ENTREVISTAS
Linda Martini
Na catedral do fato-de-treino
· 27 Jan 2006 · 08:00 ·
Algures durante a noite, no Centro Comercial Vasco da Gama, um puto senta-se à mesa redonda com os Linda Martini (Pedro Geraldes - guitarra -, André Henriques - guitarra e voz -, Sérgio Lemos - guitarra -, Hélio Morais - bateria - e Cláudia Guerreiro - baixo) e Luís, o responsável da Naked. Antes disso, nas mesas do Pans & Company, baguetes, batatas-fritas, conversas cruzadas sobre livros, a cena indie do Barreiro dos '90s, a Beekeeper, o Happiness de Todd Solondz e a tipa que corta o vizinho aos bocados e o guarda no congelador, o canibal alemão que encontrou um homem para comer (a sério) na internet e os Zao, tudo isto tendo dado origem à expressão "Canibalismo Cristão". Os Linda Martini deram recentemente concertos bem recebidos pelo público com os irlandeses God is an Astronaut, estão prestes a lançar um EP com os temas que lançaram na maqueta-promo que disponibilizaram gratuitamente no seu site e criaram um burburinho à sua volta. Desengane-se quem pense que estamos perante uns Arctic Monkeys ou os Clap Your Hands Say Yeah portugueses, os Linda Martini, para já, disponibilizaram os temas em .wma, não em .mp3, o que é uma diferença enorme, e aliam os instrumentais cheios de guitarras (têm três) e distorção, com crescendos e explosões pós-róquicas, à canção em português. Antes do Festival Um Dia A Caixa Vem Abaixo, e depois de terem estado a escolher canções para passar no programa de Gonçalo Castro da Antena 3, e no dia seguinte à grande desgraça nacional que foi a eleição de Cavaco Silva, os Linda Martini conversaram com o Bodyspace.

André: Boa noite, Vasco da Gama.

Quem é que são os Linda Martini agora, aqui, no Vasco da Gama, dia - que dia é hoje? 23? - 23 de Janeiro de 2006 nesta mesa?

André: Eu olho aqui para o pessoal que me rodeia, e lembro-me deles todos mais putos, mais imberbes, e eu também, com menos uns quilos.

Sérgio: Eu tinha mais, eu tinha mais, pá, eu parecia uma bola, pá.

Cláudia: Já somos dois...esta vida, pá, esta vida...

Hélio: 'tá mais magra agora...

Cláudia: Eh pá, a sério, eu mato-te, meu. Se tu me dizes isso outra vez eu mato-te...

Hélio: Não, somos os Linda Martini, estamos no Vasco da Gama, e acabámos de comer.

André: À pressa e mal.

Sérgio: E estamos prontos para as tuas perguntas...

Hélio: Estamos na fase do café. Somos uma banda de Queluz em Lisboa.

É uma grande viagem, de Queluz para Lisboa?

Hélio: Não, o comboio agora é directo, vai logo até ao Oriente...

Pedro: É directo para ti...

Hélio: Para mim, venho de Queluz directo para aqui para o Oriente, é bom.

Cláudia: Bom, o comboio era directo.

André: Isso também depende das horas...eu para Lisboa demoro uma hora com o trânsito na IC-19. Mas o longe é relativo.

Precisava era dos vossos nomes todos, para saber depois quando estiver a transcrever isto...

André: André.

Sérgio: Sérgio.

Hélio: Hélio.

Cláudia: Cláudia.

Pedro: Pedro.

E tu [viro-me para o Luís]?

Luís: Eu não falo.

Hélio: Ele é o manáger.

Sérgio: É o ménage.

André: É a acompanhante.

Cláudia: Nós é que somos o manáger dele.

Luís: Estou sempre a dizer mal deles.

Cláudia: 'tás? Ainda não te apanhei nessa...

Pedro: Eu gosto que digam mal de nós.

Cláudia: Eh, pá, eu tenho que admitir que não...sou uma pessoa susceptível.

André: Eu sou sempre da opinião de que não se deve ser consensual. É bom não agradar a todos.

Cláudia: Isso é bom, mas lidar com isso é pior. Eu tenho consciência disso, percebes? No entanto, não lido lá muito bem...

André: Com o tempo, isso...

Cláudia: Com o tempo isso não vai...passo por isso há muito tempo com toda a gente e acredita, não melhora.

Hélio: Vai lá com calma.

Sérgio: Isto está-me aparecer aquelas apresentações para aquelas peças de teatro, cada um 'tá a falar para seu lado...

André: Vá, mas podemos começar a sério.

Pedro: Acho que já começámos a sério... Também acho que sim...

Cláudia: Isto está mais a sério que em qualquer outro sítio, 'tás a falar abertamente sobre nós...

Hélio: Iá...

Sérgio: Não 'tás a falar para nenhuma direcção específica...

Cláudia: Noutro sítio…

Pedro: Temos de dar a direcção, é isso, 'tamos a falhar.

Podem dizer o que quiserem.


Hélio: Vais ter que editar de qualquer maneira...

Não, eu não edito.

Hélio: Não?

Não tenho limite de palavras, não tenho nada...

Cláudia: 'tamos lixados.

Vocês 'tão lixados.

Pedro: Mas esforça-te, pá.

André: Isso é a vantagem de escrever na 'net. Não te metem nenhuma restrição?

Nenhuma.

André: Isso é um espectáculo.

Se quiserem podem passar a entrevista toda a falar, sei lá, do Cavaco Silva ter ganho as eleições.

Cláudia: Não, pá, já chega ontem.

Hélio: Não, isso...

Cláudia: Eh pá, a sério, isso é triste...

André: Por acaso fiquei muito surpreso por o Alegre ter ficado em segundo...

Cláudia: Por acaso...

Hélio: Eu não fiquei surpreso…

Cláudia: Eu fiquei.

André: As últimas sondagens já falavam nisso, mas...

Cláudia: G'randa cacetada no Mário Soares...

André: Esperava que o Avô Cantigas chegasse mais perto...

Sérgio: [com falsete infantil]: 'tá velhinho.

Pedro: Só se fosse prá monarquia, mesmo, chavalo. O Rei Soares.

Cláudia: Mas devia, meu, por 0,6 dói.

Hélio: O Rei Soares era bom...

Pedro: Soares III.

André: Tu votaste, Luís?

Luís: Não, pela primeira vez.

André: Mas se votasses eu sei em quem é que irias votar. Pela primeira vez? Já não podes ser presidente...

Hélio: Eu votei mas não deu nada, por isso...

Cláudia: Eu votei e pronto, não tinha nada para dar...dobrei a minha folhinha em branco.

Pedro: Mas o Cavaco Silva é fixe a falar, hã? Curto ouvir o gajo falar.

Hélio: A não falar!

Cláudia: É o que se quer, eloquência.

André: Sabes que de CEO da Naked para Presidente da República é um passo, pá. Essa cena agora comprometeu-te ao máximo. 'tás bem fodido.

Luís: Completamente…

Hélio: É um salto.

Ele é o CEO da Naked [entrevistador ignorante]?

Hélio: Ele É a Naked...

Cláudia: E a Joana?

Hélio: E a Joana...

Então? Vocês querem dizer mal da vossa editora?

Cláudia: Eu por enquanto...por enquanto...

André: ...só temos a dizer bem. Da minha parte.

Tem-vos tratado bem?

Cláudia: Iá! Tirando a parte, pelos vistos, de ele dizer mal de nós nas nossas costas...

Hélio: E não é por ele 'tar aqui, mas tem tratado bem, sim senhor. E tem sido bem tratado...acho eu.

Cláudia: Não é por 'tar aqui, atenção!

Então foi ele que vos juntou aos God is An Astronaut?

Hélio: Sim, quer dizer, o Sérgio é que podia falar sobre isso...

Sérgio: Foi ele que nos juntou aos God is An Astronaut.

Hélio: O Sérgio é que acho que mostrou os GIAA ao Luís...

Luís: Sim, sim.

Hélio: O Luís depois acabou por distribuir os GIIA cá e acabou por surgir a hipótese de eles tocarem cá connosco e nós com eles…

Como é que correram os concertos cá?

Hélio: Correram bastante bem...houve muita gente nos dois concertos...

Cláudia: Lisboa não tanto, Famalicão acho que foi muito bom...

Hélio: Lisboa não tanto, se calhar num ou noutro pormenor técnico...

Cláudia: Para mim, para mim.

Hélio: Partimos uma corda, e mais umas coisinhas pequeninas...

André: Mas isso é punk, é bom.

Cláudia: Sim, é punk, mas pelo menos a mim não me deixa muito à vontade.

Sérgio: É punk mas pouco.

Pedro: Olha onde é que o Sérgio entra...só para dizer asneiras, caralho.

Olha que isso não vai ser editado...

Pedro: Acho bem.

Querem ser vistos como uma banda que diz palavrões?

Cláudia: E então?

Pedro: Não, por isso mesmo...por isso é que ele está aqui.

Depois não passa na MTV...

Pedro: E não queremos...não, não sei se não queremos...

Hélio: Não queremos? Isso é com ele, isso é com o Luís...se passarmos, passamos, se não passarmos, não passamos.

Luís: O videoclip [de "Amor Combate"] 'tá lá...

Hélio: 'tá lá, já? Bacano.

Pedro: A mim não me dói, é tempo de antena...

Hélio: Correram bem, acho que no geral correram bastante bem, os dois concertos, sinceramente. E não estava à espera de uma recepção tão boa como em Famalicão.

Pedro: Em Famalicão foi muito bom.

Hélio: Estava muito cheio, a sala era muito, muito bonita.

Cláudia: Mas é um tipo de público completamente diferente, o pessoal estava todo sentado no chão, muito estranho.

Pedro: Eu gosto mais do pessoal do Porto.

André: Eu gostei, eu gostei da cena do estarem sentados.

Cláudia: Mas aquilo foi muito esquisito...o pessoal estava a curtir, mas eu curto mais o pessoal em pé.

Hélio: As pessoas estavam no chão...

Pedro: Não estava a falar disso, mas gostei mais do pessoal do Maus Hábitos do que qualquer outro concerto aqui. Não sei.

Cláudia: O do Lounge foi muito bom, meu.

Pedro: No Lounge 'tava lá, tipo, o povo todo, mesmo.

Cláudia: Iá.

Hélio: Sim, mas o de Famalicão foi diferente, estava um ambiente especial, apesar de estar tudo sentado...

Cláudia: Uma luzinha diferente...

Hélio: Não sei. Estava muito familiar.

André: E o som estava bom, é meio caminho andado para te sentires bué bem.

Cláudia: Para mim é mais que meio caminho andado...

Hélio: E a nível técnico acho que esse foi para aí o concerto que nos correu melhor.

