ENTREVISTAS
FARWARMTH
Drone, not drones
· 20 Fev 2018 · 16:29 ·
De Bragança a Lisboa são nove horas de distância, e sete anos de vivência em cada uma dessas cidades. Pelo menos no que diz respeito a Afonso Ferreira, vulgo FARWARMTH. O co-fundador da Alienação irá apresentar-se ao vivo na Culturgest, no próximo sábado, por ocasião de mais um Festival Rescaldo - oportunidade perfeita para sabermos mais sobre ele.

Do período metálico até à electrónica vai um pulinho; é só o tempo de descobrir este ou aquele software, de experimentar com este ou aquele sintetizador, de ouvir este ou aquele álbum que nos abre as portas da percepção para esse tipo de sonoridades. Foi assim com muitos e é assim com Afonso Ferreira, o homem que se despe em FARWARMTH e co-fundador da Alienação, uma editora e promotora que tem apostado, ao longo dos últimos dois anos, em divulgar este tipo de sonoridades. Na sua primeira entrevista ao Bodyspace, ficámos a saber mais sobre a sua pulsação.
© João Viegas
"Uma limpeza completa e violenta". Foi assim que Afonso Ferreira descreveu um dia a música que se escuta em Beneath The Pulse, o seu primeiro longa-duração enquanto FARWARMTH. Para entendermos por completo o que quis ele dizer, teríamos de nos colocar na sua pele, de o encarnar, ser ele durante alguns minutos; teríamos de ser a sua própria pulsação, bater consoante o seu respirar, arrepiar a alma ao som dos drones, dos sintetizadores, da maquinaria com que construiu algo incrivelmente humano - e assustador na sua nudez. Porque é ele, FARWARMTH, quem se despe. Quem escuta, mira-o sem saber, analisa-o sem imaginar que além daquela música está um homem.

"Uma limpeza e uma reciclagem de mim próprio, por causa da mudança entre Bragança e Lisboa". Foi assim que o mesmo Afonso nos descreveu esse mesmo álbum, durante uma longa conversa no Cais do Sodré, onde se encontrou connosco. Foi em Bragança que despertou para a música, ele que é oriundo do Grande Porto, de onde saiu aos cinco anos. O seu pai foi DJ durante mais de duas décadas, e o seu tio foi membro de um par de bandas com as quais andou em digressão por Portugal. Antes de descobrir sintetizadores e software diverso, estudou piano no Conservatório de Bragança - por iniciativa dos pais, naturalmente. Se dependesse de si, teria enveredado por uma carreira ao leme de uma guitarra eléctrica, similar à das "rockalhadas dos anos 70" que ouviu até aos 13 anos. "Uma vez fiz uma birra do caralho porque não queria [estudar] piano, queria guitarra. Ainda bem que não me deram ouvidos", conta.

Depois do Conservatório de Bragança, e já em Lisboa, Afonso entrou para uma academia em Oeiras, a Improviso, mas a sua aprendizagem foi feita sobretudo através da Internet e da sua própria curiosidade. "Lembro-me que havia um software que foi a primeira cena em que mexi, aí com 10 anos, quando ainda estava em Bragança. Acho que se chamava Encore; servia para escrever partituras. Uma vez estava no autocarro do Porto para Bragança - sempre continuei a visitar o Porto, e ainda o faço - e tinha um portátil, um calhamaço do programa e-escolas do José Sócrates, onde me lembro de transcrever partituras ao pontapé, de modo meio atabalhoado. Escrevias a partitura, metias play, e podias ouvir e escolher o instrumento", conta.

Foi através deste tipo de software que descobriu o "bichinho" da criação. Pequenos passos, ao início: "Houve uma altura em que tinha só [conta no] Bandcamp, meti lá dois ou três EPs, e depois meti um álbum. Acabei por apagar tudo porque já não me identificava com aquilo. Era uma onda muito banda-sonora, orquestral, muito básico. Acabei por me desfazer disso e, mais tarde, em finais de 2015 lancei o meu primeiro EP enquanto FARWARMTH. Às vezes apetece-me apagá-lo... Não é que já não me identifique com ele, mas em termos de produção deixa a desejar", explica.

