ENTREVISTAS
Fugly
Curar a ressaca
· 26 Mai 2016 · 20:54 ·
Vão atuar, entre outros sítios, no Indie Music Fest, em Baltar, Paredes. O EP já saiu: chama-se Morning After e já tem andado a invadir os tímpanos dos mais curiosos e próximos do trabalho da banda, que se apresentou a 5 de março no Maus Hábitos. Com elementos dos The Lazy Faithful (Gil Costa, Tommy Hogg e Rafa Silver), o líder do projeto é Pedro Feio, ou Jimmy, conhecido técnico de som da praça portuense. Ao Bodyspace, detalha o conceito por detrás da sonoridade dos Fugly, aprofunda as origens de um projeto que começa a levantar ondas na cena punk do país. Entre a ressaca, a destruição e a ausência de arrependimento, para o bem e para o mal, há um punk que se autocaracteriza como “proto-pizza e banana-punk, rock-lobster e tartarugas ninja, garage dum miúdo da escola secundária misturado com psicadelismos e a complexidade de quem passou da vida a ouvir tudo o que foi feito nos anos 60 e 70”. Tudo sobre um projeto que vai continuar “dê por onde der”, mesmo com outros trabalhos e a possibilidade de saída de membros.
Como é que surgiu a ideia e depois o projeto Fugly? Onde é que tudo começou?

Queres que te conte a minha história desde que nasci? (risos)

Se quiseres.

Não, pronto. O projeto em si começou há um ano e meio, mais ou menos. Partiu de mim, porque já tinha estas músicas no bolso há muitos anos, tive algumas bandas mas foram sempre tentativas falhadas. Fiquei sempre com o bichinho cá dentro e quando acabei a licenciatura [Produção e Tecnologias da Música, ESMAE] fiz sons para os The Lazy Faithful. Acabaram por se tornar os meus melhores amigos. Mostrei ao Rafa, o baixista, e ele disse que era fixe, que podíamos pegar naquilo. Perguntou-me 'mas estás a pensar em tocar com quem?' e eu não fazia ideia, com quem quisesse tocar. A ideia não era começar com o Gil Costa e o Tommy Hogg, mas acabou por ser assim, são os meus melhores amigos e tocam todos muito bem. Também adoraram a música e quiseram logo pegar nisto. Já andamos a ensaiar há cerca de um ano, já há aqui algum trabalho. Agora é muito mais sólido, finalizado.



É fácil ensaiar, uma vez que os colegas de banda têm outros compromissos?

Somos todos cá do Porto, e moramos muito perto uns dos outros. Acabamos sempre na casa uns dos outros depois de irmos sair ou assim. Somos um núcleo muito próximo, sempre juntos quando podemos.

A música junta-vos, então.

Sim, é um ponto comum. O que nós sempre quisemos e ambicionamos era fazer parte do mundo da música. Desliguei-me um bocado da ideia de tocar quando comecei a fazer sons para outras bandas, como os Throes + The Shine.

Há um álbum, um EP, um LP?

A ideia era um mini-álbum, ali entre um EP e um LP. Depois chegámos à conclusão que com seis músicas tínhamos um EP sólido, e é isso que temos. Começámos a gravar em janeiro desde ano e depois o single saiu, o “Morning After”. Depois lançámos o resto do disco, em formato digital e edição de autor, com o mesmo nome.

Como lidas com o feedback ao “Morning After”?

Estou muito contente. Estou mais contente de o colocar cá para fora do que outra coisa. A recetividade ainda não me entrou muito na cabeça. O pessoal, os meus amigos pelo menos, têm dito todos que gostam muito. Há uma ou outra pessoa que vem falar-nos e que nos diz que é fixe. Fico muito contente, não estava à espera disso.

Em concreto, o que caracteriza os Fugly? Em termos de género musical, abordagem, conceito, por aí fora?