Pedro: Porque Linda Martini tem tudo isso, também, andar às voltinhas, a passear...

Cláudia: A ficar com carrinhas paradas no meio do nada.

Sérgio: A 150 km de Lisboa berrar uma carrinha...

Querem desenvolver essa da carrinha?

Luís: Basicamente, tivemos dois deslizes. Primeiro foi com a carrinha dos God is an Astronaut, em que chegámos à porta da Casa das Artes e berrou.

Sérgio: Morreu.

Cláudia: Vá lá que foi à porta, não foi mau...

Luís: E depois foi às 3 e 15 da manhã, estávamos nós a sair de Famalicão e vínhamos para baixo, parámos para dormir um bocado, retomámos a viagem às 6 da manhã e ficámos no Pombal. Saímos de Famalicão às 3 e 15 da manhã e chegámos a casa às 3 da tarde.

Hélio: Correcção, eu cheguei a casa às 10 da noite porque depois tive que ir a Pombal buscar o material.

Cláudia: Foi divertido.

Sérgio: Eu acordei às 9 da manhã e vi a Cláudia de colete.

Pedro: Este gajo foi sempre a dormir.

André: Pensámos: "O que é que se passa?" Foi lindo, meu. "Ah, isto avariou e o camandro."

Pedro: Foi logo, como é que era? A correia trapezoidal ou lá o que foi.

André: A correia trapezoidal, iá.

Pedro: "Mas o que é que é isso, vocês sabem o que é que é isso?"

Cláudia: Pá, eu sei que aquilo tinha uma correia e uma correia é importante no carro, agora se era trapezoidal ou não...

Hélio: E rebentou e ficámos na estrada.

Pedro: Mas lemos o manual de instruções, foi fixe...

Isso foi a coisa mais interessante ou estranha que vos aconteceu como banda?

Pedro: Sem dúvida.

Hélio: Foi a mais esquisita, pelo menos.

Cláudia: Foi a mais desagradável, eu acho.

Hélio: E ao mesmo tempo não...

Cláudia: "Ao mesmo tempo não"? Fala por ti, meu.

E em cima do palco?

Hélio: Em cima do palco?

Cláudia: O que é que nos aconteceu?

Hélio: Assim de muito esquisito acho que nada.

Luís: Pá, foi nos Maus Hábitos.

Hélio: Nos Maus Hábitos? O que é que aconteceu? Ah! Mas isso foi no soundcheck?

Cláudia: Qual quê? No soundcheck o quê?

André: Foi enganar-me a meio e recomeçar. Isso eu acho bem, pá, se for a meio, mesmo a meio, se calhar é um bocado chato voltar tudo atrás, mas como foi no início, tu começas a pensar: "Eh pá, não vou dar a música a estes gajos assim má, então vou recomeçar..." Acho que o pessoal percebeu.

Hélio: Iá iá iá.

Pedro: É a cena da confidencialidade, foda-se, "já que 'tou a dar dou bem".

André: É ser honesto. "Pá, olha, correu mal. Vá, siga." Eu acho isso perfeitamente confortável.

Cláudia: Desde que não se faça muitas vezes...

Hélio: Acho que ainda não houve assim nada...

Cláudia: Ainda não houve nenhum escândalo, mas havemos de ter um.

André: Isso é engraçado, uma banda pequena ou uma banda da nossa escala, uma banda com um bocadinho de exposição, se alguém for ver o concerto e acontecer uma cena dessas, podes ter vários comentários diferentes em relação a isso. Há pessoal que pode interpretar isso como inexperiência, ou pessoal que pode interpretar isso como qualquer outra coisa. Se forem, por exemplo, os Coldplay, não fui ao concerto, mas ouvi na crítica que o gajo se enganou lá no concerto e fartaram-se de rir e voltaram e tocaram a música de início. E o pessoal - eles são adorados - vai lá todo já babado com o dinheiro a apostar que vai ser um g'randa concerto mesmo que não seja. E o pessoal mija-se todo nem que o gajo mande tudo ao lado. Isso também depende um bocadinho da expectativa da pessoa e a forma como já acarinhou a banda. Se for uma banda mais pequena a fazer uma coisa dessas...é tida como inexperiente.

Pedro: Nós somos uma banda carinhosa.

André: Eu acho que sim. Considero-me afectuoso.

Pedro: Eu também, acho que todos somos.

Mas vocês têm sido bem recebidos sempre que vão a algum lado...

Cláudia: Por agora...

Hélio: Até agora, sim. Não temos razão de queixa.

Do que ouvi do concerto no Santiago Alquimista, muita gente diz que vocês abafaram completamente a segunda banda...

Pedro: Acho que isso tem a ver com o estilo de música e com o que cada banda dá ao vivo.

Hélio: Eram coisas diferentes, também. A cena passa mais pela cena ao vivo, não sei, eles têm o apoio dos vídeos, para já, que nós não temos, então acho que nós temos que dar mais de cada indivíduo do que eles, porque não temos o vídeo atrás para ajudar.

Sérgio: Mas há que ter uma coisa aqui em consideração, que é: não nós estamos nem estivemos a competir com eles. Nós tocámos o nosso set, eles tocaram o set deles. Agora se eles abafaram ou não...

Cláudia: Os gajos levam um nível de profissionalismo para os palcos que é uma cena.

Pedro: Eles são bué profissionais.

Cláudia: Só o tocarem com metrómeno...

André: Há outra cena que é um facto que é assim: se calhar a maior parte do pessoal que 'teve lá nesse concerto, em termos percentuais, eram mais as pessoas que nos conheciam a nós do que conheciam os gajos, temos essa percepção. Portanto, é normal que a opinião das pessoas também fosse para aí. E é diferente, eu acho que não são coisas comparáveis. Se fosse uma banda com um estilo similar ao nosso, então, pá, aí percebo que o pessoal pudesse chegar lá e dizer "Vocês 'tiveram melhor que eles em determinado aspecto", mas aquilo é radicalmente diferente, apesar de o pessoal aplicar aquelas semelhanças...

Pedro: Há sempre a comparação, num concerto, duas bandas tocam e as pessoas dizem "Estes estiveram melhor..."

André: ...de termos uma componente instrumental, eles também têm, e há comparação por causa disso. Até porque eles são muito mais metódicos, eles tocam com metrómeno, as coisas deles são muito mais certas. E nós ao vivo - tu se calhar não tiveste tanto essa sensação porque viste pouco do concerto, pelo que me disseste foi só aquele da FLUL [concerto na faculdade do escriba, no qual só se tocaram dois temas antes da luz ir abaixo, e que já foi narrado nesta webzine] -, mas quem ouve a maqueta e nos ouve ao vivo, a coisa que chama mais a atenção é isso. Pensam que de facto era mais calminho, em relação à maqueta é a ideia com que o pessoal fica. Por isso somos capazes de ter surpreendido algumas das pessoas que só conheciam a maqueta e não nos tinham visto ao vivo, daí falarem nisso...

Hélio: Ou que só conheciam o "Amor Combate". Eu acho que é mais isso. Há muita gente que só conhece o "Amor Combate" e se calhar não está à espera de levar com metade do set instrumental...

"Amor Combate" é o vosso single, passa na rádio, não passa?

Hélio: Sim.

É um bocado...tem um apelo radiofónico, mas não tem muito a ver com o que passa na rádio, é uma coisa esquisita...

Hélio: Ainda hoje estivemos a falar sobre isso, tem-nos surpreendido bastante por causa disso, quer a Antena 3, agora a Best Rock também tem estado a passar.

Resto da banda: A sério?

Cláudia: A Best Rock tem estado a passar mas bem...

André: Nós na altura até pensamos que se metiam aquelas questões, que se começamos na rádio as coisas têm que ser um bocado mais formatadas e, pá, se a música não tiver 3 minutos e pouco e não tiver um refrão e repetir, eles torcem um bocado o nariz. E, pá, por acaso não esperávamos essa aceitação da parte deles...pá, passar no Henrique Amaro é uma coisa, porque é o programa dele, o gajo passa aquilo que quer, é um programa de autor e passa à noite, agora, por exemplo, passar a meio da tarde e passar a seguir a Coldplay ou outra coisa qualquer mais mainstream...não encaixa nos moldes da rádio. Isso também nos dá algum tipo de contentamento, porque sabemos que fazemos o som que queremos e, não fazendo cedências, conseguimos chegar a esse canal que é mais aberto, em termos de exposição, e isso dá-nos algum gozo pessoal.

Hélio: Acho que isso talvez também aconteça por ser cantado em português, não sei. Se fosse cantado em inglês não acho que tivesse metade ou um quarto sequer da aceitação, nomeadamente dos meios radiofónicos, não sei.

Foi por causa disso que vocês começaram a cantar em português?

Hélio: Não...

Cláudia: Foi mesmo por coincidência.

Hélio: ...nós achámos, quando decidimos começar a cantar em português, até que ia ser mais difícil para as pessoas digerirem a coisa, mas entretanto aconteceu exactamente o contrário, ainda bem.

