ENTREVISTAS
Mãeana
Amor cósmico
· 15 Dez 2015 · 19:05 ·
Foi em 2012, numa brincadeira com alguns colegas de banda (Tono), que Ana Cláudia Lomelino começou a ser apelidada de “mãe aninha”. Em Outubro deste ano, nasceu o disco com o mesmo nome, com contribuições inéditas de Caetano Veloso, Adriana Calcanhoto e outros nomes sonantes do panorama musical brasileiro. Lomelino coloca a mulher num papel até aqui ocupado por um homem – é na mulher onde tudo reside e é ela a Criadora de tudo o que é material (e não só). O mundo de mãeana é um onde reina a tranquilidade. O minimalismo da sua sonoridade e a doçura da sua voz remetem-nos para um outro lugar. Mãeana leva-nos, na sua nave, até aos vários universos que criou, seja para ver os mais belos discos voadores, seja para aprender a amar de novo.
Porquê Mãeana? Dirias que é uma personagem?

Mãeana veio de um apelido carinhoso que meus amigos me deram de brincadeira numa viagem a Bahia - mãeaninha de paiacu. Foi uma brincadeira referente à minha religiosidade diante da energia forte que existe naquela cidade onde moram tantas mães de santo e também a minha maternidade. Não acho que seja uma personagem, acho que é uma entidade banal que pode estar em mim, mas é muito maior do que eu e acessível a qualquer um.

Disseste numa entrevista que tiveste a necessidade de te afastar dos Tono, banda de que és vocalista, para este trabalho. Porquê?

Na verdade, não me afastei dos Tono. A baixista e o guitarrista continuam os mesmos neste novo disco, não me lembro de ter dito isso… (risos). Mas foi tudo muito natural e hoje vejo que existe uma diferença enorme entre ser uma banda e ser uma nave. Mãeana é uma nave que carrega muito mais que músicos. O tono é um coletivo primordialmente musical.



Tens canções compostas especialmente para ti neste trabalho. Há alguma que se destaque para ti?

Eu gosto muito de todas as músicas do disco, mas a que mais gosto se chama "Dom", que meu amigo João Bernardo fez para mim quando Dom estava ainda dentro da minha barriga.

Que músicas foram compostas por ti? Sentes-te mais ligada a elas por isso?

Apenas "Pérola-poesia" e "Sonho de voo" têm a minha participação na composição. "Dom" também tem, mas foi muito por acaso que acabei mudando um pouco a melodia sem querer e acabei ganhando a parceria. Eu não sou boa compositora de canções, mas sinto que o acaso trouxe um conjunto muito harmónico de canções que amo e canto como se fossem todas minhas. E pelo que me dizem, elas acabam parecendo minhas mesmo.

Disseste numa entrevista que ouves Caetano Veloso desde pequena. Passou a ser uma referência para ti?

Caetano é uma referência muito grandiosa para mim e muitos dos meus amigos e conhecidos. Todos se lembram da primeira vez que o viram e ouviram – é um timbre de muita beleza e muita personalidade. A arte dele é muito inspiradora porque ele é livre, inteligente, justo, muito amável e muito brasileiro. Ele para mim é alguém que sabe a que veio na vida. Um mito vivo, um homem dadivoso, que usa toda sua força e suas possibilidades para transformar o mundo num lugar.

Fazes colecção de bonecos. Por alguma razão específica?

Os bonecos despertam amor em mim e me afectam desde pequena. São representações humanas de tudo que considero mais humano: o amar, o cuidar e o brincar. E ainda, sendo objectos, sempre me instigaram sobre o poder da matéria, seja ela o plástico, a porcelana, o papel, o pano – algo com certeza se fortalece nas moléculas quando existe história, intenção ou outro tipo de carga. Encanta-me muito saber que qualquer átomo é um universo e portanto tudo aqui na terceira dimensão é completamente divino. Bonecos representam também santos e deuses – com todos eles eu quero brincar.

Dirias que este disco é uma ode à mulher?

Sim. É uma ode à mulher e também a todas as uniões que geram vida através dela.

O teu filho teve direito a uma música sobre ele ("Dom"). Ele teve alguma influência na maneira como trabalhas a tua música?

Dom trouxe consigo todo o encanto e confiança que eu precisava para parir também este disco e mais artes em geral.

Falas em discos voadores e num romance espacial. Dirias que este trabalho também tem uma vertente cósmica? Como é que isso se relaciona com a mulher?

A vertente cósmica está em tudo, sim. E acredito que a origem de todos os universos sejam numa mesma fonte primordial. Também acredito que fontes sejam energias femininas. Portanto, para mim, o Deus Criador Primordial cósmico é uma energia feminina. A energia masculina também é cósmica, mas está mais ligada à acção do que ao simples brotar.



Acreditas em discos voadores?

Sim, acredito, claro. Já vi no céu daqui do Rio três discos juntos uma vez. Mas acredito em muitas outras formas de comunicação – busco leituras e telepatias mais subtis e etéreas. A perspectiva de que existe vida noutros planetas e possibilidade de comunicação é fundamental para entendermos nosso papel neste planeta.

Disseste que não tens religião, que bebes de todas as que conheces. Como é que isso te influencia e ao teu trabalho?

No meu trabalho venho descobrindo a possibilidade de transcender através da arte. Isso se desdobra em muitos caminhos diferentes, mas posso dizer que acredito numa quantidade infinita de deuses e deusas, sendo deuses também todos os seres. Temos todos potencial de criadores divinos. A arte para mim é como uma igreja da criatividade e do amor que me leva à salvação.

O que esperas que retirem deste trabalho?

Ainda penso muito sobre o que quero com esse trabalho pois a resposta não é tão nítida para mim ainda. Estou fazendo o que quero e gosto. Estou brincando à vontade com meu caminho. Quero encorajar todos a fazer o mesmo. Também gosto da ideia de ser um som que acalenta e faz repousar.
Rita Neves
ritaneves31@gmail.com

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