ENTREVISTAS
Linda Martini
Uma história de metades a sentirem por inteiro
· 14 Jul 2016 · 00:30 ·
Sábado, estava o Sol empoleirado no seu zénite quando calcamos aquilo que, dois dias antes, ter-se-ia denominado de relva. Estávamos no Parque da Cidade do Porto em pleno recinto do NOS Primavera Sound e os Linda Martini eram o alvo. Banda partida em dois, Hélio e André para uma camarada loira e a Cláudia e o Pedro para nós. Em 25 minutos desfiou-se a memória de uma história que já leva 13 anos, sete discos e muita vontade de entregar em mãos palavras para pensar. Sirumba foi a última delas, álbum “diferente” na génese como nos conta a “parte instrumental” da banda e que foi bilhete de entrada no mítico Coliseu dos Recreios, local onde as pernas não tremeram e a ansiedade fugiu com o calor da massa humana que o encheu. Tempo, ainda, para uma pergunta provocação em relação à mudança para a Universal e para lembrar que, afinal, os pais também podem estar errados… Por último, mas não menos importante, a Língua que tentam nestes quase quinze anos dar ao respeito de quem a ouve e de quem a cria, o Português feito Santo Graal de uma história contada a meias-palavras porque não é preciso dizer tudo quando se sente por inteiro. Eis os Linda Martini…
Podemos começar? Falem-nos de Sirumba… Vocês cresceram…se pensarmos no Olhos de Mongol ou no Casa Ocupada sai tudo mais directo, o coração está na boca. Em Sirumba existe uma maior contenção…

Cláudia Guerreiro – Existe, de facto, uma maior contenção… No fundo, era uma coisa que já queríamos fazer há muito tempo, isso de dar espaço às coisas para soarem…só que nunca conseguimos… A pessoa chega ali, àquela altura, e cada um quer fazer as coisas à sua maneira…

Pedro Geraldes – Foi mais trabalhado (Sirumba). Foi mais, se calhar, contido em termos de produção. A nossa experiência no HAUS (estúdio onde foi gravado Sirumba) foi diferente das outras, tivemos mais tempo…Tivemos um mês para fechar o disco, algo que nunca tinha acontecido. Fomos, também, um pouco com a ideia de querer conter mais as coisas e dar mais espaço aos instrumentos, por isso acho que é um pouco o reflexo de uma fase por que passamos.

Será fruto da idade?

CG –Não sei…Tudo é fruto do contexto. O contexto pode ser a idade, pode ser outra coisa qualquer, pode ser o facto de termos mudado de sala, pode ser o facto do André ter deixado de ter um trabalho a full-time e ter estado muito mais presente, pode ser o resultado de eu não ter estado tão presente porque estava grávida. Todas essas coisas influenciam. Quando nos perguntam “o que é que vos influencia?” Muito mais do que música, o que nos influencia é o contexto, é aquilo que nós temos no dia-a-dia.

Pegando nas pessoas que acompanham o vosso trabalho e gostaram dos álbuns anteriores, as opiniões atiram-se para um “acho estranho”. Estranho porque é mais complexo? Será essa uma possível resposta?

PG – Acho que os outros discos também têm alguma complexidade. Neste, em particular, fugimos mais ao caos e procuramos um bocadinho mais a harmonia. Depois, há uma coisa ainda mais diferenciadora neste disco: há mais voz. E a voz acaba por, inevitavelmente, te guiar um bocadinho a música. Se calhar, havia em músicas anteriores um espaço maior de interpretação porque a coisa era mais abstracta, embora tivesse um drive, isto é, havia ali um objectivo. Não é pensado, mas sente-se que há ali um objectivo, sente-se que a música puxa para um lado mas, se calhar, era um bocadinho mais lato. Agora, neste disco, sinto que nas músicas se sente mais a complexidade.

“O Dia em que a Música Morreu”…

PG - Ya…mas, também, é porque tu percebes que nos outros (discos), os instrumentos de cordas por exemplo, guitarra e baixo, era cada um era para seu lado estás a ver…havia, ali, uma harmonia que se criava a partir da desordem. Neste, por estar tudo mais arrumadinho, se calhar, esse caos, é mais perceptível. O caos continua a estar lá mas, porque as coisas estão mais definidas, os instrumentos estão mais definidos, a voz está mais presente, a coisa acaba por estar mais limpa.