André: Aliás, nós próprios, e já falámos disto em várias entrevistas, é quase um lugar-comum, mas quando fazem essa pergunta temos de responder assim porque foi assim que se passou...na altura, quando nós formámos a banda, já tocávamos há uns tempos, o projecto sofreu várias mutações porque estávamos a tentar chegar ali a algum consenso em termos de som e no início era de facto tudo instrumental. Não havia voz. E depois começámos a falar entre nós, e de facto havia ali a necessidade - pelo menos a maior parte de nós sentia - de haver ali algum elemento distintivo, e na altura falou-se da possibilidade, ou de meter samples ou voz ou outros elementos que pudessem distinguir também um bocadinho. E, quando se começou a falar na voz, ou, neste caso, na língua, de ser em inglês ou em português, os outros projectos que tínhamos tido anteriormente, todos nós, eram em inglês. E, para nós, digo sinceramente que representava um desafio maior. Em que sentido? Isso é um facto, nós olhamos hoje em dia para as bandas portuguesas e a maior parte delas, em termos de rock mais moderno e assim, alternativo ou o que seja, é tudo em inglês, cá em Portugal. Então parece que é estranho, por exemplo, eu se disser a uma pessoa que eu conheço mas não sabe que eu tenho uma banda, às vezes pessoas em conversas dizem "Ah, tens uma banda? Então, e cantam em inglês ou em português?" E é engraçado porque quando eu digo que é em português, as pessoas perguntam: "É tudo em português?" Acham estranho o facto de ser em português. Pá, e nós não somos daquelas bandas panfletárias, nem erguemos nenhuma bandeira a dizer "Somos portugueses, temos que cantar em português", mas para nós, nós chegámos a uma altura em que achámos que fazia mais sentido, porque é aquela coisa, eu sou português, eu penso em português, se estiver a escrever uma letra em inglês - já o fiz, noutras bandas que tivemos -, vou estar a traduzir os meus pensamentos para inglês. Então nós saltamos esse passo intermédio e passamos para o papel aquilo que é a nossa língua. E esse desafio é maior porquê? Porque, tu se calhar também tens essa percepção, e as pessoas que ouvem projectos cantados em português têm, eu acho que nós somos muito mais críticos em relação ao que é português, porque é a tua língua, tu sentes aquilo como teu. E se o gajo manda ali uma palavra ao lado ou uma frase de que tu não gostas muito ou um excerto, um poema ou o que seja, tu se calhar achas que não encaixa bem, que não foi bem conseguido. Enquanto o inglês, mais ou vez, digo, não estou a defender que se deva cantar em português, mas eu acho que o inglês acaba por ser um bocadinho mais fácil de encaixar porque a língua é mais redonda, não é? Tu dizeres, sei lá, uma coisa como "eu amo-te" em português ou inglês tem impactos completamente diferentes. E é mais difícil, acho eu, e é engraçado, para os portugueses aceitar uma coisa como válida na língua deles, porque eles são mais críticos. É assim que eles falam. Pá, é a mesma coisa com os filmes. Tu vais ver um filme em inglês e os gajos até podem não representar muito bem, e os figurantes também, mas aquilo é inglês, então a realidade é sempre distante. Se vires um filme em português e aparecer lá um figurante que manda uma cena ao lado, "Ah, ele disse 'merda', se fosse na vida real ele dizia 'foda-se', ele não 'tá a ser verdadeiro". E acho que somos muito mais críticos em relação ao que é em português. Daí nós querermos de facto ter esse desafio. Não no sentido de acharmos que o português nos poderia abrir mais portas, como o Hélio disse, até achámos que podia ser um entrave, para as pessoas serem mais críticas, mas o facto é que aconteceu ao contrário, as pessoas gostaram, aceitaram bem a onda, e a forma como está encaixado.

Cláudia: Tem desvantagens, é que és constantemente comparado com...

Hélio: ...as poucas bandas que há em português.

Cláudia: ...as bandas apenas porque são cantadas em português, porque se pensares a sério nisso, e conscientemente, percebes que de facto é isso que acontece. Se aquilo não fosse cantado, se aquilo não fosse em português, não se comparava.

Pedro: Mas é que as referências são muito poucas...

Cláudia: Pois é, há muito pouco rock em Portugal, cantado em português...

Hélio: Rock assim mais alternativo...

Cláudia: Iá, sim, tens coisas, mas o que é que dessas coisas é cantado em português?

Pedro: Eu acho que pode ser, acho que Linda Martini pode ser comparado com Ornatos, até a Toranja, 'tás a ver. Porquê? São as referências, é aquilo que estás habituado a ouvir, e quando vais ouvir outra coisa comparas com aquilo, e sim, de certeza que tem influência, mas não é uma coisa...

Hélio: O instrumental acho que não tem nada a ver...

Cláudia: Mas sabes uma coisa engraçada? No outro dia 'tava a passar o "Amor Combate"...não, uma música de Ornatos bué conhecida, de que eu não sei o nome, aquela com o Victor Espadinha, 'tava a passar isso na Antena 3...

Pedro: "Ouvi dizer"...

Cláudia: Eu 'tava a ouvir isso e a minha mãe 'tava ao meu lado. E eu disse, "Olha, mãe, esta é uma daquelas bandas com quem dizem que nós somos parecidos." E a minha mãe 'tava a ouvir e disse, "Eh, pá, mas a voz não tem nada a ver", e eu, "Não tem nada a ver, de facto, e ele mete muitas palavras, não tem nada a ver com isto", chega a parte das guitarras e a minha mãe diz isto, "Ah, mas aqui já está parecido", e eu "Pá, são guitarras, é rock, podes meter tudo de alguma maneira no mesmo saco, mas dentro de todo o tipo de rock distingues muita coisa, não é?" Portanto não é porque tem uma guitarra eléctrica ou porque tem alguma coisa que consegues enfiar num saco.

Sérgio: E é porque, basicamente, qualquer banda que surja aí tem que ser comparada a algo. Ser logo comparada. Mas tem que ser.

André: Sim, por exemplo, eu telefono-te, e digo: "Já ouviste isto?"; "Iá, é tipo quê?"; "É na onda disto..:", e é normal, um gajo fala sempre nisso. E as referências são importantes para tu situares mais ou menos. Mas agora, eu concordo exactamente com aquilo que 'tavam a dizer, por exemplo, e quando falam em bandas com que nos querem comparar e relacionar, falam muito em Ornatos e Toranja. Se fores ver, as próprias bandas entre si...

Cláudia: ...têm nada a ver...

André: Ninguém se lembraria de comparar Ornatos nem Toranja.

Hélio: Tirando o primeiro single de Toranja...eu lembro-me de ouvir o primeiro single de Toranja e soava a Ornatos.

Pedro: Era bem mais rock...

Hélio: Hoje em dia acho que o som de uma não tem nada a ver com a outra.

André: Mas há aquela pergunta fatal, quando nos falam nisso, "Ah, Ornatos-Toranja", e nós a seguir dizemos, "Mas diz-nos outras bandas, portuguesas, que cantem em português rock actual, o que é tens? Ornatos, Toranja...tens Clã..."

Hélio: Tens Pluto.

André: ...mas são coisas que se calhar não são comparáveis.

Supernada...

Hélio: Mesa, pá.

André: Vem da mesma cabeça...já ouviste Supernada?

Ouvi uns mp3 de má qualidade...

André: Mas dizem que aquilo é mais punk, mas cru, tiveste essa sensação?

Luís: Dizem que tem mais canções, mais do que os Pluto.

Hélio: Sei que é com pessoal de Mesa, também, se não me engano, que era de Zen.

É com o baterista dos Pluto a tocar guitarra...

André: Iá, mas, por exemplo, Ornatos...se calhar nem todos nós gostamos...

Hélio: Acho que toda a gente gosta aqui...

Cláudia: Iá, toda a gente gosta. Mas não tenho nenhuma fixação especial por eles.

André: Pá, é uma banda que respeitamos, que tem um trabalho muito fixe, e gostamos de coisas deles...

Sérgio: Passam-me um bocadinho ao lado.

André: Agora, em termos sonoros, da nossa parte, não tem influência absolutamente nenhuma. Não há lá nada que seja puxado a Ornatos. Eu, por exemplo, no meu caso, se eu for eleger, se me pedissem para escolher uma banda portuguesa de referência, eu escolhia Mão Morta.

Hélio: Mão Morta, iá.

André: Acho que ninguém nos compara a Mão Morta...

Hélio: Acho que isso é consensual na banda, a banda portuguesa...

Bem, têm uma baixista feminina...

Cláudia: Eh, pá, isso...é daquelas coisas que se dizes outra vez eu aperto-te o pescoço.

Sérgio: Isso é cruel da tua parte. É cruel da tua parte.

Cláudia: Eu não tenho culpa de ter ido parar ao baixo.

Hélio: Ela já tocou guitarra noutra.

'tava a tentar arranjar pontos comuns...

André: Esse é, definitivamente.

Usam guitarras, usam bateria...

Sérgio: Somos de Braga...

Cláudia: Sabes que para mim é estranho conseguir imaginar uma banda sem guitarras e sem bateria. É uma coisa esquisita.

Hélio: Também já ouvi falar em relação a Sonic Youth, também...por causa de termos uma baixista. Mas ela tocava guitarra na outra banda que tínhamos, por isso também...aí já era diferente.

André: Mas mais de três [guitarras] já era demais aqui...três já é barulho suficiente.

Cláudia: Na altura só havia duas. Mas eu aqui não tocava guitarra...

André: Mas a ideia de tu tocares e de a gente trocar ainda está de pé, se quiseres...

Cláudia: Sim, só que isso faz sentido na altura em que eu aparecer com uma coisa de guitarra feita, apareci mas nunca se chegou a fazer nada disso...

André: Iá, somos muito calões, muito calões. A ideia de início era "Ah, não sei quê, vamos cantar." E então um gajo pensava "Quem é que vai cantar?" Ninguém queria. Então "Ah, vou eu, tenho aqui uma cena, eu canto, mas depois se tu fizeres uma cena cantas tu." Só que depois a coisa vai andando, vai andando, um gajo acaba por se habituar e fazes as coisas e metes.

Cláudia: Eu não faço nada porque não consigo. Tenho medo de me aproximar do microfone, custa-me muito.

André: A ideia era também, guitarra, tocar a Cláudia e depois eu baixo e trocar, mas somos muito calões, aquilo está ali e depois...enfim...

Hélio: Mas foi mesmo acidente, iá, na altura tínhamos já duas guitarras, o baixista da altura saiu, ele não tocava com os dedos, pá. Para o som que nós estávamos a querer fazer era um bocado...

Cláudia: É engraçado, porque era para ser uma cena muito mais experimental do que aquela em que se tornou. Só que fomo-nos acomodando um bocadinho...

Sérgio: Sim, mas isso faz parte...faz parte da construção musical de uma banda...começas com uma ideia, vais juntando as ideias e a partir daí...

André: Aquilo afunila, tu começas com o projecto, "vamos fazer isto, vamos fazer aquilo" e o caralho, mas depois toda a gente tem o seu grau de conformismo e segue, segue ali um bocado a ideia e depois às vezes as coisas acabam por afunilar. Se bem que a ideia inicial era fazermos isto, fazermos aquilo e depois trocar, necessariamente tu acabas por afunilar e chegar àquilo que...

Pedro: Mas também nunca fica...

André: Sim, não está fechado, a ideia está lá...isso é bom, isso é bom, não termos a cena formatada, não pensarmos nos papéis de cada um. Isso acho que é uma coisa que me faz sentir muito confortável, não termos esse limite ou essa barreira...

Hélio: Se calhar até foi bom tu ires para o baixo, senão não havia "A Severa", por exemplo...

O que é "A Severa"?

Hélio: É uma das músicas que nós temos...

Cláudia: Olha, foi aquela música que ficou a meio na Faculdade de Letras em que ficou só ele [Hélio] a tocar sozinho.

O "Eye of the Tiger"...

Cláudia: Iá, isso não faz parte da música, mas podíamos adaptar...

Hélio: Podíamos fazer um sample e pôr aí nessa parte.

André: Isso em termos de royalties 'tavas bem lixado...

Hélio: Mas depois os samples também iam soar muito às bandas que há no nosso espectro, então...acabámos por não pôr samples...temos uma música com samples, mas também é surpresa.

Quais são as bandas "do vosso espectro"?

Hélio: Do nosso espectro?

Cláudia: Ainda hoje estivemos a passar música na Antena 3.