Metal Postcard

A sua história enquanto melómano é mais comum do que aquilo que se julga. Sim, a música que faz é electrónica; mas, antes disso, havia deathcore e metalcore, e uma "pseudo-banda". E houve deathcore e metalcore até ao dia em que descobriu outras linguagens para além das canónicas: "Comecei a dar-me com pessoal que me levou à electrónica, ao witch house... E, depois, começou a aparecer aquela onda Yung Lean, aquele witch house meio trap, a Grimes. Foi isso que me levou a largar o metal", explica. Mas talvez não fosse necessário fazê-lo; não é difícil de imaginar, ao ouvir a sua música, que aquela pulsação existe porque é gerada por um coração metaleiro. A tensão e a agressão são palpáveis, como o são em qualquer álbum de artistas similares como Ben Frost ou Tim Hecker.

© Raquel Sousa

Afonso não esconde a influência deste último - que é, também, o nome em que mais se pensa quando se tenta descrever a música que faz. Mas preferia, como é lógico, que não o reduzíssemos a comparações. "Essa referência é um bocado óbvia, e tento fugir-lhe. Quando comecei, a única coisa que [a minha música] fazia lembrar era Tim Hecker... Não é que a esteja a produzir de modo a soar igual, que não acho que soe, muito menos agora com o novo álbum", explica, e cita um argumento fácil de forma irónica: "Tudo o que é drone parece Tim Hecker. Li um artigo qualquer em que alguém comparou Bleid a Tim Hecker!...". Ainda assim, e questionado sobre que álbum lhe terá provocado essa mesma sensação de limpeza que constitui Beneath The Pulse, Afonso remete para o canadiano: "Terá que ser o An Imaginary Country. As primeiras duas faixas são para mim das coisas mais poderosas que alguma vez ouvi".

Poderoso é também Beneath The Pulse, uma nudez contínua com pouco mais de 50 minutos. Sobre os temas ali presentes, disse anteriormente que procurava distanciar-se daqueles em que se expõe mais. A sua própria nudez assusta-o? "Não [me assusta] tanto o colocar-me na faixa, porque aí estou seguro, estou sozinho a produzi-la, a tocá-la. O que me assusta é apresentar isso ao vivo. Sinto um enorme nervosismo por estar ali em pé, no palco, onde for, a tocar essas faixas e a ouvir isso bem alto, a sentir as vibrações todas, a melodia, a harmonia, o ruído", revela, mas também não nega que "É isso que me atrai a tocar ao vivo". Há aqui, portanto, um estranho paradoxo; mas deixar de tocar ao vivo é algo que nunca esteve presente nesta equação. "Tocar ao vivo, em vez de estar só a produzir ou lançar, é o que mais quero fazer. Tenho amigos e conhecidos que não queriam tocar ao vivo, mas que acabaram por fazê-lo. É um bocado impossível não gostar de o fazer. É a tua peça, a tua música, algo que está vivo nas tuas mãos", esclarece.

Num país onde a grande maioria da população afecta à música ainda prefere os ritmos tradicionais do rock n' roll, tocar música electrónica, especialmente ao vivo, pode ser um grande desafio. A discriminação ainda existe, o velho cliché do é só um gajo com um computador também. Felizmente, esse paradigma parece estar a mudar; olhe-se para a nova geração de artistas de música electrónica em Portugal, ou para os muitos bons festivais - Semibreve, Out.Fest, Lisboa Electrónica - que vão surgindo. "Cada vez mais se torna difícil para mim começar a gostar de uma banda "tradicional", com vários elementos, guitarra, baixo, bateria, seja o que for. Não sei se lhe quero chamar "movimento", mas há toda uma cena de bandas indie, garage, rock, vários colectivos... Parece-me uma coisa tão gasta e em demasia, excessiva, sempre a mesma coisa", desabafa. "Espero que ninguém me crucifique depois de dizer isto, porque não retirando o seu mérito - que o têm, sem dúvida - acho que é mesmo muito importante, urgente e necessário que haja uma diversidade de oferta, que é uma coisa que tenho visto em falta".