Isso, a ideia de que no álbum se perde um pouco da essência dos últimos trabalhos, não será devida à percepção de que, o povo português, por várias razões: crise, fado, etc; se sente mais confortável no caos do que na definição, numa acepção mais nórdica da palavra?

PG – Sim. Este já é o nosso sétimo álbum, e nós sentimos uma certa frustração com a produção dos outros discos… Como estavas a dizer (em off), em concerto somos uma coisa bastante caótica, muito de entrega directa e, nós, sentimos que neste álbum, para as músicas que tínhamos, não fazia sentido tentarmos ir à procura dessa energia e dessa entrega porque, ao vivo, nós temos e fazemos isso. Por isso, se calhar, perdemos aquela teimosia em querer que um disco soasse como soa ao vivo. Simplesmente fizemos um disco a soar bem, bem dentro do nosso registo. Não passamos a tocar músicas pop…

Na crítica que fiz a Sirumba escrevia que “Dentes de Mentiroso”, quando tocada ao vivo, iria resultar muito bem. Vocês já tiveram oportunidade de a experimentar, isso confirma-se?

CG – Sim, sim. Ela resulta bem mas, para já, as músicas precisam de amadurecer em concerto. Porque tê-las no disco e tê-las em concerto é muito diferente. Sempre que temos um disco novo passamos um bocado por isso. As músicas ainda não estão automatizadas para nós e há sempre coisas a aprimorar. O ideal seria que, quando apresentasses o disco, as músicas estivessem no ponto, mas não, porque só as consegues aprimorar em concerto, mesmo. Não é uma questão de ensaiar, é uma questão de ensaiares ao vivo, ensaiares com o público…

Falhar…

CG – Falhar, falhar, falhar, exactamente…se calhar ainda precisamos de mais concertos para perceber quais são as músicas que funcionam mesmo, mesmo, mesmo.

PG – O “Dentes de Mentiroso” tem uma cena muito fixe. É tipo, uma jarda na tua cara, aquilo está ali e isso vai passando… Também é fixe porque tens ali energia pura e dura, porque também tem um pouco daquilo que nos identifica; tem umas passagens e depois vai para outro sítio muito diferente. A música onde começa e onde acaba não tem nada a ver. Acho que as músicas, no geral, têm resultado…

E no Coliseu? Como é que funcionou?

CG – Funcionou muito bem, o público estava connosco. Foi uma coisa muito estranha, no dia seguinte acho que nos sentíamos todos vazios. É uma coisa estranhíssima. As pernas tremeram…muito? Vieram do nada ou do quase nada…

PG – Sabíamos que íamos tocar ao Coliseu e isso causou-nos alguma ansiedade mas, também alguma expectativa em relação ao número de pessoas, se ia estar alguma gente…A verdade é que fomos lá de manhã fazer o soundcheck e tínhamos ali o Coliseu vazio, só uma mesa no meio…

Não te enganaste e foste-te sentar numa cadeira?

CG e PG – Não havia cadeiras!

PG – Depois, na altura em que começamos a tocar, quando entramos mesmo em palco vês aquela moldura humana e…

CG – Parece que não é o teu concerto, parece que estás a ver de fora…pelo menos isso aconteceu-me. Não fiquei nervosa, bom, nas primeiras duas músicas estava um bocadinho mas, depois, quando entrei, aquela cena…lembro-me do André olhar e dizer: “Hei! Isto está cheio!!!” E eu a pensar, “Ya meu! Claro, convém! Não estava à espera de outra coisa, isso é que era um grande baile!”.

Têm dificuldade em lidar com esse crescimento?

CG – Não! Até porque já tocamos para muito mais gente do que ali, percebes? Aquilo era um concerto em nome próprio numa sala do caraças!

PG – Era em nome próprio e quem lá estava estava para nos ver, não é como aqui (NOS Primavera Sound). Aqui pode juntar-se malta que veio para ver Battles ou outras bandas quaisquer. Ali, era malta que sabia que só nós iriamos tocar. Depois, também a entrega, essa entrega que o público ou o nosso público normalmente tem. Acaba por acrescentar algo ao concerto, porque é isso! Esse à vontade que nós, depois, conseguimos ter, porque há sempre nervosismo miúdo, advém daí. O facto de estares ali e veres que aquela malta está contigo...