André: Olha, podemos falar daquilo que passámos na Antena 3...

Reciclar ideias, 'tá bem, eu não me ofendo.

André: Na Antena 3 estivemos a passar, a ideia inicial era trazermos 5 CDs, e se houvesse tempo cada um de nós escolhia ali umas malhas...pá, só houve tempo para cada um de nós passar duas músicas, pá, e aí vê-se um bocadinho a heterogeneidade que há em termos de gostos. Posso ter passado coisas que vocês não conhecem tão bem ou não ouvem tanto em casa.

Cláudia: Iá, aquela coisa que tu passaste eu não conhecia, Papa M.

André: Eu passei Sannyasin, pá, porque é aquela raiz de tudo, do punk. 'Tava há bocado a falar com o Pedro, e deu-me muito gozo, pá, desde miúdo, desde os 15 anos que ia a concertos de X-Acto, e os gajos naquela altura, para mim, eram os reis. Qual pessoal lá fora, qual quê. Eu queria era ter uma banda punk e ir tocar ao Ritz no fim-de-semana a seguir.

Cláudia: E foram, iá.

André: Mas isso foi o princípio de tudo, deu-me um gozo do caraças, pá, nunca imaginei, passado uns tempos, ter esta banda e darem-nos a oportunidade de ir à rádio e passar o que quisesse. E eu passar uma cena que foi mesmo aquilo que me influenciou. Podia chegar ali e passar os Mogwai ou os Godspeed [You! Black Emperor] ou aquelas cenas cenas todas do pós-rock com as quais normalmente também nos identificam, pá, mas a influência que isso teve em mim e no meu processo de crescimento não só enquanto músico mas também enquanto puto, no que eu ouvia, é muito reduzido em relação à cena toda que nós apanhámos de trás. Deu-me um gozo também, eu passei Sannyasin e passei Papa M, um CD que comprei há pouco tempo, também muito bom.

Hélio: O Pedro passou Operation Ivy...

Pedro: Eu também passei na base de Sannyasin, de X-Acto, passei Operation Ivy, também são as raízes, foi aquilo que na altura realmente tocou e fez querer seguir em frente.

André: Querias ter uma banda ska, chavalo...

Pedro: Iá, eram os Skapatola...

André: Toda a banda de ska que se preze tem de ter um trocadilho com a palavra "ska"...Skamioneta do Lixo, Skapatola, Skapula...

Hélio: Skanevass ["Se cá Nevasse", dos Salada de Frutas]

Cláudia: Eh pá, Skanevass, isso é Lena D'Água, meu... Acho que a Lena D'Água já tinha saído nessa altura...

Cláudia: Hã? Acho que a Lena D'Água já tinha saído dos Salada de Frutas nessa altura...

Cláudia: Não sabia.

André: O homem conhece, o homem conhece...

Hélio: E tu, o que é que passaste, Sérgio? O Sérgio passou Zao e mais o quê?

Sérgio: E Pixies.

Então vocês são todos uns punks...

Hélio: Eh pá, é a base.

Cláudia: Eu passei Logh.

Hélio: Pá, a nossa escola é essa.

Cláudia: Mas queria ter passado Nirvana, só que depois havia bué cenas para passar...

André: Esse rótulo do punk...imagina, quem for ler o teu texto, e não tiver crescido com isso pensa em gajos com cristas e "no future" e bebedeiras de manhã à noite. Mas para nós o punk foi mesmo a coisa do espírito...

Hélio: Do-it-yourself.

André: O punk é das coisas mais fixes para se começar, é um pontapé de saída em grande, porque tu vês que aquilo são três ou quatro acordes, juntas um gajo que sabe tocar bateria, que manda lá umas pantufadas, e desde que faça aquele ritmo "tacutacuta" aquilo 'tá na boa e vamos tocar a seguir quando os amigos organizarem um concerto...por isso é que, pá, no outro dia estávamos a falar nisso já não sei a que propósito, por isso é que tu vês hoje em dia, se fores ver o histórico das bandas que agora são associadas ao pós-rock e aos estilos assim mais progressivos dentro do rock, muitas delas também têm aquele passado ligado ao punk e ao hardcore, acho que isso aconteceu connosco. Pá, tu entras naquela escola, pá, quando nós começámos com 15 anos, não é que hoje seja um grande virtuoso, aliás, não sou, nem de perto nem de longe, nenhum de nós tem escola de música, é mesmo chegar ali e descobrir as coisas por nós, mas isso ajudou-nos... pá, e ajudou-nos a começar e a partir daí, enfim, há pessoal que escolhe ficar ali no punk e fazer a cena porque é mesmo aquilo de que gosta e depois há pessoal que gosta de passar um bocadinho a fronteira e ir para outro tipo de coisas. Por isso é que se fala do pós-punk e do pós-rock e dos "pós" todos. É o pessoal que já está farto dos três acordes...em vez de teres refrão não fazes nada...

Pedro: Pá, mas a cena do punk em termos musicais é um bocado isso, mas depois também tens a ideologia...

Hélio: Essa manténs...

Pedro: ...não de andar todo fodido com crista, acho que isso também é aquele estereótipo que só mesmo aquele pessoal que não conhece é que associa a isso, há tudo o resto, que é um bocado a ideologia da coisa, de como fazes e o sentimento que tens na coisa.

Hélio: E a vontade que tens de fazer as coisas por ti mesmo, lá está...porque é tudo diferente.

Pedro: É um bocado isso, é a sinceridade.

Hélio: É a diferença do punk e do hardcore, é que as coisas acontecem. Cá, por exemplo, tinhas um circuito punk e hardcore, havia concertos, havia sempre gente, à volta de 100 pessoas em cada concerto, umas vezes menos, umas vezes mais, mas tinhas...

André: 200 e 300...

Hélio: Tinhas sempre aquele circuito em que podias tocar e sabias que ia lá sempre gente ver...agora não sei...o circuito indie, as cenas mais alternativas, se calhar agora já começa a haver mais, mas aqui há uns anos as bandas que tocassem rock se calhar não tinham um circuito tão constante.

As coisas de que o Luís estava a falar antes, da BeeKeeper e tal...

Hélio: Pronto, houve essa altura, lá no Barreiro, não sei como é que eram as coisas lá, mas eram pouco, e se calhar eram núcleos pequenos. Eu lembro-me de X-Acto ir tocar ao Algarve, isto em '97 e '98, ir tocar ao Porto... pronto, haviam pequenos núcleos em todo o lado e era possível haver concertos em cada sítio. Nós também com as outras bandas fomos tocar ao Algarve, tocar a uma série de sítios, com os meios, outros tipos de música, rock mais normal, mais FM, seja lá o que for, ou estás apoiado por uma grande editora ou então acabas por ter poucos concertos e ter poucos sítios onde tocar...pelo menos com condições de público aceitáveis.

André: E a cena das maquetas, pá, e das 'zines, há um circuito, pá, há pessoal que se mexe... pá, isso é um feeling do caraças, é incomparável a qualquer outra coisa... no fundo é um bocadinho contraditório, não é o prazer de ser diferente, mas acabas depois por tirar um certo gozo daquilo, por saberes que fazes as coisas por ti, que tu e os teus amigos organizam os concertos, que as bandas que vão tocar são dos amigos ou dos amigos dos amigos, e o feeling é totalmente diferente. É diferente ires para um cartaz e serem bandas a tocar que não conheces de lado nenhum, nesse sentido é muito mais, e nesse sentido é muito mais puro...

Mas tu, Hélio, continuas ligado ao hardcore, com os If Lucy Fell...

Hélio: Eh, pá, eu não chamaria àquilo hardcore...sinceramente...eu acho é que nós ultimamente temos tocado, agora não tanto, com bastante bandas ligadas ao hardcore, porque se eu ouvir aquele som não acho que aquilo seja hardcore. Acho que aquilo é rock, pronto, tem influências óbvias, tem um groove que se calhar fomos buscar ao hardcore, mas acho que aquilo não é hardcore, sinceramente. Mas, apesar de tudo, pronto, estamos ligados ao meio hardcore, bem como Linda Martini tem muita gente do hardcore que vai aos nosso concertos, continua ligado...os Vicious Five, também, que é uma banda que também tem raízes profundas no hardcore, tem o Sega, que era de X-Acto...

André: É muito bom tu referires isso, mas essa cena, também há aquela ideia, e é normal, em qualquer circuito que haja, seja no punk, seja no hip-hop, parece que as pessoas têm aquela tendência para serem fechadas e, eh pá, a tudo o que seja fora disso, torcem o nariz. "Não gosto. Não é hardcore, não é punk, não é cá da cena." Por acaso também foi uma cena porreira, porque nós não nos chateámos com o hardcore, não dissemos: "ponto final, agora vamos cantar em português e vamos aparecer na rádio". Deu-nos para aquilo e saiu aquilo. E é impossível tu formatares as coisas, quer dizer, é possível, mas no nosso caso não aconteceu. E deu-nos também um certo gozo perceber que muitas dessas pessoas que estavam no hardcore perceberam a cena e continuaram. E não é por nós agora estarmos a fazer um som não tão ligado a essa cena que vão deixar de ouvir...

Hélio: O público também mudou. De gostos e não sei, mas é isso...acho que estas bandas de que se falaram têm todas raízes profundas no hardcore, têm, porque foi lá que começámos a tocar...

Cláudia: Acho que o público do hardcore também está um bocado diferente, já não ouve só hardcore, e as pessoas agora ouvem muito mais coisas, ouvem tudo e mais alguma coisa...

Hélio: Por exemplo, a maior parte do pessoal do hardcore, aquele que ouve mesmo só hardcore, com umas palas mais prá frente, não gosta de If Lucy Fell...e nem tão pouco aceita que se fale de hardcore...

Cláudia: É música frique...

Hélio: Se tu fazes alguma coisa, sais do meio do hardcore, atinges outros meios, e não falas do hardcore, és sell-out, és vendido, o que seja, se falares...

André: Estás-te a aproveitar...

Hélio: Estás-te a aproveitar. "Isto é hardcore? Nunca na vida! Isto não é hardcore, não venhas falar de hardcore!" Por isso então é um bocado ambíguo, não sei, acho que mais vale dizer que temos raízes profundas, é um facto, mas o som já não tem a ver com o hardcore.

Cláudia: E quem é que tem? És tu e o Makoto, porque o Rui e o Gaza então...

Hélio: Sim, mas eu estava a generalizar a coisa, estava a falar de Linda Martini, também, e de Vicious Five, por exemplo, que acho que são as bandas que vieram do hardcore emergentes agora.

Voltando à questão da língua, estavam a falar de como achavam que a língua podia ser uma barreira...o vosso disco vai ser distribuído lá fora, não vai?