As músicas que criei foram muito na onda do garage rock e do punk. Comecei a escrever músicas e talvez estivesse a complicar demasiado. Ouvia muito Radiohead e bandas muito clássicas, como os The Who ou os Led Zeppelin. Também queria fazer uma coisa muito incrível, mas depois decidi ligar o descomplicador, e perceber que bem tocado e simples até resultava muito bem. Depois comecei a ouvir bandas que repetem um ciclo na música toda, e isso bem feito resulta muito bem. Comecei a gostar dessa ideia. É garage, muito punk, muitos barulhos, feedback, distorção. É tocado com um baterista completamente explosivo, toca muito bem. O Rafa também é muito sólido, inventa muito... o Tommy faz aqui guitarra rítmica e segura mesmo bem a música.

Faltas tu.

Falto eu, que criei a música e estou ali a mandar uns berros ao microfone (risos). No processo de criaçao nunca pensei nas vozes. Desde miúdo que não pensava, a brincar com músicas, na parte das vozes. Nunca tive formação em termos de voz. Em letras, também não, é baseado no saber empírico. Quando era vocalista em bandas de miúdo, era sempre assim, deixava as letras e as vozes para o fim e ficava uma salgalhada. Mas estou a evoluir. As músicas que agora compus já estão mais em formato canção.



O tema das músicas, até do EP e das imagens promocionais, anda muito à volta da ressaca. Porquê?

A ressaca é uma coisa que vivemos e respiramos muito (risos). Acontece muitas vezes nos concertos dos Lazy Faithful. Essa sensação acontece-nos muitas vezes, e faz parte de uma fase da minha vida em que estava muito dentro desse espectro e acordava muitas vezes a pensar no que andava a fazer. Acho que me ajudou imenso a por as coisas em perspetiva e fez-me evoluir como pessoa. Tornei-me mais introspetivo, isso ajudou-me. Quando a pessoa não está no estado normal, faz mesmo as coisas que acha que não deve fazer. Não falo das coisas más, tipo andar à porrada ou trair a namorada, é as coisas que devíamos fazer, não ter medo de falar com as pessoas. Sempre fui muito fechado, mas comecei a perceber que esse estado alterado por vezes ajuda, e no dia seguinte já aconteceu e não nos arrependemos. Foi por aí que surgiu o conceito do EP. Queria um elo de ligação. Às vezes parece que contamos uma história, de uma ponta à outra.

Que objetivos traçaram daqui para a frente?

Não sei até que ponto o pessoal vai poder estar sempre neste barco. Eles têm os Lazy Faithful, têm os objetivos dessa banda, além do trabalho que têm, é muito difícil saber até onde é que isto vai. Para já, vamos cumprir as datas que temos, fazer as coisas com calma e depois logo se vê. Se não der, não fico chateado, foi o que deu para fazer. Temos sempre de dar prioridade ao trabalho, porque precisamos do retorno, tocar em bandas é muito bonito.

Para a vossa banda, o ímpeto cultural do Porto é importante?

Definitivamente. No Porto, temos o STOP!, o epicentro das bandas do Porto. Tudo o que é banda está lá a ensaiar, e nós também passamos por lá, mas gravamos na Adega, em Rio Tinto [Gondomar]. A viagem começa aí, e depois no Porto há imensos sítios para tocar. Maus Hábitos, Plano B, Cave 45, Hard Club, O Meu Mercedes, por aí fora. Os sítios não se esgotam. A cidade está cheia de atividade. Vê-se mais gente por todo o lado, mais bandas a tocar, mais sítios a abrir espaço para as bandas. O Porto é esse sítio para as bandas, há sítios para todos os géneros de música.

Já pensaram na possibilidade da fama dos Lazy Faithful ajudar a lançar os Fugly?

Isso foi sempre algo que receei. Já vejo gente a chamar a isto um projeto paralelo aos Lazy Faithful. Não tenho grande problema com isso, mas as pessoas podem acabar por interpretar mal o projeto. Isto não tem nada a ver com a sonoridade deles. Agora, eles têm um percurso por muitos sítios onde gostaria que os Fugly fossem, mas é uma questão de trabalharmos. É o que queremos fazer.
Simão Freitas
spfreitas25@gmail.com

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