ENTREVISTAS
Tim Bernardes
Recomeçar pelo princípio
· 20 Out 2017 · 10:36 ·
Apesar do seu título, Recomeçar é o primeiro disco a solo de Tim Bernardes, um dos três músicos que deram ao mundo a música dos Terno (que actuam em Lisboa em Novembro). Estas canções andavam na cabeça do músico brasileiro há algum tempo; na memória do dia-a-dia, na fantasia, no querer. E um dia destes saltaram da sua imaginação para o estúdio e daí para o mundo. E as reacções ao seu disco dificilmente poderiam ser mais apaixonadas e exaltadas.

No Brasil, fala-se de Tim Bernardes como um dos grandes compositores brasileiros da actualidade. E com razão para isso. Recomeçar é um disco que tem tanto de ambicioso como vencedor. E nem vai ser preciso tempo para que reconheça essa evidência. Está a acontecer tudo agora. Em entrevista ao Bodyspace, Tim Bernardes falou-nos de como foi chegar a este disco: as motivações, catalogações, ambições e alguns segredos. Se isto é recomeçar, recomecemos todos hoje mesmo.
© Marco Lafer
Há quanto tempo andavam estas canções no teu subconsciente?

Eu tinha composto a maioria dessas músicas há alguns anos – uma ou outra mais recente, uma ou outra ainda mais antiga. Mas eram todas de um mesmo tipo na minha cabeça, canções mais solitárias, que eu senti que, em algum momento, valeria fazê-las de maneira sozinha, sem a banda, experimentando... algo mais íntimo. Eu já tinha essa ideia e fui estruturando na minha cabeça aos poucos.

Como foi o processo de construção deste primeiro álbum a solo? Foste registando as canções com o passar do tempo ou foram sendo desenvolvidas na tua cabeças e depois criadas todas em estúdio ao mesmo tempo?

O processo foi o que disse na resposta anterior. Já tinha as músicas quando fui para o estúdio e, mais do que isso, na minha cabeça elas já estavam encadeadas; sabia qual gostaria que abrisse e fechasse o disco, por exemplo. No meu imaginário já sabia como queria que o disco fosse como um todo e como seriam seus arranjos, como as músicas se misturariam pra dar a sensação de um álbum coeso. No estúdio eu pus em prática o que eu tinha na cabeça e criei uma coisa ou outra de detalhe que ainda queria por como acabamento.

Tanto quanto percebi, gravaste o disco todo sozinho com excepção dos arranjos sinfónicos. Alguma vez pensaste que seria melhor ideia ter recrutado outros músicos para trazerem ideias ao projecto ou sabias assim tão bem o que querias fazer?

No caso desse disco, eu queria, justamente, poder fazer tudo sozinho. Porque é algo que eu tenho o costume de fazer para demos e de gravar em casa ou quando eu produzo algum disco – gravar todos os instrumentos e poder pensar nos mínimos detalhes como imaginei e executar assim também. Mas nos últimos discos que eu fiz, com O Terno, foi sempre algo coletivo e eu contei com outros músicos. Pra variar, quis entender como seria poder fazer tudo sozinho e ter totalmente o controle para deixar, de alguma forma, com a minha cara.

© Fabio Politi

Qual foi a primeira coisa em que pensaste quando acabaste de colocar a última pedra neste disco?

A última pedra do disco eu senti colocada quando ele chegou da fábrica na minha mão e eu o ouvi olhando a capa, a arte... porque eu me envolvi em todos os processos – da composição à masterização, passando pelo projeto gráfico. Também quis fazer tudo de maneira artesanal. Então ver que a impressão da fábrica ficou do jeito que eu gostaria e ele estava pronto, foi a última pedra. Foi uma sensação de finalmente descansar; uma espécie de alívio, encerramento. Mas tudo com a satisfação de ter me proposto a fazer uma coisa segurando mais do que nunca o volante e de ver o resultado pronto num momento em que não dá mais pra modificar. No qual eu puder ouvi-lo relaxado, sem pensar o que mudaria.

Se tivesses que resumir as letras das canções deste disco em meia dúzia de ideias, como o farias?

É uma exposição sincera de pensamentos, ideias e sentimentos de um sujeito que está tentando descobrir a si próprio depois do término de uma estrutura anterior e antes da construção de uma nova estrutura.

Falando de influências, achas que existe muito Brasil neste disco?

É bem misturado, quando se refere a influências. O que eu enxergo de brasileiro nesse disco não é, exatamente, uma grande marca registrada do Brasil em outros países, como ritmos folclóricos, samba. Mas tem uma orquestração que tem a ver com Clube da Esquina e o jeito da canção pop dos anos 60 para 70 por aqui. Existe um “sotaque de samba” mesmo quando isso não está sendo feito e acredito que “Tanto Faz” é um samba que é quase como se juntasse folk com samba, no sentido de ser a mesma coisa. É uma música cancioneira e simples, de violão e voz na mão. Vejo muito de fora mas de dentro do Brasil também, misturado de um jeito meio sem território. As letras em Língua Portuguesa trazem muito da música brasileira que eu gosto de ouvir. Não tive vontade alguma de fazer canções que não fossem em Português e que não comunicassem como outras canções brasileiras que eu gosto comunicam.



