ENTREVISTAS
Soledad
Compositora, intérprete, militante
· 06 Set 2018 · 17:18 ·
Nasceu em Fortaleza mas vive agora em São Paulo. Soledad é compositora e intérprete, "dos palcos de teatro à militância feminista". a brasileira assume a sua liberdade na sua música, nas suas fotos, nas suas letras, na sua atitude. E a sua música parece partir daí. Soledad, um disco que contou com arranjos de Gui Amabis, Guilherme Mendonça, Bruno Rafael e Vitor Colares, chegou em 2017 e tratou de definitivamente colocar o seu nome no centro das atenções no que toca à nova música brasileira.

Num momento especialmente complexo e delicado para o Brasil, falamos com Soledad sobre autorias, feminismo e sobre mudanças do passado, do presente e do futuro. Sempre com a tónica da independência e da revolução nas suas palavras. Soledad não tem medo algum de o dizer: a música é naturalmente (também) uma forma de fazer politica.
O coração ainda está apertado por teres deixado Fortaleza para trás?

De vez em quando ainda aperta a saudade do mar e da minha mãe e irmãos, mas, depois de dois anos e meio, São Paulo já é um lar coração pra mim.

Numa entrevista disseste, e passo a citar, que “a coisa do nordestino em São Paulo é difícil. Você ser mulher e nordestina é difícil”. Explica-me o que quer isto dizer ao certo…

São Paulo é uma cidade que tem dificuldade em abraçar os nordestinos, geralmente nos tiram como gente inferior aos sudestinos/povo do sul e isso complica os nossos passos, temos que galgar bastante para conquistar um espaço, então junta essas dificuldades todas com o machismo que embala essa nossa sociedade: dá um leão morto por dia, no nosso caso, uma leoa.

No registo As nuvens serão um colar de margaridas, de 2013, fazias uma seleção de nove canções compostas por músicos cearenses. Essa opção foi de certa forma um statement?

Antão, As nuvens não foi meu primeiro o disco, na verdade ele foi o projeto que serviu de base e estudo para eu chegar no meu primeiro homônimo, Soledad. A escolha pelas canções foi algo que decidi afirmar naturalmente no decorrer do processo, por já simpatizar e me sentir seduzida por elas.



Li que o projecto o teu disco mais recente, o primeiro com canções inéditas, demorou quase quatro anos. Foi demasiado tempo, foi o tempo necessário para deixar maturar o teu trabalho?

Foi demais. desde o processo de arranjos, passando pela gravação e criação da arte, tudo feito na calma pra acontecer de forma astral, nunca apreço processos criativos.

Fala-me dos compositores deste disco e das colaborações. Desperta alguma ansiedade essa coisa de “encomendar” canções a outros autores?

Todas as canções que trabalhei nesse disco são composições de amigos muito, muito, muito próximos ou de amigos que eu flertei musicalmente em algum momento, especialmente o Vitor Colares, meu grande parceiro amigo irmão e, pra mim, um dos maiores poetas dessa geração. E sim, tenho muita vontade de trabalhar com outras pessoas, inclusive consegui realizar isso agora, vou lançar um single novo com composição de Juliano Gauche, um amigo querido que fiz em São Paulo.

Sentes por vezes algumas barreiras na altura de as interpretar? É-te difícil por vezes entrar na pele das canções?

Sinto dificuldades na escolha delas ou quando é uma música de projetos que sou convidada a participar e não pude escolhê-la… Quando escolho uma canção pra mim, geralmente, ela bate forte no coração e na carne.

Os teus concertos, pelo seu erotismo, têm provocado alguma polémica. Sentes que, por vezes, continuam a esperar que os músicos cheguem apenas a um palco para cantar, agradecer e sair? Leio demasiadas o público dizer que o artista X devia limitar-se a cantar e, por exemplo, não manifestar-se publicamente sobre questões políticas ou outros assuntos. Quão absurda é esta ideia?

É um pensamento muito pequeno esse de limitar x artista, a arte. nesse momento de golpe político, com um presidente que não foi eleito democraticamente, com as eleições correndo sérios riscos e com essa onda fascista que destrói tudo com preconceitos, violências e desrespeito aos direitos humanos. Não podemos / devemos nos calar. É emergencial que os artistas se posicionem, acredito muito no poder da comunicação, formação e transformação das pessoas através do que é dito em um palco, seja pela música, cinema ou teatro, por exemplo. A arte é política!



O feminismo é uma temática central deste disco. Nos tempos que correm, pelo estado das coisas, sentes que ter um motivo político é quase obrigatório para quem faz música ou arte no Brasil?

Não creio na obrigatoriedade de nada, acredito que esses temas devem surgir naturalmente na música, dentro da sinceridade de cada um, agora, como falei anteriormente, é vital que os artistas reflitam sobre o momento político em que vive e se posicione.

Sentes que há muita gente nesta viagem, nessa luta pela igualdade das mulheres? Quem sentes que te acompanha nessa missão?

Graças às deusas a luta feminista se fortalece a cada dia, temos conquistado espaços que outrora não existiam. as manifestações tem se reverberado no mundo e me sinto acompanhada por todas, não falamos ou agimos sozinhas.

Têm sido inúmeros os casos de “actores” da cena musical ou artística acusados de se aproveitarem do seu estatuto para assediarem sexualmente mulheres. Surpreende-te?

De jeito nenhum. isso acontece com frequência, todos os dias! Eu mesma passei por situações delicadas com músicos que me fizeram não querer existir, mas aí a gente levanta e vai pra cima, não aceito mais nenhum tipo de assédio.



O que será preciso para se perceber de uma vez por todas que o feminismo não é o contrário do machismo?

Olha, o raciocínio é muito simples: o machismo supõe que os homens são superiores a nós mulheres e que por isso devemos ser subordinadas, o feminismo não fala sobre hierarquia, mas sim sobre igualdade. Acredito que precisamos nos manter cada vez mais firmes na luta, levando nossas pautas para lugares mais distantes dessa consciência, uma política de formação fervorosa mesmo, sabe? Isso já está acontecendo, mas é muito difícil por existirmos numa sociedade com costumes completamente viciados e que ainda é profundamente influenciada por conceitos cristãos que interferem na existência das mulheres, como a pauta sobre o aborto, por exemplo, o estado deveria ser laico e os homens desse meu brasil deveriam se prestar a ouvir um pouquinho e pensar.

No país do Carnaval, fazer topless é crime. Achas que vais viver o suficiente para ver esta contradição resolvida?

Eu espero que sim. Esse ano o carnaval de rua foi bem lindo, mulheres com peitos livres, isso significa bastante coisa.

Pensas vir mostrar este disco a Portugal? Quais são as referências musicais que tens do país?

Poxa, gostaria muito, me leva? [risos] Curto muito o Zeca Afonso, num tempo desses ouvi a música “O que faz falta” no repeat 1000 vezes, e acho genial como ele trouxe o protesto para as suas canções. E claro, Amália Rodrigues é minha deus musa absoluta!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net
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