Hélio: Sim.

E vocês vão tocar agora com os GIIA lá fora, não vão? Como é que o cantar em português ajuda na internacionalização?

Hélio: Isso foi outra surpresa...

Cláudia: É que houve um irlandês que achou que nós estávamos a cantar em inglês...

Hélio: Mas os irlandeses gozam um bocado com a pronúncia dos ingleses...

Cláudia: Não, o gajo pensou mesmo..."Então, meu, acorda, é português!"

André: Iá, mas o gajo disse isso porque estava habituado a ver malta com pronúncia manhosa, ouviu lá assim uma vozinha ao fundo, e pensou que se calhar estaríamos a cantar em inglês...pá, eu tinha imensa curiosidade, quando o Torsten [dos GIIA] esteve cá, a pergunta que lhe fiz, estávamos a falar de Linda Martini, foi: "Como é que vocês ouvem a nossa língua?", que eu acho que aquilo deve soar a romeno ou assim...

Hélio: A russo, a russo, meu...

André: Iá, por causa dos "r" ou dos "s", meu, é completamente diferente...pá, e o gajo disse que era na boa, que parecia que era um bocado exótico e assim, pá, e eu dou sempre o exemplo: o "Cavalos de Corrida" dos UHF...chegou ao Top of The Pops, não foi?

Luís: Foi.

André: Chegou para aí ao top ten, que foi uma cena que...quando eu soube disso caiu tudo ao chão...como? Como é que UHF alguma vez na vida 'teve no top inglês? É engraçado...

Hélio: Eram outros tempos...

André: Mas eu acho que acaba por acontecer um bocado isso...se pensares nisso por outro lado, às vezes há muitas bandas portuguesas que acham que o inglês abre mais portas lá fora, o que é facto é que muitas bandas dizem isso e não abriram portas nenhumas lá fora por causa disso. Porquê? Porque já há muita coisa lá fora com um som semelhante a cantar em inglês, e as pessoas preferem ouvir e consumir aquilo que é na língua deles a estar a ouvir um estrangeiro a cantar outra coisa na língua deles. É como acontece com Madredeus e assim, aquilo para eles não lhes diz nada...

Cláudia: É como a Amália, pá...

André: ...mas lá encontram nada parecido. Tenho a certeza de que se um inglês ouvir a nossa cena pode ir buscar as referências todas de bandas estrangeiras em termos de som, mas em termos de língua não deve ter ouvido nada semelhantes, porque estão habituados a consumir música na língua deles. Portanto, isso, por outro prisma, até pode ser um factor distintivo lá fora...

Hélio: Um chamariz...

André: Estou muito curioso, quando a gente for lá para a Irlanda, não faço puto de ideia de como é que eles vão receber aquilo...estou mesmo...o que for, será.

Hélio: Se houver uma pessoa a cantar eu vou ficar bué contente...

Estávamos a falar das bandas que falam em inglês e tal, uma cena que se costuma perguntar, nesta coisa das entrevistas, é: como é que vocês vêm o panorama musical português, agora, hoje em dia, aquela coisa das quotas da rádio e tal? Falem um bocado disso, fica sempre bem...

Hélio: Pá, essa cena das quotas da rádio, acho que seria desejável que não fosse obrigatório, não é? Acabou por ter que ser assim porque se calhar não se chegou ao que seria desejável de outra maneira... por livre vontade. Se calhar vai ser positivo, se calhar não, se calhar vão aparecer muitas bandas más só para preencher quotas, não sei, sinceramente.

Cláudia: Pá, que apareçam, mas também as pessoas logo escolhem o que lhes agrada e o que é que não agrada...

Hélio: Acho que tem um lado positivo e um lado negativo...

André: Acho que o tempo acaba por filtrar as coisas.

Cláudia: Acho que no panorama português o que é mau é aquilo em que se pega e aquilo que se deixa para trás. Porque bandas... acho que sempre houve. Se calhar talvez se estejam a conseguir mexer melhor agora, talvez estejam a conseguir chegar a mais sítios agora, mas acho que bandas sempre houve, acho é que não há grande interesse ou coragem por parte das editoras.

André: Porque as pessoas estão pouco habituadas...por exemplo, houve um gajo que veio falar comigo em Famalicão e disse: "Eh pá, gostei muito do vosso som e não-sei-quê, pá, e digo-te uma coisa sinceramente, não gosto de música portuguesa." "Não gosto de música portuguesa." Em música portuguesa tens coisas para todo o gosto, tens desde a música de dança dos Santamaria até ao gajo mais alternativo e mais frique lá em Vila-Nova do Raio-que-o-parta...

Pedro: Viseu.

André: Em Viseu, pá, e um gajo dizer taxativamente "eu não gosto de música portuguesa" é, para mim...

Cláudia: ...estúpido.

André: Mas acho que há um bocadinho falta de...é aquela coisa, é um lugar-comum mas é verdade, há um bocadinho aquela coisa de aquilo que se faz cá dentro é porreirinho mas lá fora há mais coisas, a informação chega-nos mais depressa, hoje em dia com a internet e não-sei-quê é muito mais fácil consumir isto...por exemplo, uma banda como Mão Morta já nem se fala, é uma banda com 20 e tal anos de carreira, têm quase tantos anos como os Xutos, pá, se eles fossem uma banda estrangeira, pá, os gajos tinham um culto tipo Einstürzende Neubauten ou uma porcaria assim qualquer muito fora, com montes de seguidores. Como é uma cena cá dentro, acaba por ser ali um público muito restrito e não passa muito daquilo... pá, sei lá, tens tipo Quinteto Tati, que eu adoro, o disco saiu e ouvi aquilo montes de vezes. Pá, o disco é muito bom, acho que o JP Simões é um g'anda letrista, um g'anda músico, acho que o disco 'tá muito bem conseguido e aquilo até tem um som que tu podes considerar mais ou menos mainstream, é acessível, se nós passamos na rádio, então aquilo devia andar aí a rodar todos os dias. E tu falas com alguém que esteja habituado mais ou menos só a ouvir as coisas em termos mais comerciais e ninguém conhece. É uma coisa que se calhar noutro país poderia ter um impacto muito maior.

Pedro: Pá, mas é por estarmos em Portugal, também.

Hélio: Mas isso é um síndrome dos portugueses em geral com tu, não é só com a música.

Pedro: Eh, pá, mas o meio é que é pequeno, agora se a culpa é de não haver pessoas como o Luís ou haver poucas...é verdade, nesse aspecto é verdade, porque tens um exemplo de mudança, não se vêem assim muitas editoras a pegar numa banda da qual se ouve uma promo e a apostar nele. É isso que faz o meio português ser o que é.

Cláudia: O meio português investe naquilo que vende...

André: Basta veres pelo número de editoras independentes que há cá, que são pouquíssimas, comparado com Espanha que está ali ao lado...

Pedro: A cena é, se calhar se tu apostares também consegues fazer vender, o problema é aquele passo...

Cláudia: Claro, claro, para quê se podes ter uma coisa certa?

André: Agora fala o Sérgio.

Cláudia: Iá, agora não falamos. Sérgio, és tu que abres a boca ou então...

André: O Sérgio disse bué piadas, gastou o repertório todo na Antena 3. O gajo 'tava sempre pá-pá-pá-pá-pá...

Podes repetir, se quiseres...

Sérgio: Não, pá...

Cláudia: Podes dizer aquela tua palavra preferida...

Qual é a tua palavra preferida, Sérgio?

Sérgio: Eles gozam muito comigo porque eu 'tou sempre a dizer "basicamente".

Hélio: Não gozamos, achamos piada, que é diferente...não é pejorativo.

Sérgio: Basicamente, basicamente.

Vocês estavam a falar da cena musical...vão tocar agora - sexta ou sábado? Sábado? - com os CAVEIRA e os Loosers, no Festival Um dia a Caixa vem Abaixo, Caixa Económica Operária, que são bandas que não têm muito a ver convosco...

Hélio: Mas isso é bom e é desejável.

Sérgio: Eu acho que o dia mais indicado para nós seria o primeiro...porque a nível sonoro e a nível musical ficamos bem lá...mas fico muito contente por ficar ali enfiado entre CAVEIRA e Loosers, a chamada “música livre”...

Hélio: Eu prefiro, sinceramente...

Sérgio: Porque não tem nada a ver. CAVEIRA a traineira do noise que nós conhecemos, free-rock e tal. E depois temos algo mais dançável, Gang Gang Dance ali pelos Loosers, o que é óptimo, porque as pessoas que vão ver aquele concerto, no sábado, vão apanhar ali com três bandas que não têm nada a ver umas com as outras...

Hélio: Nós temos muitas partes do barulho, do noise, nas músicas que estamos a tocar. Tu ainda não apanhaste porque nunca viste um concerto inteiro, se calhar...

André: Se tu fores ver um concerto nosso, nós tocamos com três guitarras, todos nós, é engraçado, são três guitarras e temos estilos de tocar completamente diferentes, cada um de nós entra ali com algumas partes diferentes. Nós temos também muita componente de improvisação, tanto na maqueta como ao vivo, na maqueta se calhar nota-se menos, tens ali quatro músicas, o espaço é sempre restritivo, é óbvio que ao vivo fazes o cagaçal que quiseres, pá, eu por exemplo, no meu caso, desde a altura do punk, não concebo um concerto de rock, de rock mesmo energia, sem feedback, sem cagaçal, gosto que haja coisas que são incertas, gosto de chegar ali e dar a nota ao lado… eu gosto, deste gajo se virar para o amplificador e ficar ali a fazer ruído e a bater com a mão nas cordas. Gosto disso, gosto desse espírito livre. Se é nesse sentido, livre, consigo encontrar alguns pontos em comum connosco e essas bandas. Claro que o produto final, e isso é inteiramente discutível, é um bocadinho diferente.

Cláudia: E de facto as músicas não são livres do princípio ao fim.

Pedro: Eu acho que nem faz sentido haver essa diferença, de certa forma não é igual, acho que são bandas que se enquadram na perfeição, eu acho.

Hélio: Acho que há pontos em comum, mas são opções.