Assumes um certo regresso ao passado, uma certa saudade, até olhando para a capa do disco?

No jeito de construir minhas canções ou qualquer tipo de produto artístico que eu faça existe uma base no passado, mas que eu uso como matéria-prima para expressar sensações vigentes. A foto foi tirada com câmera analógica, mas, ao mesmo tempo, a fonte e a diagramação têm mais a ver com o indie ou com a capa do último disco da Beyoncé. Gostaria que fosse algo que você não sabe se é vintage ou totalmente indie – que são os dois pontos pelos quais eu gosto de transitar.

Como vai ser levar este disco para a estrada? Será algo igualmente solitário ou pensas construir uma banda para trazer estas canções para palco?

Para esse disco eu fiquei com vontade de fazer sozinho. Minha agenda é primordialmente pautada e focada n’O Terno – que é um trio e que, ultimamente, tem tido um trio de sopros; uma experiência de tocar coletivamente que eu gosto muito. Mas justamente pra contrastar com o que eu já faço e com o disco que, em muitos momentos, parece ter muitos músicos de orquestra tocando juntos, gostaria de fazer esse show só com piano e guitarra para as minhas composições serem apresentadas de maneira crua e como eu as fiz, na solidão. Mais um show do compositor que para mostrar um álbum.

Este é o teu Clube de Esquina?

Não sei... hahaha. Gosto muito do Clube da Esquina. Acho que tem semelhanças de textura musical e esse é um disco que me influenciou muito. Mas em matéria de composição e letra, é mais simples e direto nos sentimentos, menos metafórico. Quis fazer algo com que me identificasse e acho que esse disco tem a cara dele, então ele é o meu Recomeçar.

Qual a melhor coisa que possivelmente poderiam dizer acerca do teu disco?

Gosto de ouvir alguém falar que sentiu como se o disco tivesse sido feito para si. Gosto muito de sentir isso ao ouvir músicas dos outros, sentir que faz muito sentido pra mim e me toca diretamente, sem intermediários. E conseguir comunicar isso, intensificado por arranjos e sonoridades; fazer alguém se sentir tocado a ponto de chorar, é tipo um elogio.

© Fabio Politi

Como é a tua relação com Portugal, com a sua música. Presumo que tenhas vontade de mostrar este novo trabalho por cá…

Fui a Portugal pela primeira vez ano passado para tocar com O Terno e gostei muito! Existe uma semelhança diferente com o Brasil que eu não imaginava ver em outro país. O fato de falar a mesma língua, ainda que com outro sotaque, é muito legal. E as pessoas já conheciam a banda de maneira orgânica – não tivemos a oportunidade de começar a trabalhar de maneira ativa O Terno ou meu disco-solo em Portugal. Mas, definitivamente, é um plano; gostaria de lançar meu disco aí ano que vem. Sinto que há uma cena interessante, que tem público pra isso. Na minha última vez em Portugal conhecemos os meninos do Capitão Fausto, uma banda ótima, com letras ótimas e que me lembra O Terno de alguma forma – e é só uma de muitas.

No meio disto tudo, como ficam os Terno?

O Terno segue a todo vapor no meio disso tudo! Estamos em turnê, seguindo pelas capitais do Brasil com o show com metais, lançando o Melhor do Que Parece em LP. Vamos tocar em Lisboa e em Colonia, na Alemanha, na próxima semana. Lancei meu disco em um primeiro show em São Paulo, que é minha cidade, e a turnê dele começa em 2018 – tanto dentro quanto fora do Brasil, se rolarem oportunidades. Minha intenção é seguir com as duas coisas paralelamente e me dividir entre esses dois focos.

“Vai ter copa, vai ter Carnaval, mas continua errado”. Qual o futuro do Brasil?

Difícil essa pergunta... o Brasil vive um momento de muito desamparo depois do golpe por não ver melhoria a frente. O governo que assume vai andar pra trás com as conquistas de um governo que, em si, já não estava bom. A sensação é muito de impotência, de não saber como seguir, como mudar as coisas, de frustração de ver que a desigualdade no país existe desde 1500 e que continua acontecendo. Muda o tipo de governo – monarquia, ditadura, democracia (mesmo que falsa, no caso) – mas a desigualdade social continua. Pouquíssimas pessoas concentrando renda e muita gente sem dinheiro. Então não sei muito como prever... vamos ter de ir conquistando coisa por coisa, mas também não sei o que será o turning point. Tenho a sensação de paralização por uma desesperança, mas com muito desejo por melhora e de pensar novas ideias.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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