ENTREVISTAS
Islam Chipsy
Tufão no Mar Vermelho
· 26 Mai 2017 · 22:58 ·
Teclas ou percussão? Sintetizador ou tambor? Electrónica ou ritual ao deus Rá? Acompanhado pela dupla EEK, o músico egípcio Islam Chipsy é uma força da natureza em palco. Oriundo do Cairo, não traz da cidade natal as sonoridades endémica das escalas-padrão orientais sem as deformar numa estimulante sonoridade circular de electro-percussão, com efeitos literais de electrocução no público que o segue. A avaliar por quem foi apanhado neste vórtice ao vivo, os concertos do trio funcionam como um atractor para o centro do furacão faraónico. A receita é simples: um teclado que recebe as mãos frenéticas de Islam em movimentos de marteladas deslizantes e duas baterias ligadas à corrente biológica de Mahmoud Refat e Mohamed Karam. Resultado? Dança hipnótica na assistência e circularidade em ritornelos que pulsam bem acima do nível do Mar Vermelho. Depois de uma passagem inesquecível (até para o próprio) pelo Milhões de Festa, em 2016, esta noite Islam Chipsy regressa a Portugal para actuar no palco da Casa Independente, em Lisboa
Como e quando começaste a tocar teclados?

Há 16 anos, comecei a tocar em casa. Tenho dois irmãos que são músicos e, basicamente, cresci com eles.

E aprendeste através da música tradicional árabe. Até que ponto é que isso influência o teu processo criativo?

Eu tocava vários tipos de música: popular, erudita, contemporânea, pop, rock... chamem-lhe o que quiserem, eu curto tocar tudo. Eu tenho várias influências, e o Chipsy acaba por ser o resultado de tudo isso, tocar a minha própria cena.

"Shaabi" significa "do povo" logo, mesmo que as tuas músicas sejam artisticamente autónomas , parece haver um lado político intrínseco, e mesmo as tuas músicas advêm de uma noção de partilha, comunidade, de reunião em torno de uma paixão comum. O que achas de tudo isto?

"Shaabi" significa "popular", fazemos música para as pessoas disfrutarem. Criar e transmitir energias com a nossa arte, essa é a nossa política. Estás a olhar para a cena de uma perspectiva diferente (...) e eu estou na boa com isso, mas não é a minha música. Terias de perguntar a um politólogo ou assim para teres a resposta, mas não a um músico.

Quão difícil seria abrir a tua cultura ao resto do mundo, possivelmente através da globalização, sem ao mesmo tempo perder a identidade musical?

O que é que a globalização tem a ver com a nossa música? Podes dizer-nos? Nós fazemos boa música, com boa recepção em várias partes do mundo e com uma procura em crescendo.

No mesmo sentido, como descreverias a coexistência da cena ave co Cairo e a cultura tradicional islâmica, por exemplo nos casamentos?

Não compreendo a pergunta. Vamos falar de música e de Portugal.

Sinto que existe uma espécie de diálogo entre os teclados, que roçam um lado mais transcendente, e as percussões, mais relacionadas com o esqueleto e os músculos. Concordas? Será uma espécie de libertação para ambos, corpo e alma?

Tens razão, acertaste em cheio. O movimento corporal é o nosso alvo, tudo ganha uma dimensão física a partir de certo ponto: no palco e no público. O plano é mesmo esse, quão loucos conseguimos ficar e quão louco se pode tornar o concerto. Tudo o que fazemos é muito técnico e sincronizado, e chega aquele momento em que temos de ser um só a tocar um instrumento, ao mesmo tempo que temos de soar mais do que uma orquestra quando somos apenas três músicos. Óbvio que requeres bastante dos músculos e da cabeça com tudo isto (risos).

Dizias numa entrevista ao Le Figaro que "relativamente à electro-shaabi baseia-se sobre outras estruturas musicais, compostas a partir de computadores. O que nós fazemos é diferente. Somos músicos realmente". Podes aprofundar essa diferença que estabeleces entre a tua música e o electro shaabi?

Voltamos ao mesmo ponto: boa música e bom ambiente. Não tenho letras como no electro shaabi, não tenho um DJ, nem toco arranjos compostos previamente. Claro que temos um ou outro, bem como algumas samples, mas o improviso acaba por estar bastante presente no nosso som.

Estiveste em Portugal recentemente. Que relação tens com o nosso país e com a Europa do Sul em geral?

Portugal é um dos melhores sítios em que estivemos e tocamos. Somos sempre bem recebidos, as pessoas gostam de nós e o sentimento é recíproco.

E em relação aos próximos concertos, algo que possas revelar?

Vamos a Portugal tocar musicas novas nesta próxima tournée, tem-nos dado sorte. No ano passado, quando também estreamos uma musica no Milhões de Festa, alguém gravou um video com a melodia principal enquanto cerca de 3000 pessoas a cantavam. E agora, a qualquer lado que a gente chegue, as pessoas cantam essa melodia tal e qual o vídeo. Vamos estrear as próximas aí também, sem dúvida.

E planos para o futuro próximo? Entrar em estúdio, talvez?

O próximo álbum está a ser trabalhado há cerca de um ano. Estamos sempre a entrar em estúdio como novo material e ainda nem sequer decidimos que músicas farão parte do disco, estamos sempre a compor. Fico muito feliz por termos a 100copies (discográfica do Cairo) a trabalhar connosco e, no final, devemos lançar cerca de 30 faixas no disco. Mas por outro lado, queremos é tocar em mais sítios e para mais pessoas.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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