André: Um gajo vai por ali, outro gajo vai por ali. Se formos falar da pertinência de estarmos no cartaz nesse dia com eles, o Sérgio estava a dizer que se calhar em termos sonoros encaixávamos mais no primeiro dia, eu até sou capaz de discordar dele. Acho que fazemos sentido no primeiro, no segundo, com qualquer banda que apareça. Gosto muito de ir a um concerto e ver coisas diferentes. Por exemplo, estávamos a falar há pouco do OutFest [festival de música à margem realizado no Barreiro em Outubro e não um festival gay em São Francisco], gosto de ruído, gosto de noise, gosto de alguns desses projectos novos que têm aparecer, mas sinceramente, como espectador, quando fui ao OutFest, só fui um dia, ao dia de CAVEIRA, de Frango e de Lobster. Pá, e gostei, de uns mais do que de outros, enfim, também, isso são opções. Se falares com o Sérgio ou outra pessoa eles preferem uns ou outros… mas eu gosto de ver alguma heterogeneidade no cartaz. Por exemplo, se falares nisso, no OutFest, eu acho que é positivo ver uma cena assim mais alternativa, mostrar bandas desse tipo, mas eu gosto muito, e no hardcore eu sentia falta disso, que se misturem outro tipo de bandas. No hardcore chegas a um ponto em que as bandas punk que tocam, tocam sempre punk, é sempre punk, é sempre aquilo. É tudo igual. E tu vais ver um concerto, pagas 5 euros, pagas 8 euros, e às tantas aquilo já não te surpreende tanto porque os gajos que estiveram atrás fizeram exactamente o mesmo. Se eu estiver a ver um concerto dos gajos A, que fazem barulho do início ao fim, e for ver um concerto dos gajos B, que fazem barulho do início ao fim, o barulho que ele fez é diferente, o feedback que ele sacou é mais agudo, mas, para mim, e lá está, isto é uma questão pessoal, não estou a falar por eles, mas para mim é preferível ver um concerto com mais heterogeneidade. Dá-me gozo, sei lá, ir a um festival e ver bandas diferentes a tocar, mesmo que o som não tenha absolutamente coerência nenhuma.

Hélio: Eu também senti isso no festival. Eu fui ao outro dia, a que tu não foste, e também senti isso. Mas eu já vejo as coisas de outra maneira. Por exemplo, o Sérgio gosta mais desse tipo de coisas do que eu, eu gosto bué de noise, mas eu acho que há um limite. Também, às tantas, para mim, obviamente que é para mim, toda aquela massa acaba por perder sentido. Eu vejo a música com mais crescendos e decrescendos e acho que o barulho faz mais sentido se tiveres ali uma parte de barulho mesmo barulho e aquilo toca-te de outra maneira. Se tu estás a fazer barulho, barulho, barulho durante 10 minutos, às tantas não é barulho, é zumbido.

Uma banda paradigmática disso é Sonic Youth [mesmo que tenham muitos escapes para “barulho, barulho, barulho”].

André: Por exemplo, estava-me a lembrar disso. Um gajo ouve o disco, tu metes o Sonic Nurse a tocar, bué softzinho no início, Kim Gordon a cantar, muito fixe, chegas a meio da música e aquilo é um cagaçal do caralho, podia ser uma malha de CAVEIRA. ‘tás a ver? Eu curto muito mais isso, porque quando entra tem um impacto do caralho, porque um gajo vê aquilo…

Hélio: Mas isso são gostos pessoais, por exemplo, o Sérgio gosta mesmo de barulho, barulho, barulho. Eu gosto que haja mais variedade dentro de cada música.

André: Mas se calhar é por causa disso, já viste que nós temos opiniões diferentes em relação isso, se calhar é por isso que o nosso som final acaba por se calhar tocar nalguns desses elementos mas não ir tanto por aí, porque se calhar nós damos uma dinâmica diferente. Pá, se calhar metemos ali mais uns elementos de estrutura, porque nós ouvimos coisas de ruído, sim, tudo bem, mas há uma coisa que é preciso perceber, é que nós não começámos a ouvir música agora. E não somos só influenciados ou pelas bandas do noise ou pelas bandas do pós-rock, eh pá, eu quando era puto e tinha 14 ou 15 anos não ouvia coisas só, só noise, podia ouvir coisas mais barulhentas mas ouvia também coisas de canção. E obviamente que isso influencia.

Pedro: E ouvíamos Metallica.

André: Pá, e isso acaba também por definir um bocadinho a tua personalidade a tocar. É uma questão de direcção. Mas não me chocava nada, e até gostava de ter um projecto ou uma experiência qualquer que fosse mesmo noise puro e duro e experimentação ali, porque é um gozo do caraças. E quem toca sabe isso, tu ‘tás em frente a um amplificador e estás ali sacar malhas mesmo estares ali a tentar apanhar cenas ao acaso e ruídos…

Tens de estar de joelhos. É obrigatório.

André: De joelhos.

Cláudia: Convém, convém, porque os dedos dos pés…

Hélio: Ainda não desenvolvemos os dedos dos pés o suficiente para manipular os pedais, porque eu não estou a ver outra maneira de manipular os pedais sem estar de joelhos, só se estivermos de cócoras, que é uma posição não muito agradável.

Cláudia: Ficas de cu para o ar…

André: Eu, pessoalmente, nos concertos aproveito para conhecer um bocadinho melhor os pedais, pá, há pedais pelos quais dei dinheiro e um gajo ensaia tipo duas vezes por mês ou assim…

Cláudia: Eh, até parece…

André: Não, agora estamos a ensaiar mais...eh pá, e às vezes há coisas que me surpreendem, estou ali no concerto e mexo naquele botão e penso que aquilo é bué giro e fico ali meia hora. Pá, e isso é uma coisa que quem começa em bandas punk... há pouco estávamos a falar do punk, quem começa em bandas punk, nós quando tocávamos em bandas punk... eu não tinha um pedal, aliás, toda a gente tinha um pedal na altura que era a distorção, aquilo nem havia canal limpo, um gajo ia tocar ao Ritz e os técnicos de som eram sempre, “Som da distorção”, e um gajo fazia e depois era, “Som limpo”, e um gajo “Não temos.” Era só ligar e “dshhhh”, e depois era aquela distorção que era “zzzzzzzzzzzzz” do início ao fim, era mesmo…

Hélio: Era só zumbido.

André: E depois chega uma altura em que um gajo começa a ouvir outras merdas, novos barulhos, e eh pá, espera lá, como é que o gajo faz isto? Eh, pedais e o caralho, e começas a procurar e a descobrir pedais e a ver que cada um faz isto e aquilo… quando descobrimos os delays, então… “É giro, carregas aqui e o gajo faz isto”, pronto, foi um descalabro.

Hélio: Eu também tenho de ver se começo a tocar de pé, um dia destes, ‘tá muito na moda, também, um baterista a tocar sentado é um bocado demasiado na moda.

Cláudia: Olha que ainda te confundem com Bunnyranch…

André: Olha que se tu fores ver um ensaio nosso, nós temos muitos ensaios muito free mesmo, mas bota free naquilo, porque se a um lhe apetece entrar ali a mexer num pedal novo, ‘tá tudo fodido, ‘tá tudo lixado, mesmo.

Vocês vão lançar o disco agora em Fevereiro?

Hélio: O EP…

O EP em Fevereiro?

Cláudia: É.

E o disco é quando?

Sérgio: Em Abril, em princípio está programado para o final de Abril.

E como é que vai ser o disco?

Sérgio: O álbum dos Linda Martini vai ser uma continuação do som que nós temos feito até agora, claro que agora continuamos a seguir em frente e sempre a procurar novos tipos de som e de ruído e de músicas e de acordes, mas é o continuar da promo, da maqueta, do EP que vem aí.

Hélio: Continua meio instrumental, meio cantado.

Sérgio: Não há mudanças radicais no álbum. É simplesmente um continuar do nosso trabalho.

André: Aliás, das músicas que vamos ter no álbum, algumas delas surgiram até antes daquelas que foram gravadas na maqueta e depois é que pegámos na ideia delas mais tarde, outras são mais ou menos contemporâneas dessas músicas, mas na altura nem sabíamos se aquilo ia sair em álbum, se ia sair uma maqueta, seja o que fosse. Por isso não houve nenhuma restrição da nossa parte em dizer “isto vai para o álbum, isto vai para o álbum porque tem refrão”, ou “esta não vai para o álbum porque tem mais barulho” ou isto ou aquilo. Pá, foi no fundo… é quase um apurar do som.

Pedro: Estamos a materializar agora no álbum aquilo que fizemos na promo, no fundo é o seguimento positivo da coisa. Gravámos a promo, gostaram, o pessoal aceitou e apoiou, agora estamos a gravar um álbum, mas é a continuação.

André: Não sei se já assististe a alguma gravação…

Já.

André: Por exemplo, podes fazer várias coisas, podes gravar em take directo e toda a gente junta ou podes gravar em separado. Nós, por exemplo, as guitarras, estamos a gravar em separado. Já há gravada a base de bateria e baixo, e depois cada um entra com a nossa cena. Nas gravações, eu gravava uma guitarra e não estava a ouvir as cenas deles, por isso se me apetecesse fazer uma merda eu fazia, o Geraldes [Pedro] se lhe apetecesse fazer uma cena também fazia, também não estava a ouvir a minha, eu disse, pá, “fiz isto, fiz aquilo”, e depois ele foi lá pôr o elemento dele, o Sérgio a seguir foi pôr a guitarra dele e foi fazer outra merda diferente. Nós próprios estamos aqui a falar contigo, muitas coisas já estão gravadas, nós não sabemos como é que aquilo vai. Aquele bolo tem lá os ingredientes todos mas não sabemos como é que vai sair.

Pedro: Eu sinceramente acho que vai ficar menos limado do que a promo.

Cláudia: Até porque nós nos vamos esforçar para que isso aconteça, não é?

Pedro: Mas mesmo sem ser em termos de produção, mesmo em termos do que está tocado acho que vai estar muito menos limado…

Hélio: Sim, o baixo tem distorção…

Pedro: …na promo está tudo muito certinho, até era um bocado contraditório com o nosso estilo de música, porque nós somos, acho que somos, acho que sim, queremos ser uma banda experimental e ao vivo somos, e depois a promo estava um bocado certíssima, não sei, acho que as coisas vão estar certas à mesma mas de outra forma, acho que vai melhorar assim.

Hélio: Não ‘tá tão linear, acho eu.

André: Até porque quando gravas uma coisa, no final apontas sempre: “Fazia isto de maneira diferente”; “Se voltasse atrás não fazia isto assim”… uma das coisas que achámos todos quando a maqueta saiu, pá, gostámos do som, o som para maqueta está porreiro, fizemos a coisa caseira, quem nos gravou é um amigo nosso, gravámos no estúdio onde nós ensaiamos, isso também nos diz muito, porque não é o mesmo que querermos gravar um disco e chamarmos um produtor muito cromo, ou irmos para um estúdio pagar não-sei-quanto. Não, fizemos a cena onde nós ensaiamos, com pessoal amigo. Pá, e quando acabámos de gravar a maqueta, das coisas que ficaram que quereríamos mudar era de facto isso, era o som, o produto final, em termos de masterização e mistura não estar tão limado. Se calhar algumas coisas vamos tentar acertar, porque nos fugiu um bocadinho, é normal, depois as coisas seguem um rumo, e é uma das coisas que vamos tentar acertar e pôr mais como estamos ao vivo. É um bocadinho difícil porque são experiências diferentes, mas queremos ao máximo tentar exportar um bocadinho aquilo que fazemos ao vivo para o disco.