© Filipe Baixinho

E, no entanto, ela move-se. Este mês assinalou-se uma efeméride importantíssima na história da música electrónica, e em especial no ambient: os 40 anos de Music For Airports, de Brian Eno. Foi com este álbum que o ambient nasceu enquanto género à parte, e foi a partir dele que foi evoluindo. "Mas custou", salienta Afonso. "Cada vez mais vejo certos nichos a aparecer nos sítios mais inesperados. Há uns tempos, encontrei um artigo sobre a cena electrónica experimental no Irão, que era incrível. O artigo tinha dezenas de links para o Bandcamp e o Soundcloud de música vinda de lá". Ambient é também uma tag que se poderia colar a FARWARMTH, mesmo que Afonso não queira definir a sua música da mesma forma que Brian Eno definiu toda essa sonoridade.

"Se não me engano, a frase dele é que o ambient tem tanto de interessante como de descartável. E eu acho que [ultimamente] tem assumido um papel por vezes político", afirma. "A música permite colocar dentro dela toda a espécie de emoções e isso é uma evolução - sendo que eu não lhe chamaria ambient, não lhe chamaria coisa nenhuma. Há tanta coisa que se lhe pode chamar que cansa. Longe de nomes, e de géneros, e de rótulos, acho que tudo deixou de ser "música de mobília" para algo que pode conter uma mensagem", esclarece. Um exemplo: "O último álbum do Ben Frost tem todo um lado, acho eu, político, tanto no seu título como nos títulos das faixas. E também devido ao percurso do Ben Frost antes do lançamento deste álbum - porque ele viajou até à Síria e à Grécia, durante a crise dos refugiados, para filmar com câmaras de temperatura e de cor para uma instalação do Richard Mosse chamada Incoming. Esse álbum é um exemplo de como a música electrónica/ambient passou de algo contemplativo ou descartável para algo que pode, não tomar lados, mas fazer afirmações", conclui.

Juventude Alienada

Afonso pertence a uma geração diferente, a uma geração que cresceu não apenas com o rock mas com inúmeras outras linguagens, cada vez mais fáceis de captar por obra e graça da Internet. É a geração sem subculturas ou tribos, a geração que bebe de todos os cantis sem menosprezar esta ou aquela água. A ideia é a de "não estar preso ao que se foi ouvindo durante anos". "Há certos grupos, falando só de Lisboa e do Porto, que lutam contra isso", diz. Mas ainda há quem torça o nariz ao ser confrontado com esta forma de se fazer música. "Enquanto programador na Alienação, e em comparação com Lisboa, no Porto tem sido muito mais difícil arranjar sítios que abram a porta a estas propostas [musicais]. Às vezes há um espaço que é incrível, e que apoia a coisa a 100%, mas há uma ou duas pessoas que trabalham nesse espaço - que não fazem parte da programação - e que durante o concerto se queixam, vão-se embora... Não vou estar a referir espaços senão nunca mais lá toco, mas já tive vários episódios que não percebo a razão de existirem", lamenta.

A Alienação é o seu "bebé", uma editora/promotora fundada em 2016, em parceria com João Melgueira. Esta nasceu a partir de um álbum de FARWARMTH, que acabou por se tornar no primeiro lançamento da label. "Mostrei-o a um grupo de amigos, incluindo ao João, e ele propôs-me a ideia de formar a Alienação, de fazer eventos, de lançar outros artistas. Pareceu-me perfeito, não só porque tornava mais fácil espalhar o meu trabalho, mas também porque me apelou bastante a ideia de ter [na Alienação] outros artistas, pessoal que também partilha cenas sozinho na Internet, para que tivessem a oportunidade de ir além disso e de actuar ao vivo", conta. "Despachei ali um design qualquer, com umas colagens manuais que fazia na altura, lançámos a página no Facebook, metemos o meu álbum no Bandcamp, e foi aí que começou". É mais fácil divulgar a sua música se esta tiver o rótulo de uma editora ali colado? "Não. Nem sempre é necessário, mas também depende dos tipos de contactos que tens. Eu ia lançar o álbum sozinho, no Bandcamp, de qualquer maneira".