Já não foi como no primeiro concerto…

PG – Não! O primeiro concerto foi no antigo Hard Club, em Gaia, e foi à tarde…

CG – Não foi à tarde! Foi à noite…

PG – Foi à noite já? Depois tocamos nas FNAC…

CG – Ya! Tocamos nas FNAC mas, aí, é muito diferente. Tu, aí (nesse momento da carreira), tens toda a expectativa do mundo, aqui, a tua expectativa é que as pessoas continuem a curtir. Já sabes que tens a casa cheia porque tens fans, tens pessoas que gostam e que só esperamos que continuem a gostar. A expectativa é que eles gostem, também, destas músicas. Antes estava tudo em aberto.

Já levam 13 anos disto. Estiveram dois anos no estaleiro (2003-2005)…

PG – Basicamente fizemos o primeiro EP, depois o álbum…

CG – Tivemos muito tempo para fazer cinco músicas…



Têm noção do que representam no actual panorama da música portuguesa? Aquilo que representam para as novas bandas? São uma espécie de “Julio Isidro” para algumas novas bandas nacionais…

CG – O quê?!

PG – Não pensamos nisso. Não nos metemos, mesmo, nessa posição porque, felizmente, há muitas bandas fixes que nós curtimos. Claro, aí, entra a opinião pessoal, existem bandas com que nós nos identificamos/curtimos e outras que, se calhar, não nos dizem tanto, mas é saudável que apareçam no panorama da música portuguesa. É muito fixe perceber que há muita banda nice e nós temos o espaço que fomos conquistando com algum mérito, não foi só sorte, e não pensamos em ser porta-estandarte de nada nem de ninguém.

CG – Eu acho que nós demos uma coisa fixe mas que, na verdade, não fomos nós. Algo que, depois de nós, ouve mais gente a fazer que foi a cena de haver mais gente a cantar em português. Não fomos os primeiros, claro. De todas as bandas que existiam, num espectro mais próximo do nosso, de facto, não havia muita gente. Havia os Ornatos, os Toranja, com os quais nós não temos nada a haver. Se calhar, algum do público de Ornatos acabou por gostar de nós e foi esse momento em que, se nós não tivéssemos cantado em português, muitas outras bandas não teriam começado a cantar. Acho que nós surgimos numa altura um bocado de viragem para essa consciência da nossa língua como uma cena fixe.

Não acontecerá, também, um pouco por responsabilidade das letras? São curtas e pujantes…

CG – Prefiro coisas mais instrumentais…mas é claro que nós gostamos de tudo o que fazemos porque, caso contrário, não estávamos na banda.

PG –Estás aqui com uma parte da banda que puxa um bocado mais para esse lado… Por exemplo: o facto de no Sirumba termos muito mais voz e uma estrutura muito mais de “canção” é o reflexo daquilo por que nós estamos a passar, pelo menos é assim que eu encaro a coisa. É assim, nós os dois puxamos mais para um lado, os outros puxam mais para outro mas é o que acontece a uma banda em que os quatro são opinativos e têm a sua identidade.

CG – Voltando à língua. Sem qualquer espécie de bazófia, acho que conseguimos pôr o português a ser cantado sem ocupar demasiado espaço. Está lá, é português, mas não está a mandar aquele texto gigante. Não precisas de contar a história toda. Só precisas de dizer algumas coisas e acho que funcionou muito bem. Sinceramente acho que isso abriu a cabeça das pessoas para escreverem em português mas sem terem que ser contadores de histórias. Há espaço para outro tipo de coisas, o que até acaba por ser engraçado porque o André gosta de ser um contador histórias mas não era aquilo que ele fazia. Agora estará a ir um bocadinho mais por esse caminho…

PG – Estavam a falar acerca de não ter que se contar tudo. Na minha opinião, isso acaba por ser uma mais-valia nossa. Fizemos uma coisa um bocado diferente quando surgimos: rock instrumental com veemência e uns textos que te direccionavam. Isso acaba por ser uma mais-valia nossa porque, essa abstracção e o dar “ao outro” a oportunidade de interpretar, faz parte da partilha. Podes identificar-te ou não. Se te identificas aquilo é teu, se não te identificas ficas ali com um pé dentro e um pé fora. E não falo só de Linda Martini. Eu adoro storytellers e tudo o mais, não estou a dizer que não gosto dessa parte, mas eu acho mais interessante o facto da coisa não te ser dada logo toda. Pegar um bocadinho daqui, outro dali e agora pensa…

CG – Ya, agora pensa…

É difícil fazer as pessoas pensar?

CG – Não sou eu que escrevo as letras… A parte da música é fácil, as letras é que são difíceis…

O “Amor Combate” foi para quem?