Pedro: Mas estamos a falar um bocado do nada, porque não sabemos ainda como a coisa vai ficar.

Hélio: Está quase tudo gravado, mas…

Pedro: Sim, ‘tá quase tudo gravado mas ainda não ouvimos tudo junto.

Hélio: Falta a mistura. Acho que o Fernando [produtor] estava a editar as pistas e a limpá-las.

André: Falei com o gajo a semana passada e ele ‘tava a editar, sim.

Hélio: É o Fernando Matias, é o vocalista de [F.E.V.E.R.].

André: E de Bloody Television, mete lá isso que ele vai gostar. É o novo projecto dele.

Hélio: Foi ele que gravou a promo, também.

[segue-se conversa sobre nomes, que descamba, de alguma forma, em Manuel João Vieira e em fatos-de-treino]

André: Essa é a diferença entre o pessoal de Lisboa e do Porto, meu, a cena do fato-de-treino.

Pá, tu estás aqui, isto é a catedral do fato-de-treino.


André: Vocês já reparam que se tu fores ao Porto, mesmo centro do Porto, o pessoal ao fim-de-semana, os cotas, o pessoal mais velho, veste-se de fato, não vão trabalhar, é mesmo assim, vestem-se com fato de fim-de-semana.

Pedro: É pessoal mais chique.

André: E em Lisboa, pá, o pessoal é todo do fato-de-treino. Eu acho que aquilo é uma coisa cultural.

Hélio: Eles também têm mais dinheiro, pá, no norte...não sei se passa por aí ou não…

Cláudia: Tirando aquele pessoal que vai meter prá veia nas portas de toda a gente…

Hélio: Sim, essa parte já…

Mas isso também acontece cá…

Cláudia: Sim, mas cá nunca vi, e lá já…

André: Vamos falar sobre o Porto, o Porto é muito fixe.

Se quiserem falar sobre o Porto…

Cláudia: Eu não conheço bem o Porto para falar sobre o Porto…

Hélio: Conheço o público do Porto e agrada-me bastante. Acho dos melhores concertos que dei com qualquer uma das bandas que tenho foi no Porto.

André: Pá, a minha mãe é do Porto e saiu de lá muito nova, portanto, a minha família toda veio para cá do Porto e eu nunca conheci aquilo como deve ser. E agora, por causa dos concertos e em trabalho também tive de ir lá umas vezes, adorei, adorei a cidade. É completamente diferente de Lisboa, é mais escura, mais cinzenta, mas eu, pá, adoro aquilo. Também pela cena banda, somos sempre muito bem recebidos quando vamos lá, e aquilo também tem um carinho especial porque o primeiro concerto que demos foi lá. Era para ter sido na tua faculdade [a FLUL], era um concerto também com Vicious Five, acho que era antes do Verão.

Hélio: Mas depois foi adiado.

André: Iá, foi adiado para a altura em que aconteceu esse.

Cláudia: Ou que não aconteceu…

André: E logo no dia a seguir, no fim-de-semana a seguir, íamos ao Porto tocar no Hard Club. Como esse não aconteceu, o nosso primeiro concerto acabou por ser no Hard Club. Eh pá, e foi do caraças. E um gajo tocar fora ser a primeira experiência…

Cláudia: E foi muito bom…

André: Com aqueles nervos iniciais, porque nunca sabes o que é que vai sair dali, a coisa pode não soar bem…

Hélio: No Hard Club fomos bem recebidos.

Pedro: Pelo pessoal do Hard Club não.

Cláudia: O pessoal do Hard Club… mesmo manhosos… sacanas, meu, nem um cêntimo.

André: Para o pessoal da banda nem sequer davam senhas para beber, vê lá. Nem sequer isso.

Cláudia: Nem sequer tivemos direito a convidados, pá, porque chegámos depois da hora. Nem sequer tiveram a decência de nos mandar um e-mail a perguntar o nome das pessoas que queríamos levar lá. Tivemos amigos que fizeram a viagem de cá para lá e tiveram de pagar a porcaria da entrada.

Hélio: Aquilo também foi um bocado falta de comunicação entre o promotor e a sala.

Cláudia: Falta de comunicação conveniente, diga-se de passagem…

Hélio: Mas a sala também não foi muito compreensiva…

André: Eles têm sítios do caraças, os gajos têm salas do caraças. Quem nos dera aqui ter salas dessas…

Hélio: Nós temos duas salas boas, para mim, cá. Temos o Santiago [Alquimista] e temos a ZDB, que eu gosto da ZDB também. Há quem não goste mas eu gosto.

Cláudia: Temos o Mercado, o Mercado é fixe, meu, eu acho o sítio muito fixe, o som é que não é grande coisa…

André: O Santiago… não podes fazer tudo lá. É uma cena grande, é também naquela perspectiva de bar… enquanto no Porto tens sítios mais pequenos, tens sítios maiores, para outro tipo de coisas… pá, e tens muito mais facilidade…

Hélio: Tens mais sítios mais acessíveis…

Sérgio: Pá, eu relativamente a esta conversa agora dos espaços… o Santiago é um óptimo espaço, o Mercado também é um bom espaço, a ZDB… não… é um buraco que está ali…

Cláudia: A ZDB é fixe porque tem vidros, é a cena que eu acho…

Sérgio: …e ganhou um g’randa nome em termos de bandas e agora tem um g’randa culto.

Hélio: Não concordo. Tens ido lá ultimamente?

Sérgio: É um sítio bom, é um sítio engraçado… mas eu não vejo aquilo como uma grande sala, é um buraco que está ali…

Hélio: Eu não disse uma “grande sala”… eu disse uma boa sala, para mim é uma boa sala de concertos…

Sérgio: Para mim uma boa sala é o Santiago Alquimista…

André: Se fores ao CBGB’s ficas desiludido, que aquilo também é um buraco…as cenas não são só o sítio físico, também são o que se faz à volta daquilo. Por exemplo, se a ZDB está a ter a exposição que tem é pela programação… pelas bandas que vão lá e pelo circuito que se cria.

Sérgio: Não, mas eu estou a comparar em termos de sala para tocar… se formos falar em termos míticos…

Pedro: Uma boa sala? A Kasa Okupada da Praça de Espanha era uma boa sala?

Cláudia: Eww… aquele colchão pulguento…

Pedro: Mas era um meio, ‘tás a ver? Pelo que acontecia lá…

André: Chegaste a ir à Kasa Okupada da Praça de Espanha?

Não, mas ouvi muitas histórias…


André: Aquilo era uma garagem, um gajo tocava numa garagem…aquilo cheirava a cagalhões de cão.

Cláudia: A electricidade sacada da rua…

André: Tinhas colchões atrás de ti…o palco era para aí do tamanho desta mesa…

Cláudia: E As Good As Dead ali em cima, meu?

André: Tu batias no tecto, pá, um gajo mais alto apanhava com cada carolada ali…

Cláudia: Eu não.

Hélio: O primeiro passo a tomar quando chegávamos lá era varrer os cagalhões dos cães.

Pedro: E as seringas…

Sérgio: É verdade, e tirar as seringas…

Hélio: E depois havia t-shirts straight edge penduradas ao lado de punks a chutarem prá veia. Também era lindo, meu. Era muito boa, a Kasa Okupada.

André: Kasa Okupada, electricidade roubada à Câmara.

Sérgio: E o colchão de pulgas atrás do baterista, a tapar uma entrada…

Cláudia: Iá, esse colchão era medonho.

Sérgio: Um gajo tocava e coçava, e não tinha espaço, mandavas um encontrão caía-te tudo em cima.

Cláudia: Geraldes [Pedro], pá, tu tocaste lá? Com quem?

Pedro: Shuffled, com Albert Fish.

André: E depois comias refeições vegetarianas com os talheres dos punks que não estavam desinfectados, que experiência alucinante. Arriscámos bué a vida ali.

Hélio: Foram bons tempos, mas eu curti à brava naquela sala… naquele quarto… naquela cena…

Cláudia: Naquela coisa, naquilo…

Hélio: Muito bom, muito bom. Ainda hoje vi uma foto de As Good as Dead que me mandaram lá na Kasa Okupada. Sala toda podre…

Cláudia: Quando? ‘tava eu a tocar?

Hélio: Era podre, mas era agradável.

Com que bandas é que vocês tocaram lá?


Hélio: As Good as Dead, minha e da Cláudia, o Geraldes foi lá com Shuffled, e eu, o Sérgio e o André fomos lá com Shoal, que foi a banda que deu origem a Linda Martini, fizemos o projecto paralelo ainda com o baixista de Shoal…

André: Que agora ‘tá em Day of the Dead…

Hélio: Depois ele saiu… em As Good as Dead ‘tava também o Edgar de Vicious Five e pronto.

André: Aliás, no último concerto de Shoal chegámos a tocar o “Efémera”.

Cláudia: Era o “Efémera”? Não era o “Este Mar”?

Sérgio: Era o “Efémera”.

André: Tocámos um excerto do “Efémera”.

Hélio: A ideia na altura era, onde uma banda acabasse a outra começava. Então era para irmos dando um cheirinho já do que vinha a seguir. Depois a coisa acabou por se arrastar e arrastar e demorámos muito tempo. Depois o Geraldes e a Cláudia fizeram Erasmus em Barcelona no mesmo ano em alturas diferentes, e isso atrasou bastante o primeiro concerto, e por isso as coisas acabaram por demorar uma série de tempo. As coisas agora parecem estar a acontecer muito rápido…

Pedro: As coisas parecem estar a acontecer bué rápido, mas nós já estivemos bué tempo antes… mesmo sem falar no resto das bandas, mesmo nós juntos já andávamos um bocado fartos de tocar sem dar concertos…

Cláudia: E depois também a cena de não termos o nome logo definido também atrasou um bocado a cena, não queríamos avançar com um nome do qual não tivéssemos bem a certeza para não queimar logo tudo…

Luís: E em 6 meses…

Hélio: E em 6 meses aconteceu isto que está a acontecer…

Chegaram a uma mesa no Vasco da Gama… Como é que vocês vêem a recepção…

Hélio: Do público?

Não, porque eu não liguei quase nada às perguntas que eu tinha aqui… para aí a primeira que eu tinha aqui era: como é que vocês reagem, sei lá, à aposta que muita gente fez em vocês como uma das grandes esperanças para 2006 do rock português?