"Nem sempre é necessário", mas ajuda. E muito. Por isso, o seu próximo álbum enquanto FARWARMTH - Immesurable Heaven - irá ser editado pela londrina ACR, que conheceu através de Rui Andrade. Já andava com a ideia de não o lançar pela Alienação, por ter como objectivo tocar lá fora", explica. "Falei com o Adam [Donoval], que é o rapaz que gere aquilo, e o processo foi simples: mandei-lhe um e-mail com o disco, ele ouviu e gostou. Quando lho mandei nem sequer estava pronto, e tinha faixas que acabaram por saltar fora. E, mesmo depois de estar confirmada [a edição pela ACR], continuei a mandar o disco para várias editoras, porque poderia surgir alguma que eu preferisse mais", revela. "Eu sabia que a ACR não me iria proporcionar concertos, que é o meu objectivo principal. Mas foi uma boa escolha, e continua a ser". O álbum irá conhecer uma edição física, em formato cassete, uma edição digital e "individualmente, vou fazer algumas edições em CD-R, para vender em concertos".

Immesurable Heaven será, necessariamente, um disco diferente. "Não é tão autobiográfico, é mais extrínseco. Não partiu de um contexto, não houve contextualização prévia; fui produzindo e fui compondo, com esta ou outra influência. A contextualização veio depois". Que contextualização é essa? "Diria que é uma analogia sobre aspectos da vida humana, sobre as relações entre seres humanos; uma comparação entre isso e eventos cósmicos e aleatoriedade". Por exemplo: "Forças gravitacionais que atraem ou afastam diferentes corpos no espaço, e como nós nos atraímos a certas coisas ou a certas pessoas, e tão fácil nos distanciamos das mesmas". Por exemplo, parte dois: "A morte de alguém que nos é próximo, e o que é que isso significa, e nos irá provocar nos próximos tempos; tal como quando uma estrela morre, e o que é que isso significa para o espaço que a rodeia, para todo o tipo de corpos que rodeiam essa estrela. A causa-efeito dessas coisas". Entendido? "Estou a comparar coisas que acho semelhantes a escalas completamente absurdas quanto à sua diferença, mas não dando mais importância a um ou a outro". Entendido.

Poderá ser este o álbum que levará FARWARMTH a tocar além de Portugal? Afonso sente estar "cada vez mais próximo" da internacionalização, apesar de não querer abrir o jogo. "Há uma possibilidade de vir a haver em breve um concerto lá fora, mas que ainda não está viabilizada. Com este álbum a sair pela ACR, e pelo progresso e evolução que a ACR tem tido, acho que [a internacionalização] é possível. Não é que a ACR me proporcione concertos, mas em termos de exposição fará muito mais [que a Alienação]. Quem gere a ACR escreve para vários sítios, como o Bandcamp, a FACT...", refere.

"Volta para o Sudoeste"? Credo

Caso a música dê para o torto, pode ser que Afonso siga uma carreira de modelo. Já tem experiência nesse campo, aliás, após a apresentação de All Lovers Go To Heaven, o novo álbum de Rui P. Andrade, no Damas. Durante esse concerto, vimo-lo parado em cima do palco, à medida que o noise ia tomando conta do espaço. "Fui um certo corpo frio, mas acho que não me limitei a estar ali de pé. Permiti-me ouvir e sentir, não fui só um modelo. A ideia do Rui era que fossem duas pessoas, mas o outro rapaz ficou doente à última da hora e acabei por ficar eu. O que foi ainda mais intimidante, até mesmo do que se estivesse eu a tocar... Porque aí posso estar atrás da mesa. Estava vestido, mas ainda mais despido do que quando toco", admite. "No fim do concerto, um gajo disse-me, e ao Rui, que a minha presença ali era como um espelho ou um tradutor daquilo que o Rui estava a fazer. Para quem não sentiu algo através da música do Rui, eu servi como espelho do público e como tradutor da música - no sentido em que obrigava as pessoas na plateia a sentir o que eu estava a sentir". Encarnou, portanto, todos os presentes: "Não sendo intencional, acabou por ser isso que aconteceu".

