e sinto-me muito grato por ter um meio de gravar e lançar a minha música sem influências externas.
 


Apontas Fushitsusha e Mainliner como influências, e neste disco há uma faixa – a "Weeding Out" - que parece de facto enquadrar-se nesse universo mais incendiário do rock. Podes falar-me um pouco sobre ela? O próprio título parece dizer que o seu propósito é o de "afugentar" a plebe…
 
Há uns anos comecei a interessar-me muito por música experimental, e começámos naturalmente a ter mais momentos noise nos concertos. Senti que fazia sentido apresentar essa faceta no álbum, também. Durante as gravações do álbum acumulámos umas 3 horas de gravações de sessões de improviso, e usei alguns trechos entre as canções. No EP Cruising já o tinha feito, mas pus o noise no lado B e mais tarde senti que estava a dar uma hipótese às pessoas de passarem esse lado à frente, e não queria que isso acontecesse. 
 
O título "Weeding Out" tem a ver com essa ideia e também achei graça a uma frase do Greg Ginn, a falar sobre um EP dos Black Flag chamado The Process Of Weeding Out [1985]. Ele diz, «even though this record may communicate certain feelings, emotions, and ideas to some, I have faith that cop-types with their strictly linear minds and stick-to-the-rules mentality don't have the ability to decipher the intuitive contents of this record».
 
Que esteve na génese da capa, desenhada pela Teresa Castro?
 
A capa foi influenciada pelas capas dos álbuns de Fushitsusha da PSF Records, que eram todas pretas. Também sinto que estas músicas têm um tom mais dark do que os nossos lançamentos anteriores, e fez sentido ser a preto e branco. Dei liberdade à Teresa de fazer a cena dela dentro desta ideia, e foi assim que ficou. Gostei muito de como ficou a capa, faz-me lembrar uma explosão no espaço. 
 
Antes de o lançares, tocaste na Galeria Zé dos Bois com outra banda que ajudou a moldar os teus gostos, os No Age. Qual foi a sensação? Tens noção que vais ter de pagar finos à Vera Marmelo até ao fim dos teus dias depois do que lhe fizeste?
 
Foi chill. Tento não me entusiasmar demasiado com estas coisas, porque ser assim também me ajuda a não ficar tão chateado quando as coisas correm mal. Gostei do concerto deles, e é sempre uma lição para mim tocar com pessoal com tanta estrada, ver como é que isso funciona. 
 
Para quem não esteve lá, na última música do nosso concerto eu dei alto pontapé no tripé do meu microfone, em jeito de mic drop só que ele foi cair direitinho à cabeça da Vera, coitada... Ela foi falar comigo com um galo na testa e eu pedi-lhe mil desculpas e senti-me bué mal, já não tenho feito isso nos concertos. Não sei se a Vera bebe cerveja mas pago-lhe a bebida que ela quiser!
 
Este ano, tocaste no Festival Emergente com muitas outras bandas que estão ou a surgir ou a rebentar na cena portuguesa. Este tipo de festivais – em que a música feita em Portugal é a mais representada - pode ajudar os músicos menos conhecidos a divulgar o seu trabalho, não só cá como no estrangeiro?
 
Não vejo como os festivais de música portuguesa em Portugal possam ajudar a divulgar o nosso trabalho no estrangeiro, porque não me parece que haja pessoal a viajar para Portugal especialmente para vir a este tipo de festivais. Acho excelente que tenham aparecido cada vez mais festivais deste género nos últimos anos, mas o facto de haver essa separação de festivais de bandas portuguesas e de festivais no sentido geral, que apostam muito pouco nas bandas de cá e as metem sempre a abrir os palcos, mostra que ainda há um caminho longo a percorrer.
 
Editar o disco em pleno inverno foi uma forma de chamar o sol?
 
Por acaso, não sinto que estas músicas tenham uma vibe de verão tão carregada como os meus lançamentos anteriores, e acho que lançar o álbum no inverno foi uma forma de mostrar isso. O nosso último EP foi lançado no verão, e tinha a capa branca. Este álbum foi lançado no inverno e tem a capa preta. Já estava a pensar nesta dualidade quando lancei o EP.
 
Sobre Cruising, EP de 2016, dizias que era «um manifesto contra o tédio niilista dos nossos tempos, algo que é historicamente transversal ao psicodelismo, ao punk e ao grunge». Como descreverias Sun Blossoms?
 
Eu nunca disse isso; era uma frase que estava na press release do EP, e sinceramente não sei porque é que as pessoas decidiram dar tanta importância a essa frase em particular. Não sei como descrever o disco, nunca penso nisso. As minhas motivações e influências para fazer música continuam a ser as mesmas mas tento encontrar sempre alguma ferramenta nova, não me repetir. Gostava muito mais de saber como os ouvintes o descreveriam do que propriamente ter de o dissecar em frente a toda a gente. Este disco é basicamente sobre a minha experiência de crescimento, as dúvidas existenciais pelas quais muitos de nós passamos uma ou mais vezes na vida.

© Vera Marmelo

Em 2015, deste um concerto com o Churky, que no ano passado venceu o EDP Live Bands. Vês-te a participar neste género de concursos, ou preferes construir a tua carreira alheio a eles?
 
Acho que o conceito de concursos de bandas não faz sentido, e não vou dar o meu esforço e tempo a algo com o qual não concordo. Nada contra quem participa, às vezes os prémios são bons e o pessoal faz por si. Para mim só faz sentido tentar ordenar algo de forma qualitativa quando todos os concorrentes têm um objectivo delineado, que é igual para toda a gente, como nos desportos. Faz sentido dizer que o primeiro mano a chegar à meta numa maratona ganhou, porque o objectivo de todos os concorrentes era fazer o percurso o mais rapidamente possível; mas na música não é assim. 
 
Um concurso de bandas é como comparar um ovo a uma bigorna e tentar decidir qual é o "melhor". Já tive oportunidade de entrar num concurso de bandas, a convite dos organizadores, em que basicamente me era garantido que se participasse seria um dos vencedores - e não o fiz. Muitas vezes os organizadores desses concursos também usufruem do trabalho gratuito das inúmeras bandas que não ganharam para os seus interesses, criando a ilusão do "prémio". Não quero contribuir para isso.
 
Que raio aconteceu aos Blue Drones?
 
Haha, como é que te lembraste? Blue Drones foi a banda que formei com os meus amigos da escola, tinha eu 13 anos e eles eram 2 ou 3 anos mais velhos que eu. Foi a primeira experiência para todos nós de fazer música em banda e de dar concertos, e lembro esses anos com carinho. Eventualmente, senti-me a afastar gradualmente da música que fazíamos, e decidi dedicar-me a outros projectos. A banda continuou a existir durante algum tempo, mas entretanto acho que já todos se dedicaram a outros projectos musicais ou pessoais.
 
Dizias isto em 2010: «Os Mutantes são melhores que os Beatles, ponto». Queres elaborar?
 
Muito polémico! Isso foi há muito tempo e desde então tive uma ou duas fases em que encaixaram muito bem uns álbuns de Beatles. Principalmente o Revolver, e os dois últimos: acho que são os meus preferidos. De qualquer forma, na minha opinião o primeiro álbum dos Mutantes é facilmente melhor que mais de metade da discografia dos Beatles.
 
Este ano somos bicampeões ou nem por isso?
 
Depois de perder em casa contra o Benfica ficou difícil... Mas este ano é a Champions, haha. Confesso que não tenho andado nada atento nos últimos anos, o primeiro jogo que vi esta temporada foi o Porto-Roma. Até foi um bom jogo para começar!
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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