CG – Não foi para ninguém. Ele (André) nunca teve nenhum problema de amor. Foi como se estivesse a contar uma história de outra pessoa qualquer…

Ou o “Cem metros Sereia”…

PG – O “Cem Metros Sereia” então ainda é mais abstracto. A ideia é o que tu quiseres. Se me disseres “é isto!”, eu vou replicar “a sério, achas que é? Fixe pá! É a tua história!”.

CG – Aliás, mesmo para nós são coisas diferentes. Aquilo, no princípio, era diferente, depois o Pedro tinha percebido uma coisa e a letra acabou por se alterar para aquilo que ele tinha percebido. “Disseste não sei o quê?”, “não, mas pode ficar assim” e acabou por ficar aquilo.

Não foi um abstracto geométrico à Kandinsky…

CG – Não… (risos)

PG – Não, não… É tudo muito mais intuitivo. As letras são muito mais na base da intuição…

Julgo que numa entrevista ao “i” dizem que são um “feliz encadeamento de acasos”, portanto, com base naquilo que acabaram de me dizer, vocês continuam a ser um feliz encadeamento de acasos?

PG - Até agora sim. Temos a oportunidade de tocar em festivais, temos público…

E que acasos foram esses que vos juntaram?

PG – O facto de termos nascido onde nascemos, crescido onde crescemos, terem existido os estímulos certos para pegarmos nos instrumentos…

CG –Terem existido bandas que se cruzaram a certa altura, que não são coisas que tu forces, são coisas que acontecem…

PG – Ou seja, todos nós já tínhamos bandas/projectos, éramos todos da mesma zona e já tínhamos algum grau de conhecimento. Os concertos que, então se organizaram e nos aproximaram. Foi uma sequência de “sortes” no nosso percurso que nos permitiram estar aqui.

CG – É assim, não foram só acasos até agora. Há trabalho porra!

Acasos que dão muito trabalho, trabalho que vos levou até á Universal…

PG – Sim, entretanto fomos para a Universal. Sempre fizemos edições de autor…

Venderam-se ao capitalismo?

CG – Estás a ver-nos ricos?! (risos)

PG – A venda de discos, como deves imaginar, não é propriamente um negócio próspero. Não se vendem muitos discos actualmente.

Precisavam de comer, é isso?

PG – Além disso, além disso. Percebe uma coisa, nós sempre fizemos edições de autor e tínhamos problemas com as FNAC, problemas no sentido de não existir uma ligação tão directa. Tivemos a oportunidade e percebemos. Ponto número um: A editora está a pegar numa banda já “feita”, com uma identidade bastante definida. Por mais que, no futuro, possamos ser uma coisa totalmente diferente. Eles não mexeram, nem sequer houve essa intromissão. Sempre fizemos aquilo que queríamos. Agora, temos uma estrutura que nos ajuda a distribuir a nossa música.

CG – Sempre editamos sozinhos mas não era por termos algo contra as editoras, foi porque nunca calhou. Tivemos uma série de desencontros com editoras que “era para ser” mas porque a pessoa de contacto saiu aquilo acabou por não acontecer, o mesmo para o disco a seguir e, finalmente, conseguimos encontrar.

Fazê-la chegar a mais gente…

PG – Fazê-la chegar a mais gente, consegue meter-nos a fazer mais entrevistas.

CG – É, até, uma questão de organização. Os gajos são muito organizados! Têm uma equipa muito competente e sabem fazer aquilo bem. Isso faz com que a nossa parte também corra bem.



Fazem com que possam pensar apenas na música sem se preocuparem com lateralidades, é isso?

PG –Viemos de um ponto em que tudo estava depositado em nós. Desde a marcação de concertos à edição dos discos e, apesar da ligação à editora, mantemos essa pro-actividade…

CG – Gostamos de estar sempre a par. “Isto está a passar? Não está? Porquê?”, vamos sempre tentando estar a par. Não é para dormir!

PG – E, tal como arranjamos uma agência quando começamos a vender muitos concertos e, recebendo uma parte dos concertos vendidos, sentimos que, tendo uma editora, da parte respeitante à edição, distribuição e promoção do disco poderiamos ter resultados e foi só por aí. Ser a Universal, se calhar não soou muito bem a muita gente mas, tal como fomos para a Universal, podíamos ter ido para uma outra se tivéssemos tido oportunidade e se achássemos melhor. Foi a oportunidade que tivemos e decidimos aproveitar.