© Raquel Sousa

A pergunta pode ser sido feita no gozo, mas a verdade é que os mundos da moda e da electrónica sempre foram muito próximos. Não tanto quanto Afonso gostaria, talvez. "Não é que tenha muita moral ou conhecimento para poder falar, mas do que tenho visto a oferta é fraca em termos de colaborações, em Portugal. Vejo artistas que têm música original e vão [a eventos de moda] fazer DJ sets. É uma coisa que nunca percebi muito bem: pessoas que têm música original, que produzem, seja em formato clubbing ou experimental, quando são convidados para fazer a banda-sonora de desfiles de moda fazem DJ sets". Será por sua própria iniciativa, ou será pedido expresso de quem os convida? "Não sei se vem de um lado ou de outro, mas vejo que a oferta é fraca. Há pessoas como o Die Von Brau a fazer um DJ set durante um desfile da Sara Maia, a passar Arca, quando o trabalho original dele também resultava bem". Afonso lamenta a situação, e utiliza um outro exemplo: "Há uns anos, quando saiu o Virgins do Tim Hecker, ele pegou em alguns trechos do álbum para uma campanha da Adidas online. Eram vídeos interactivos, e aquilo funcionou bem - não era techno ou uma batida 4/4 para um desfile, eram drones e flautas, e funcionou perfeitamente. Isso era uma coisa que eu gostava de ver mais. Acabam sempre por ir para o industrial, para o techno... porque é que não há um desfile com outro tipo de música?", questiona. Por cá, as apresentações de FARWARMTH ao vivo não têm acontecido em desfiles, mas sim em espaços como o Damas, o EKA Palace ou o Desterro. No entanto, Afonso já marcou presença num grande festival: o MEO Sudoeste, enquanto parte de PURGA, projecto que detém com João Rochinha. Foi uma experiência que dava para um livro inteiro.

"Eu gostava tanto de dizer que correu bem". É certo que o Sudoeste não parece ser um festival convidativo a músicos de carácter mais experimental, e por arrasto a públicos cientes desse tipo de linguagens, mas Afonso esclarece que a culpa não foi dos presentes. E conta a história toda: "A parceria surgiu da escola Restart, com a Alienação. Eu comecei lá uma pequena residência de eventos, organizava entre dois a três lives, algumas instalações. O convite surgiu da parte deles; perguntaram-nos se não queríamos levar esses eventos ao Sudoeste", conta. "Em princípio iria ser uma cena improvisada, um set completamente improvisado e focado em debitar frequências nas pessoas, de modo a provocar este ou aquele efeito no corpo. Era mais uma performance sonora que um concerto", esclarece.

Infelizmente, a ideia inicial acabou por ser colocada de parte, devido "à pressa de arranjar conteúdo". "Foi tudo feito em cima da hora, e muito rápido. Eu não estava à espera que um festival tão grande pudesse ter uma organização tão precária e atabalhoada", diz. O que é que correu mal? "Não havia nenhum tipo de publicidade. PURGA, Restart e Alienação eram nomes que não estavam em lado nenhum, apesar de toda a programação daquele palco, da Santa Casa da Misericórdia, ser da Restart. Tudo por causa de uma disputa qualquer entre a World Academy, que creio que estava a tratar de filmar e fotografar o evento, e que também estava responsável pela comunicação daquele palco, e a Restart. Não sei se foi ideia do Sudoeste juntar a World Academy com a Restart mas foi a pior coisa que poderiam ter feito, porque eles se odeiam de morte...".

