ENTREVISTAS
Victor Herrero
Exercícios de orientação
· 30 Mar 2017 · 11:54 ·
A história irregular do espanhol Victor Herrero foi por aqui contada há já alguns anos: do canto gregoriano no Vale de Los Caídos, em Madrid, ao rock psicadélico, passando pela música andaluz, Herrero encontrou-se na guitarra portuguesa em Astrolabio (2017). Uma "Lisbon story" haveria de lhe dar a conhecer o instrumento tradicional com que compôs inteiramente o seu último álbum, lançado este ano.

O grau zero e a distância cultural (ainda que territorialmente curta) permitiram ao espanhol uma liberdade rara face à guitarra, descolando-se por completo das referências habituais, como o choro do fado, e aproximando-se das latitudes equatoriais. Nos próximos dias, Victor Herrero regressa a Portugal (Setúbal, Lisboa, Caldas da Rainha, Bragança, Vila Real, Guimarães, Porto, Coimbra e Barreiro) para uma digressão donde espera levar os versos mais bonitos para o poema que é o seu disco.
© Rui Oliveira
Adoptaste definitivamente a guitarra portuguesa. Conta-nos como é que isto aconteceu e a tua relação com a cultura portuguesa.

Na verdade foi a guitarra portuguesa que me adoptou, há quase uma década, numa viagem a Lisboa. Da mesma forma que Portugal e a sua cultura, desde o primeiro momento em que comecei a ter contacto com esta preciosa terra. Tenho de confessar que sempre me senti mais acolhido em Portugal com a minha música do no meu próprio país.

Distam mais ou menos quatro anos entre a edição dos teus trabalhos a solo. O tempo é essencial para compores?

A composição vem quase sempre de forma imediata. O que leva mais tempo é encontrar o momento para gravar e publicar um álbum a solo, porque normalmente colaboro também com outros artistas neutros projectos. Gravei o Astrolabio em 2015, por exemplo, e saiu este ano. Neste momento estou a trabalhar em Paris no que será o meu próximo disco, produzido por Jacopo Leone, e o certo é que não faço ideia de quando verá a luz.

© Rui Oliveira

Astrolabio. O título deve-se a um sentido qualquer de navegação, de deriva, próprios da improvisação? Por outro lado, é um instrumento típico dos descobrimentos portugueses e espanhóis…

A guitarra portuguesa é para mim como um astrolábio, sim. Um instrumento de navegação entre diferentes terras, um guia perfeito para se deixar perder.

A guitarra portuguesa está intrinsecamente relacionada com o fado, havendo algum consevadorismo e rigidez na forma como é tocada. Achas que não seres português contribuiu para uma abordagem mais livre e até subversiva?

Quando comecei a tocar guitarra portuguesa foi de uma maneira muito aberta, virgem, sem referências. Provavelmente o facto de eu não ser português contribuiu para isto, quiçá até condicionou. A guitarra portuguesa é um instrumento nómada, fácil de transportar e viajar com ele. É um instrumento de cordas muito rico e dinâmico que se pode integrar organicamente com outras músicas e instrumentos, noutros países, noutras culturas, noutros tempos…



Antes de compores foste investigar o instrumento e explorar outros músicos? O que encontraste, o que te surpreendeu e o que te influenciou mais?

Uma das coisas que mais me surpreendeu e influenciou foi, por exemplo, o quão bem se integra o som da guitarra portuguesa com a música gnawa. Tive a benção de ser recebido pelo maestro Abdellah el Gourd e Dar Gnawa, no Tânger. Ali deram-me espaço e liberdade para me integrar pouco a pouco na música e no grupo. Há algumas gravações muito interessantes destes encontros que quiçá, algum dia, possam ser partilhadas. Certamente também com a Josephine, com quem fui encontrando um som diverso da guitarra através das canções e dos anos.

Vês-te a adoptar esta experimentação enquanto processo no futuro? Ou seja, apropriares-te e estudares sozinho um determinado instrumento que te é culturalmente estranho?

Para mim, a guitarra portuguesa jamais será um instrumento estranho. É um instrumento íntimo e próximo cujo som se vai transformando enquanto me acompanha pela vida.

Há uma contaminação enorme nos teus projectos entre a cultura andaluz, portuguesa e até africana. Mesmo que as abordagens sejam experimentais, existe sempre uma ligação às tradições através de instrumentos, de ritmos, etc...

Há já alguns anos que vivo no sul da Península Ibérica, muito perto do Estreito de Gibraltar, onde as correntes do Atlântico e do Mediterrâneo se juntam, onde começam e acabam Europa e África. Talvez esta posição geográfica quase estratégica impregnou inevitavelmente a minha música.

© Rui Oliveira

Nesta digressão por Portugal, o que podemos esperar dos concertos? Vais tocar a solo? O disco integral?

Nestes concertos em Portugal tocarei a solo, um set instrumental com a guitarra portuguesa. O disco é apenas uma sessão gravada onde desenvolvo alguns padrões. Ao vivo vou explorar alguns desses padrões embora de maneira diferente, de acordo com o lugar e o momento. Normalmente uma peça única sem interrupções.

Quais são os planos para um futuro próximo a solo, com Josephine Foster e com os VIVA (quando voltam mesmo?)?

Os meus planos a solo são tocar o Astrolabio nos próximos meses e terminar a gravação do meu próximo disco. Com a Josephine, vamos em breve a Beirut tocar num festival e fazer uma residência artística. E com os Viva… Há pouco tempo encontrei-me com o Israel Marco, o outro núcleo do grupo, e ficamos de nos encontrar para uma segunda entrega!

Dizias na outra entrevista que te fizemos há uns anos que a poesia é a tua razão de viver. Que poema é este disco?

O poema deste disco está a nascer agora, nesta nova primavera, partilhando a música ao vivo. Tenho a certeza que em Portugal esperam-me os versos mais lindos…
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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