CG – Toda a gente precisa de uma editora. Aliás, nem toda a gente. Tem a ver com o modo como queres fazer a coisa. Já tínhamos feito a coisa de outra maneira durante muito tempo.

Em Portugal é mais complicado? Sem editora é mais complicado?

CG – Acho que é complicado em qualquer sítio, depende do nicho que estás a atacar.

Sentem que ainda é muito amador em Portugal ou…

CG – Não, não. Mas, amadorismo em que sentido?

Todo o processo: agenciamento…

CG – Não, não acho nada amador. Acho extremamente profissional. Se calhar não tens assim tantas editoras grandes até porque não tens assim tanta gente, a indústria não é assim tão grande. Agora, quem faz, faz bem.

PG – Acho que não, é à nossa escala. É um circuito à nossa escala.

CG – Tens nichos. Vais ter uma Universal a lidar com nichos? Não, para isso tens outro tipo de editoras. Tens editoras mais pequenas e cada uma trabalha à sua escala.

PG – Pegando naquilo que disseste sobre a necessidade de comer, justificando estar numa Universal não é, mesmo, por aí. Imagina, nós temos uma banda que já existe há algum tempo. Nós, apesar de sabermos que não temos a música mais comercial ou acessível, essa música chega a muita gente mas não chega a todo o lado. Daí sentirmos a necessidade de mostrar a nossa música a toda a gente, mesmo que eles não queiram, mesmo que fechem a porta e digam “isto não é a minha cena”. O ter a oportunidade de poder chegar ao máximo de gente possível é o objectivo de qualquer banda porque, se gostas daquilo que fazes tens essa vontade.

CG – Depois temos a oportunidade de passar na Comercial (risos), vamos ver se acontece…é a Comercial que está aqui a cobrir isto, portanto…pode ser que passem alguma das músicas…

Pelo que percebo, treze anos depois, ainda estão com muita pica?

PG – Sim, claro. Gostamos daquilo que estamos a fazer.

CG – Espero ter a clareza de espírito para, um dia, se não gostar, ir-me embora.

PG - Acho que a coisa se mantém porque, ao longo deste percurso, todos nós tiramos um curso, percurso normal a quem é da nossa geração...

CG - …não acreditavam na música…

PG – E a quem cabia a posição de dizer “Vais para aquele trabalho, etc”. Hoje tudo mudou, os nossos pais ficam a pensar “insistia tanto para este lado mas, se calhar, não era bem por aqui”. É totalmente compreensível ter essas preocupações. Mas, o facto do pessoal ter começado a curtir-nos, termos começado a ter concertos, de repente, começamos a estar muito mais deste lado, lado que sempre quisemos. Por mais que tivesse um trabalho, o que eu gostava era de estar a tocar. E, agora, poder dizer que consegui deixar o trabalho de “venda de enciclopédias”…

Era isso que fazias?

CG – Isso era lindo!

PG – Estou só a dar-te um exemplo…

Mas fizeste alguma coisa assim mais estranha?

PG – Não, trabalhava numa agência web.

És licenciado em quê?

PG – Engenharia Informática, mas nunca quis enveredar por aí.

Nunca te imaginaste como engenheiro?

PG – Nunca me imaginei como engenheiro e nunca fiz nenhum trabalho de Engenharia até porque nunca concorri a nenhuma dessas possibilidades de trabalho. E tinha, há muito trabalho nessa área. Nunca fui por aí. Como referi, fui para uma agência web em regime full-time. Todos nós, quer dizer, mais ou menos, acabamos por continuar a gostar ou a fazer a nossa cena aparte os Linda Martini. Só para concluir, o facto de podermos estar, agora, com isto, que é o que mais gostamos, mais do que venda de enciclopédias - por favor não pegues nisso porque nunca o fiz – faz-nos ser mais nós e, claro, a vontade mantêm-se.

CG – Eu continuo a fazer a minha cena e não faço intenção de a deixar o meu trabalho…

És artista plástica. Se não tocasses nos Linda Martini sê-lo-ias (se é que se pode ser artista por metade) a tempo inteiro?

CG – Sim, sim. Assim faço as duas coisas. Em vez de estares a trabalhar para uma empresa, estás a trabalhar na tua empresa. Isto não é uma empresa mas é como se fosse, é a tua criação…

É o vosso bebé…

CG – Ya, é isso.

PG – Ya.
Fernando Gonçalves
f.guimaraesgoncalves@gmail.com

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