ENTREVISTAS
Tropa Macaca
O templo do ruído
· 17 Jan 2006 · 08:00 ·
Em todos os projectos musicais – com a excepção daqueles que nos chegam como produto e são resultado de uma operação de marketing que junta indivíduos ao acaso – existe um elo de ligação anterior. Um elo a partir do qual se cria outro tipo de elo – o musical. Os Tropa Macaca, projecto nascido em 2004 com epicentro em Sto. Tirso (igualmente poiso dos Dance Damage, projecto de uma das metades da Tropa Macaca), partem da vida que têm juntos (como, digamos, “companheiros de vida” que são) para a partir daí criarem música. Ju-Undo (Joana da Conceição, artista plástica) e Símio Superior (André Abel) lançaram em Maio de 2005 o seu CD-R de estreia, intitulado 1604 (nemnuncadiscos), mas o ano que passou trouxe-lhes ainda a oportunidade de gravação de um split (Para o inferno com eles) com os Fish & Sheep editado pela Lovers & Lollypops. Ju-Undo e Símio Superior fazem música como resposta ao tempo. Exploram o ruído num relógio sem ponteiros e a aproveitam a energia que existe entre ambos para criar. De um lado, Símio Superior traça texturas com a guitarra, no outro, Ju-Undo manipula a electrónica. Ambos procuram de formas distintas chegar ao mesmo local. Aqui, Joana da Conceição e André Abel, entre outras coisas, desenvolvem aquela que é a ideia principal da união musical dos Tropa Macaca, em jeito de manifesto de intenções: a inspiração na vida “como validação de efemeridade truncada no tempo”.
Quando e como começaram os Tropa Macaca?

André Abel: Começamos a tocar juntos efectivamente a partir praí de Setembro do ano passado, fomos ao primeiro Outfest em Outubro, enquanto símio superior + jupanda.

Joana da Conceição: Mas antes havíamos já trabalhado juntos no som de alguns dos meus vídeos. Sem o carácter de banda que tem a tropa.

Há alguma razão especial para terem adoptado as alcunhas Símio Superior e Ju-Undo? Nos Tropa Macaca deixam os vossos nomes reais para trás?

A.A.: Não.

J.C.: Não.

Tencionam ou imaginam-se algum dia a viver exclusivamente da música?

Em Coro: Não.

Os vossos interesses na música são semelhantes? Há algum conflito no processo criativo, nas decisões a tomar e nas direcções a seguir musicalmente falando?

A.A.: Existe bué de conflito, os backgrounds e as sensibilidades estéticas diferem e digladiam-se a cada novo ensaio, conversa, concerto. O que poderá ser considerado, na minha perspectiva, como algo em comum ou unificador será a vontade de agarrar algo que nos consuma por inteiros, uma toada de som que nos faça querer foder o mundo inteiro.

J.C.: Existem muitos conflitos, mas existe uma paz que advém da irresponsabilidade que ambos sentimos face ao que deveríamos ser e isso direcciona, entre outras coisas, a tropa.

Como é para vocês compor musica juntos? Dizem que se inspiram na vida que tem juntos como validação da efemeridade truncada no tempo… Quais são as implicações práticas dessa união musical?

J.C.: Nós fazemos música juntos, isso é verdade, mas não vejo isso com o carácter de união, é uma junção. A união de cada um de nós é com o tempo, com o espaço, com as pessoas, o trabalho de cada um é fruto desse triângulo, quando tocamos juntos funcionamos como um quadrilátero, que é a junção dos dois triângulos.
Actualmente passamos a maior parte da nossa vida juntos, é tudo o que passa por ela que nos seduz, que nos motiva, mas somos sempre indivíduos, as coisas tocam-nos de forma diferente. Mas como dissemos há pouco, existe algo intrínseco a cada um de nós que é comum, penso que é por essa mesma razão que o concerto com Fish & Sheep resultou. Tudo está inscrito no tempo, a consciencialização da nossa efemeridade torna-nos irresponsáveis e livres. Essa brevidade faz-nos arder mais depressa e penso que isso se transmite na música que fazemos.

