ENTREVISTAS
Joan Shelley
Quente e fresco folk
· 24 Fev 2016 · 11:24 ·
Joan Shelley é o nome de uma das mais promissoras cantautoras do folk norte-americano. A voz calorosa e trabalhada vem de uma loira de Louisville, Kentucky, que tem recebido algumas das melhores críticas dentro do meio folk nos últimos tempos. O culpado é Over and Even, álbum de setembro de 2015 que mostrou a força das letras e a capacidade que tem para construir canções não só para ela mas também para Nathan Salsburg, que agora acompanha a norte-americana. E vai mesmo com ela para cima do palco no próximo sábado, no Auditório de Espinho. Ao Bodyspace, repassa as inspirações do álbum, o trio Maiden Radio, de que faz parte, o processo criativo e o que traz a Portugal. Uma viagem da Grécia a Espinho, com paragens em Serralves, ideais caídos, personagens caricatos, Vic Chestnut e Jason Molina, a música tradicional e o novo folk.
Estás de volta a Portugal para mais um concerto [o primeiro foi no Serralves em Festa, em 2014]. Gostaste da primeira experiência cá? O que esperas para este regresso?

A minha primeira vez em Portugal foi um encanto. Nunca sabia muito bem o que pensar quanto a Portugal. Tocámos num grande palco ao ar livre, com uma brisa quente num dia de primavera, nos campos de ténis em Serralves, e o público foi adorável. Mas não pude aproveitar muito dessa vez porque estava muito cansada de andar em tour, a beber imensos chás herbais. Gosto mesmo da comida e bebida portuguesas, e desta vez quero muito explorar e desfrutar ao máximo do país porque é no início da tour e não no fim.

Estás entusiasmada por regressar? Como esperas que o público reaja à tua música e presença em palco?

Desta vez, venho armada com o meu guitarrista, Nathan Salsburg, um talento incrível e, para quem aprecia guitarristas, um dos melhores intérpretes que já ouvi tocar. Estou entusiasmada para o concerto que nós preparamos, como tocamos guitarra juntos e preparamos estas canções. Quanto à reação do público, não sei o que esperar e acho que nunca vou saber o que esperar. Vamos fazer uma boa noite de música com os que decidirem ouvir-nos. É sempre assim.



Vais partilhar o palco com o Nathan. O que nos podes dizer dessa parceria musical?


No que toca a música, entendemo-nos como irmãos. Podemos entrar na mesma sensação e no mesmo ritmo de uma música sem sequer nos olharmos. Em cada música estamos sempre a intuir mudanças e a ter uma conversa que não é detetada. Mudou a forma como escrevo canções, por saber que posso escreve para alguém que me acompanha e que me entende na perfeição. É o que faz este novo álbum único.

Over and Even foi elogiado um pouco por todo o lado, da Pitchfork à NPR. Estavas à espera de tanto sucesso?

Não, de todo.

Li que muitas das músicas deste álbum foram escritas quando estavas na Grécia. Qual a história por detrás disso?

Estava a tentar encontrar-me com um amigo para uma colaboração na tour europeia. Apareci com antecedência, e depois desse encontro cair acabei a escrever música sozinha e a saltar de lugares para dormir que fossem baratos na off season da Grécia, quando faz muito frio. Porque sou uma grande fã de Leonard Cohen, e porque o meu pai morou lá nos anos 60, a trabalhar como pintor, associei tudo aos gregos antigos e aos ideiais artísticos caídos dos anos 60. Tanto musicalmente como espiritualmente. Foi uma oportunidade para trabalhar essas ideias enquanto me sentia alguém estranho num local novo.

Porque é que escolheste gravar muito do Over and Even numa sessão ao vivo?

Prefiro sempre gravações ao vivo do que músicas fragmentadas e demasiado produzidas. Ficam mais vibrantes e vivas, contra a perfeição fria e estéril de alguns álbuns de estúdio de hoje em dia. As falhas humanas aparecem, e eu gosto mais disso.

Costumam descrever as tuas canções como “recheadas de melancolia”. Há verdade nessa afirmação? De onde vem a melancolia?

Não acho que seja melancolia. Mas soa dessa forma em contraste com a música pop. Se queres melancolia, tenta Jason Molina ou Vic Chestnut! Adoro esse tipo de música, mas não tento entrar nesse território. Tento os temas de amor e mudar a forma como me parecem reais, o que normalmente inclui perda e mágoa, mas isso não é necessariamente triste. Acho que depende sempre da interpretação de quem ouve. Mas sou normalmente uma pessoa feliz e esperançosa.

© Michael Wilson

A tua voz é também descrita como calorosa e confortável. Isso sai naturalmente ou é uma sensação que tentas imbuir nas músicas e em quem ouve?

Tem sido um longo caminho, perceber como me separar de afectações e imitações, e fazer a minha voz crescer, porque quer naturalmente 'fugir disso', por assim dizer. Escrevo canções que assentam melhor na minha voz, e a minha voz mudou por isso. Esse calor veio como resultado.

Já estás a trabalhar no próximo álbum? O que podemos saber disso?

Temos algumas músicas no forno, mas ainda estamos a tentar decidir onde e quando gravar. Por agora, estamos a concentrar-nos na tour, mas vou dando notícias!

Fazes parte de outro projeto, Maiden Radio. O que está aí para vir do trio?

Estamos na estrada de momento, a abrir para Bonnie “Prince” Billy em alguns espetáculos da tour dele. O nosso álbum saiu no outono passado e vamos sair para a estrada um pouco mais agora.

Olhando para a música folk atualmente, como descreverias esta ascensão? Porque é que achas que mais e mais gente ouve este género?

Parece-me que as pessoas estão fartas do pop comercial e a virar-se para sons mais interessantes, tanto em música nova e antiga. A música folk é um poço fundo de temas e formas sonoras diversas e estranhas. Um bom paralelo é o movimento cultural gastronómico aqui nos EUA, e noutros lados também: onde a indústria rock e pop não presta, como as fábricas e as plantações fabricadas, e a música folk (e o novo tipo de música que inspira) parece ar puro. Espero que não seja uma tendência passageira. A música tradicional é uma dádiva incrível e uma tradição de que temos de cuidar.
Simão Freitas
spfreitas25@gmail.com

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