Hélio: Para já com um obrigado e depois sabe bastante bem, como é óbvio, pronto, temos o Y, que achou que seríamos uma das bandas mais promissoras para este ano, ficámos muito contentes, como é óbvio…

Cláudia: Temos o Henrique Amaro…

Hélio: O Henrique Amaro também tem dado um apoio bastante grande e, claro, mais pessoas dentro da Antena 3, claro. O Luís da Naked, e a Joana têm dado bastante apoio, deram desde o início, aliás, isto tudo não estaria a acontecer – pelo menos desta forma – se não fossem eles os dois, o público tem-nos dado bastante apoio também, mas acho que temos recebido as coisas com o peito aberto, com bastante carinho e sabe bem, as pessoas estarem a dar algo delas para nos ajudar.

André: Pá, e a cena é boa – e eu não me canso de referir isso - é um gajo ver que aquelas pessoas que falam não estão a fazê-lo por favor, percebes? Nós não pagámos a ninguém nem temos connections ao mais alto nível…pá, as coisas chegaram-lhes e eles gostaram, e se apostaram é porque gostaram mesmo, e isso deixa-nos contentes.

Cláudia: E é fixe porque vão passando palavra uns aos outros…

André: Há bocado eu estava a dizer que éramos todos um bocado calões e preguiçosos, eh pá, e somos, às vezes isso até acaba por ser retroactivo e puxar-nos também para a frente. Às vezes estás a fazer as coisas porque gostas e te dá gozo. E o facto de saberes também que as pessoas estão ali com expectativas para ouvir a música que fazes também te motiva para investires naquilo e dares um bocado de ti, é muito bom. Eu falo por mim, mas em termos de banda as nossas aspirações são sempre um bocado relativas, no meu caso gosto mesmo de fazer música e do tipo de música que estamos a fazer e do caminho que estamos a seguir. E mais uma vez pegando no exemplo dos Mão Morta, se eu me quisesse identificar com alguma banda, eu gostava de chegar, sei lá, aos 30 ou aos 40 e ter uma banda assim do género. Eles sempre fizeram a cena deles, não fizeram cedências de nenhum tipo, sempre fizeram o som de que eles gostaram, e o resto veio por acréscimo. Pá os gajos fizeram o álbum Mutantes S:21, com o “Budapeste”, que teve um boom do caraças porque aquilo era mais catchy ou era mais acessível, o pessoal comprou por causa daquilo mas depois esquece. Aliás, já ouvi o Adolfo [Luxúria Canibal] que a ideia deles foi mesmo essa, “OK, tivemos estes gajos todos, agora vamos cortar isto e o próximo álbum vai ser mesmo duro, então as pessoas que têm o álbum em casa já não vão comprar o próximo, só mesmo aquelas que gostam mesmo de paixão”, e isso é uma coisa com que me identifico muito. Pá, o facto de não fazer música por necessidade ou por ter de viver da música, mas fazer a música porque dá gozo… é uma actividade paralela, é como chegares a casa e fazeres um desenho ou escreveres uma coisa qualquer, pá, é uma coisa que sai de ti, não tem nenhum objectivo social ou o que seja. Claro que se vender, eh pá, qualquer músico é hipócrita se disser que não gosta que as pessoas recebam bem a sua música, qualquer banda, por mais independente que seja, gosta de dar um concerto em que estejam lá pessoas que ouçam, não é? Senão ‘tava toda a gente fechada a tocar no quarto… pela música fechados em si. Claro que no processo de construção estás lá sozinho, não está lá ninguém, por muito que imagines a reacção das pessoas é muito relativa, porque ela está a sair naquele momento. Pá, mas depois é muito bom tu sentires o feedback das pessoas…

Hélio: Sim, mas tu estavas a dizer por exemplo que se calhar não gostavas de viver só da música. Eu, por exemplo, gostava, sinceramente. Gostava de poder fazer outras coisas…

Pedro: Utopicamente...

Hélio: Porque eu vejo as coisas de outra maneira. Se tu só viveres da música, por outro lado, tu tens muito mais tempo para criar. Porque tens, meu, e no final acabas por chegar…

André: E depois há as cedências que essas bandas depois têm de fazer…

Pedro: …depois já não fazes tanto pelo prazer, mas fazes porque tens de sustentar, e logo aí já estás a mudar mesmo só dentro ti. Uma coisa é tu chegares ali e foderes aquilo tudo mas estares-te a cagar…

André: “Eu não preciso disto para pagar a renda…”

Pedro: Outra coisa é sentires que vais ter de fazer alguma coisa…claro que se isso sair sempre naturalmente…

Hélio: Se tu não tiveres de fazer cedências e puderes viver disso, pá, é o ideal…

Cláudia: Mas isso parece-me um bocado difícil demais…

Hélio: Cá é difícil…

André: No nosso mercado, acho que é muito difícil teres uma carreira assim duradoura… sei lá, ‘tares sempre na boca das pessoas sem fazeres algumas cedências… eu acho, é a minha opinião pessoal. Chega a um determinado momento em que sabes que as pessoas estão à espera de algo de ti, se calhar se fizeres outras coisas vendes menos discos…

Hélio: Pode haver uma primeira vez, também…

André: Acho que quando um gajo começa a entrar aí, por mais independente que o gajo seja começa a reflectir que se calhar é melhor usar menos ruído ou não ligar o pedal em certas partes…

Hélio: Claro que quando eu falo em viver da música é sem fazer essas cedências…

André: Claro que eu também gostava, toda a gente gostava… se me disseram que estou à vontade, que estou desafogado e que vivo só daquilo que gosto de fazer… é a coisa que me dá mais prazer. Quando vou trabalhar não vou tão motivado como quando vou ter um ensaio convosco ou um concerto… dá-me aquela pica por dentro… quando acordo para o trabalho penso: “Foda-se, são 7 e meia, ou são 6, tenho que me levantar.” Pá, é completamente diferente… mas também acho que é importante teres esse escape, teres o teu trabalho, fazeres aquilo e teres o escape. Não centrares a tua vida toda, porque nós não somos só os Linda Martini, ‘tás a ver? Isto é aquilo que nos junta aqui nesta mesa, mas se não fosse isso podíamos estar noutro sítio qualquer…

Cláudia: Por acaso isso anda-me a chatear um bocado, porque a banda está a invadir aquilo que deveria ser a outra parte da minha vida.

André: A sério? Eu não sinto isso…

Cláudia: Eu às vezes estou a sentir um pouco, isso chateia-me. Eu gosto de ser uma pessoa independentemente disso.

Pedro: Não, mas tu tens a possibilidade de mudar.

André: Só não és uma pessoa independentemente disso para quem não te conhece… quem te conhece como membro dos Linda Martini, quem te vê numa revista ou noutro sítio qualquer…

Pedro: Na TV Guia

Na Caras

André: …vai pensar em ti como… perdes um bocadinho a individualidade, mas quem te conhece… eu estou com os meus amigos, eles sabem lá o que é Linda Martini, alguns deles nunca ouviram aquilo na vida deles nem tenho necessidade de lhes dizer, percebes? É uma coisa que eu faço à parte. Tenho amigos meus, pá, de longa data, que sabem que tenho uma banda, que ouviram uma malha ou outra, iá, é fixe, mas eu quando estou com eles quase nunca falo da minha banda. Ou quando falo é por eles perguntarem… por isso a nossa vida não gira à volta da banda. Se calhar agora estamos a perder um bocadinho mais tempo, por causa da exposição, mas a nossa vida não se esgota aí, nem de perto nem de longe.

Pedro: Felizmente, também…é bom ter outras cenas…

Cláudia: Então não é? Ter opções é o melhor…

Pedro: Por isso também essa conversa de um gajo viver só da música faz com que o teu pensamento tenha que estar muito mais aí…

Hélio: Mas não é isso… por exemplo, tu tens vontade de trabalhar no que estás a tirar? Eu estou a acabar Engenharia e não tenho vontade nenhuma, neste momento, de trabalhar em Engenharia, tenho muito mais vontade de fazer música.

Pedro: Mas eu não vejo a minha vida só como um profissional do curso que estou a tirar, e como um Linda Martini. Não, caralho, um gajo tem bué portas abertas, ou pelo menos tem muitas por abrir.

Hélio: O ideal é dares explicações e tocares nas horas vagas…

Cláudia: Eu é que não dava explicações de livre vontade…

Vá, acabo já com isto, só mais uma pergunta, que acho que fica bem, qual foi o último disco que cada um de vocês comprou?

Pedro: Comprou? E se sacou? Ou assim?

OK, roubaram ou espancaram uma velhinha para comprar…

Hélio: O disco que eu tenho estado a ouvir mais e que é recente é Minus The Bear, o Menos El Oso, que é uma banda americana com o guitarrista que tocava em Botch também, mas já não tem nada a ver… é uma cena completamente sem distorção, é a última cena que tenho estado a ouvir.

Cláudia: A última cena que eu arranjei foi mesmo These Arms are Snakes, entretanto parei um bocado, fiquei-me por aí.

Sérgio: A última coisa que estou a ouvir incessantemente são os Puppille, que são espanhóis e têm um álbum excelente chamado Himnos Olímpicos. Não sei porquê, há três dias atrás peguei num álbum que não ouvia há dois anos ou há ano e meio e estou a ouvir que é uma coisa… que é o White Pony dos Deftones… não sei porquê, estou a ouvir aquilo, continuo maravilhado.

André: Foi muito recente, fui ontem à FNAC e levei-me aqui pelo hype do Sérgio, o gajo ‘tava sempre a falar de The National, nós estivemos em Paredes de Coura e por estupidez perdemos o concerto, ‘távamos aí a comer farturas ou qualquer merda, pá, e na altura…

Luís: Estávamos a jazzar na relva…

André: ...não liguei muito, e depois ouvi o single deles, ontem ‘tava na FNAC, comprei aquilo, ‘távamos agora a ouvir no carro. Foi a última cena que comprei.

Pedro: O último CD de mp3 que eu gravei… tem Aretha Franklin, tem Beck, tem Beastie Boys, tem Calexico, tem Isis…

André: Pá, e ando a ouvir bué Cat Power, o You Are Free

Cláudia: Ena pá, o meu CD mais novo é o de If Lucy Fell, foi o último…

André: …muito bom, grande disco, grande disco mesmo, gostas de Cat Power?

Sim.

André: Já ouviste o novo?

O novo não é assim muito bom…

André: Mas tem tido boas reviews, ou não?

Eu gosto mais ou menos do novo mas não tanto quanto do You Are Free


André: Mas é na mesma onda… ou é mais acústico?

Aquilo é com os tipos que gravavam com o Al Green e o caraças… aquilo é mais country com um bocado de soul

André: E ando a ouvir M.I.A., mas isso foi sacado, arranjaram-me…

Rodrigo Nogueira
rodrigo.nogueira@bodyspace.net
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