ENTREVISTAS
ZA!
Zás, pás, catrapás
· 18 Out 2017 · 15:44 ·
Ainda está bem presente na memória aquele concerto frenético dos ZA! no Milhões de Festa 2013, com a dupla a gritar, a deambular pelo recinto, a fazer um porradão da barulho e a fazer-nos acreditar no poder mágico da diferença. Porque é disso que se trata: os ZA! têm uma linguagem diferente, idiossincrática, que têm vindo a espelhar em discos como Megaflow e Loloismo, para o qual já há sucessor anunciado - aponte-se os primeiros meses de 2018 na agenda.

Antes disso, os catalães passarão por Lagos, para a oitava edição do festival Verão Azul, onde também darão um workshop com músicos locais, com idades a partir dos 13 anos. E, antes disso, Eduard Pou respondeu-nos a algumas perguntas. Sobre improvisação, sobre fronteiras, e sobre a Catalunha. Como não podia deixar de ser.
Como se ensina um músico a improvisar?

A improvisação aprende-a cada um à sua maneira, porque pode ser interpretada de muitas formas, felizmente! O que nós partilhamos no workshop são ferramentas de interplay: técnicas de interacção entre músicos, seja através de exercícios concretos, de jogos ou de um código de sinais para "guiar" uma música em directo. Mas, para além da técnica, o mais importante, para nós, na improvisação é escutar o outro.

Numa altura em que o mundo ergue progressivamente mais fronteiras, fazer música que não as tenha é cada vez mais essencial?

Sem dúvida. Uma das coisas de que mais gostamos nos workshops que fazemos é quando se junta gente de campos e backgrounds muito distintos: um académico do conservatório com um punk autodidacta, por exemplo. Ver como se relacionam, como comunicam improvisando e como aprendem um com o outro é fascinante e dá esperança. As fronteiras de que falas são portas políticas num campo em que não podes colocar barreiras, mas a política chega sempre tarde e mal e a sociedade já tem ferramentas para pensar e evoluir mais depressa. A música e o acesso a toda a música do mundo é uma dessas ferramentas.



De todas as colaborações que já tiveram ao longo da vossa carreira, qual aquela que vos deixou de coração mais elevado?

Adoramos colaborar com músicos com os quais temos uma relação de amizade, como os Pony Bravo, Guerrera, Unicornibot, Betunizer, etc.. Além destas colaborações, ficámos muito satisfeitos com uma colaboração que fizemos há três meses, enquanto banda de suporte do rapper Valtonyc num concerto contra a censura, o #NoCallarem, em Badalona. O Valtonyc pode acabar na prisão por vários anos por escrever uma letra hip-hop contra o Rei de Espanha, e parece-nos uma pena totalmente desproporcional.

Em que medida é que as vossas profissões - o Eduardo sendo jornalista, o Pau sendo psicólogo - influenciaram a vossa música, se é que o fizeram?

O meu papel de jornalista, aplicamo-lo a toda a comunicação, promoção, imprensa da nossa editora (editamos de forma independente). A parte psicológica do Pau aplicamo-la em directo: há duas semanas começámos um concerto no meio da sala de espectáculos, realizando um exercício de post-mindfulness-metal inventado minutos antes, ahah. A música, para nós, tem muito de terapia de grupo, e gostamos que todos os presentes na sala se sintam parte igual da sessão, como nós.

Sendo vocês de Barcelona, é impossível não perguntar: como têm encarado toda a situação na Catalunha?

Como te dizia antes, a política chega sempre tarde e mal, e também o fez neste caso. Pessoalmente, a nossa nação é o Mundo Estrella (o circuito de salas, pessoas, colectivos e associações que tenham por todo o mundo a cultura underground enquanto base, sem vontade de competir e com a convicção de que o benefício principal e vital não é o económico), e não esperamos muito da velha política institucional; mas, claro, não nos mantemos alheados daquilo que está a acontecer. Como grupo, temos actuado em campanhas para apoiar os que lutaram contra os cortes na saúde e na educação e que foram perseguidos pela justiça, ou para apoiar os anarquistas detidos sem quaisquer provas no caso Pandora. Sobre a Catalunha e Espanha, há demasiados elementos misturados para poder resumir o que pensamos em quatro linhas. Pessoalmente - e falo por mim porque não temos um discurso de "grupo" -, digo-te que é incontestável que haja um problema que deve ser abordado, que a violência policial nunca é solução e que o consenso que existe na Catalunha é o de se realizar um referendo acordado e com reconhecimento internacional. 80% dos catalães estão a favor desta votação.



Têm lançado álbuns de dois em dois anos, mas Loloismo ainda não tem sucessor anunciado. Porquê?

O próximo álbum sairá no início de 2018, pelo que se passaram dois anos e poucos meses! Estamos a preparar um set completamente novo, alterando toda a parte instrumental à excepção da bateria. Vamos tentar surfar a ténue linha sinusoidal entre não nos aborrecermos, não nos repetirmos e não nos stressarmos.

Como vai ser o workshop que pensaram para o festival Verão Azul?

Vai ser um workshop de três dias onde partilharemos a linguagem do Caballo Ganador. É uma linguagem gestual de forma a guiar improvisações, que criámos com os irmãos Junquera (de Negro/Betunizer) a partir das linguagens do soundpainting, conduction e cobra. Fomos criando os nossos próprios sinais, adaptados à nossa visão da improvisação guiada: gostamos que qualquer pessoa possa ser o maestro, que não existam papéis pré-determinados, de misturar níveis de técnica muito distintos, que apareçam todos os estilos possíveis e não só o free jazz ou a música clássica contemporânea. E, sobretudo, gostamos que tenha humor, que nos possamos rir de nós mesmos e que façamos terapia uns com os outros, que isso nos faz falta! No final do workshop, daremos um concerto com todos os participantes, e também com participação activa do público. Tragam rebuçados para a garganta!

É importante para vocês, como compositores, criarem em conjunto com quem vos ouve?

O resultado será sempre mais rico, dessa forma. O conceito do Loloismo vai por aí: reivindicar essa criação colectiva onde importa muito mais o "fazermos juntos" que o resultado técnico. Ainda que venhamos do DIY, é sempre melhor o DIT - do it together - a nível discográfico, logístico e criativo.
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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