A confusão acabou por obscurecer a ocasião. "A única vez que [a presença de PURGA no Sudoeste] foi falada foi num website qualquer - que eu nunca tinha visto na minha vida e com um ar muito fake -, que dizia "Restart leva oficinas e workshops ao MEO Sudoeste". Portanto, PURGA era um workshop; nem referiram que era um concerto, nem sequer falaram em música". Afonso não esconde alguma tristeza: "Foi um bocado uma desilusão. Cheguei lá, toquei e fui-me embora, no mesmo dia. O João ficou para ver Lil Wayne, que tocava nessa noite. Aquele não era um sítio onde eu queria estar, nem que me pagassem - e não pagaram", remata.

Longe de festivais como o Sudoeste, é em determinadas salas da capital - e não só - que vai existindo espaço para a música mais experimental. Uma delas é o Teatro Maria Matos, que poderá em breve vir a ser gerido por privados - podendo privar, e desculpem o trocadilho, vários artistas de se apresentarem perante uma audiência maior, ou uma audiência sequer. Pelas redes sociais tem circulado uma petição a pedir a gestão pública do Teatro Maria Matos, que já conta com mais de 2800 assinaturas, uma das quais é a de Afonso Ferreira. "Não é que tenha grandes ideias para soluções. Partilhei a petição porque me preocupa que se possa perder todo este movimento mais pequeno, Alienação, Nariz Entupido, Shhpuma, A Besta, Rotten Fresh, ZigurArtists, Fungo, todos estes colectivos que têm os seus artistas e os seus concertos e que os apresentam em espaços como o Damas, Desterro, a Zé dos Bois", explica.

E continua: "Se o Maria Matos deixa de receber artistas como o Ben Frost, por exemplo, ou o Paul Jebanasam, ou o André Gonçalves, ou o Tim Hecker... Se esse espaço deixa de abrir portas a isso (e refiro-me só à música, porque é o meu meio, mas não é só a música que se perde caso isso vá para a frente), que espaços o farão? Não há muitos. E o Maria Matos é um dos poucos, se não o único, com as condições que tem e a qualidade que tem, e a sala que é em termos sonoros e acústicos, e de PA, e da parte técnica toda, que abre a porta e dá palco a este tipo de explorações sonoras", diz. O Teatro acaba por ser um espaço "fulcral" para o desenvolvimento destas músicas, e para a presença destes artistas em Lisboa. "Se vão a Braga vão ao gnration, se vão ao Porto vão ao Passos Manuel, se vêm a Lisboa vão ao Maria Matos", completa. "E não estou a dizer que o Ben Frost vai tocar ao Desterro, mas se esses nomes forem parar a esses espaços mais pequenos, onde é que nós - Alienação, etc. - nos vamos inserir? Não vai haver oportunidade para continuar a fazer estas residências de várias editoras", lamenta.

Para já, FARWARMTH irá apresentar-se não no Teatro Maria Matos mas na Culturgest, onde decorre, pela última vez, uma nova edição do Festival Rescaldo. Afonso irá subir a esse mesmo palco no último dia do evento, no próximo sábado. De fora ficarão os modelos. "Não vou ter ninguém em cima do palco, só eu", revela, entre risos. A música que se irá escutar provirá de Immesurable Heaven, o supracitado novo álbum, sendo que o concerto durará cerca de meia hora. E terá uma novidade: a utilização de um elemento visual que não apenas o vídeo. "Vou ter uma luz, uma barra LED, direccionada tanto para o público (e confesso que é um bocado influência do concerto do Jonathan Saldanha no Semibreve, em 2016) como para cima, e que irá funcionar em coordenação com o vídeo, numa espécie de coreografia", explica. O som será dinâmico, mas com "um clima constante e cortante. Não digo rápido, mas o efeito vai ser esse. Puxei o set para o mais pesado que consegui". A concorrência, a nível de peso, será forte; nessa mesma noite, os 10 000 Russos actuarão em conjunto com o mesmo Jonathan Saldanha. Um concerto que Afonso admite estar na sua lista de prioridades: "Vai ser das coisas mais improváveis que eu alguma vez vi. Estou curioso, e espero aquecer bem o palco para essa performance", remata. Veremos se o consegue.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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