A.A.: Eu não acho que se possa falar em composição, prefiro algo como uma delineação de estratégias de abordagem a algo que temos cá dentro e que queremos que se concretize em dinâmica de som, batida, oscilação, como quiseres qualificar. Nesse sentido, acho que acabamos por ter uma postura bastante pragmática mas o caminho até a um nivelamento de satisfação mútua é por vezes uma tortura, berramos e ofendemo-nos mutuamente por vezes, elevam-se tensões que torna a coisa mais extática quando finalmente agarramos a besta e a sacudimos no ar.

Imagino que o processo de composição seja necessariamente algo distinto daquele que acontece numa banda como, por exemplo, os Dance Damage… A familiaridade natural no seio do projecto não obrigará a uma dose redobrada de esforço e dedicação?

J.C.: A ligação extra música é forte, passamos muito tempo juntos e isso representa parte importante na forma como trabalhamos, de facto, é já em si alimento da tropa. Normalmente não compomos, como uma banda como os Dance Damage, o que não obriga a um ensaio rígido trata-se mais de expurgar demónios e trocar figurações de beleza, portanto, ao contrário de ensaiar uma composição definida, procuramos a liberdade da composição instantânea. Agora se isso exige mais tempo ou não que uma banda que compõe, depende! Exige isso sim sintonia, que não advém exclusivamente do tempo investido em ensaios, mas também da partilha de diversas experiências.

A.A.: Eu acho que levamos isto na boa, é apenas mais uma dimensão da nossa vida e, por mim, sinto-me motivado a continuar a investir tempo e energia com paixão pelo potencial que partilhamos.

J.C.: Queremos chegar a uma composição livre. Na música como noutras áreas de acção do ser humano existem códigos mais ou menos rígidos que promovem um género de conduta, que se pode tornar asfixiante. Mas a música trata de som, um discurso onde os cânones não são tão rígidos como os da linguagem por exemplo, e por isso a música é um caminho mais próximo para as vísceras.

Apontam os Fish & Sheep como vossos manos. Como surgiu a vossa ligação com o Afonso e com o Jorge que deu origem ao split Para o Inferno com Eles?


J.C.: Eu conheci o Jorge no Barreiro no ano passado, ele estava com um gorro com duas orelhas.

A.A.: Eh pá, o Afonso não me lembro…

J.C.: Oh Afonso! Como é que nós nos conhecemos ?

Afonso Simões [entretanto vindo da cozinha, entrando na sala, após um late night snack]: Foi no Mercedes


Há algum conceito conjunto em Para o Inferno com Eles ou os dois projectos seguiram trajectos distintos em termos sonoros?

A.A.: Não existiu algum conceito ou critério artístico comum, exceptuando o respeito e carinho mútuos.

Quais as maiores diferenças entre 1604, o vosso CD-R de estreia, e este split com os Fish & Sheep?

A.A.: O 1604 era algo de cariz conceptual, um esforço consciente de composição, enquanto que o tema para o split já é um tema improvisado gravado directo e sem edição ou produção posterior.

Como é que o split acabou nas mãos da Lovers & Lollypops?

A.A.: O split começou pelas mãos do Fua, que nos convidou no início do verão.

Estiveram recentemente no Out.Fest em modo ensemble com os Fish & Sheep. Como funcionou esse ensemble?

A.A.: Nós sentimo-nos muito bem e acho que resultou fixe.

J.C.: Nunca tínhamos tocado juntos antes.

A.A.: Até tinha surgido a ideia da parte deles de trabalhar algumas covers mas como não deu para nos juntarmos em ensaio a cena não deu para levar avante de forma consistente.

J.C.: Mas a esta distância, ainda curta, acho que faz todo o sentido estas duas bandas juntarem-se em palco sem terem tocado antes.

O Out.Fest parece-me uma espécie de statement, uma espécie de “nós estamos aqui, isto existe mesmo”. Quais eram as vibrações no Barreiro?

A.A.: Boa onda mesmo, tipo…

J.C.: Jovem, solidário, brutal.

A.A.: São das pessoas mais valiosas que eu conheço, humanos da melhor estirpe.

Hoje em dia existem imensas novas bandas em Portugal a um nível periférico e até as ramificações dessas bandas já são mais do que muitas. Acreditam que a comunidade que se dizia existir ao início já cresceu e tornou-se numa cena palpável e real?

A.A.: Definitivamente. Compramos um monte no Alentejo para formar uma comuna freak pós-new age. Ou então não. Somos apenas um bando de pretensiosos de merda que andamos por aí a excitar uns e a irritar outros. Rumo ao perigo.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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