ENTREVISTAS
Castello Branco
Espalhar o amor
· 09 Dez 2015 · 11:23 ·
"Com todo o amor", é assim que Lucas Castello Branco se despede sempre. Amor e liberdade estão na base do trabalho do músico brasileiro, que tem emergido nos últimos tempos como um dos maiores talentos da sua geração. Uma infância passada num mosteiro, e tudo o que isso implica, ensinaram-lhe os valores que preza e abriram-lhe o caminho à espiritualidade e à música, através do grupo coral em que participava. Influências que ressoam no primeiro álbum a solo, editado em 2014 e intitulado Serviço, mas onde também não faltam resquícios da música popular brasileira. Dessa e doutras ambivalências, nasce algo singular e despretensioso. Castello Branco volta ao Porto na próxima quinta-feira (10) para um concerto no Passos Manuel, com selo da Bodyspace, e traz novas canções. No próximo sábado (12) faz o mesmo em Guimarães, no Centro Cultural Vila Flor. Quem sabe um disco no próximo ano?
© Rui Oliveira
Além do grupo coral, podes desvendar um pouquinho mais da vida de uma criança, aos olhos dela, num mosteiro. Que rituais, que hábitos?

Acordar com o sol e se recolher com o sol. O ensinamento da vida nos sonhos. Acabei tomando gosto por dormir já que tinha e ainda tenho vivências incríveis nos sonhos. Tínhamos jejum alguns dias e, mesmo só vindo a entender os significados profundos dessas coisas depois, fazia parte da minha rotina. Vigília. Algumas madrugadas ir ao cume (onde tirei a foto do meu disco). A janela da capa do disco é a janela da casa de vigília, onde íamos nas madrugadas para meditar.

Acredito que tenha sido uma experiência transformadora. O que ainda trazes de lá para a tua vida hoje?

Postura e conduta honesta com as coisas. Acredito que muito da minha sensibilidade agucei por lá. Ajudaram-e muito com isso. E sim, a experiência lá é transformadora para qualquer ser.

Serviço pode representar ser (ser) e viço (forte), mas o acto de servir tem uma dimensão de bastante submissão. Essa dualidade era intencional?

Sim, bem colocado. Enxergo o ponto de submissão, não bem como uma submissão mas sim como um realizar sem necessitar de algo em troca. Servir ao plano evolutivo é uma conduta puramente altruísta.

© Rui Oliveira

Tu e a tua música tem uma relação muito evidente com a natureza que, num certo sentido, pode ser profano. Como lidaste e lidas com esta transição da dessacralização da música que esteve tão ligada à tua infância?

Gosto quando usa o termo profano. Porque sim, quando temos muita intimidade com alguma coisa, como ser humano, exploramos tudo, temos essa necessidade. Lido com isso sendo muito honesto comigo e com as pessoas. Não sou um monge e minha música não é o único embora eu faça com tanto amor e tanta intensidade que de alguma forma acaba sendo útil e servindo as pessoas que se abrem a isso, assim como ensinamentos arcaicos. Citando Blavatsky: "senhores eu fiz apenas um ramalhete de flores escolhidas, nele nada existe de meu a não ser o laço que as prende."

Sem querer entrar em divagações espirituais. Mas parece-me bastante interessante esta ideia de alguém que vem, suponho, de uma educação religiosa e se torna músico popular. Vês o mundo de duas perspectivas? Ou apreendes melhor o mundo através dessas duas perspectivas?

Vejo o mundo e aprendo o mundo buscando o equilíbrio entre essas duas realidades. é bem isso. (por enquanto)

Existe uma preocupação com a origem/raiz das coisas que se manifesta, por exemplo, quando sentes necessidade de explicar a palavra 'serviço' em entrevista ou mesmo o trocadilho 'crer-sendo', que resulta em crescendo na forma oral. Esta relação com a língua atravessa outras dimensões?

Não me preocupo com isso. É muito natural comigo as coisas nascerem de um mesmo lugar (raiz) mas este lugar nem sempre chego quando quero. Preciso estar muito conectado com meu ser interno para que adentre noutro nível de consciência e me consiga conectar e receber as coisas de maneira mais clara.

O processo de criação está muitas vezes associado a uma prática solitária, de isolamento. Acreditas nisto ou, por outro lado, que a obra só surge na relação com o outro?

A criação é livre e pode acontecer de todos os modos que puder imaginar. Não existem regras. São muitos processos, cada qual de acordo com a persona e o ser daquele que recebe. Uma coisa é fato, precisa estar livre, a chave, mais uma vez ela: liberdade. Como a amo!

© Rui Oliveira

Têm surgido vários artistas brasileiros no circuito alternativo com projecção internacional a cantar em português do brasil. Ainda que não seja um movimento, consideras haver elos de ligação entre vários (refiro-me a Cícero, Ava Rocha, Marcelo Camelo, Mallu, Rodrigo Amarante, Silva, etc)?

É isso. Já conseguimos enxergar as gerações acontecendo. Não ligo muito a isso, mas Portugal tem dado tanta moral à música brasileira que fica impossível não detectar nossos guerreiros quando aparecem e os que já estão há mais tempo no front pela comunicação profunda e educando de maneira doce o mundo. Clap clap clap.

Deixa-me voltar à tua infância para te perguntar: qual era a tua relação com a música popular brasileira até saíres do mosteiro?

Quase nenhuma. Ouvia umas coisas que vinha do carro do meu pai como Gonzagão e Gonzaguinha (eles tem um disco juntos maravilhoso), Caymmi, Caetano, Gil, Marisa Monte, Marina, mas eu não sabia quem eram, só ouvia as canções de fundo. A minha paixão é Enya. Ouvíamos muito lá, conheço todas as músicas e discos. (risos) Ela é a figura maior para mim.

Tanto quanto sabemos há novo disco para sair eventualmente em 2016. O que nos podes dizer sobre ele?

Não sei se ainda estou com a maturidade certa para ele. Estou entrando nesse ciclo mas não sei quanto tempo ele vai durar. Tudo o que sei é que vai chegar. (sorriso)

Estiveste por cá em Maio. O que achaste do país?

Portugal é lindo! Quero vir morar cá uns tempos. Entender melhor este país. Gosto do Porto, da região do Douro… Quero conhecer a serra da estrela também.

O que nos podes desvendar acerca dos concertos em Portugal?

O formato que estamos a fazer é especialmente para Portugal. Reduzimos alguns instrumentos a loops que ficam a soar enquanto as guitarras passeiam com a voz. Mais uma vez o mais importante é o que está a ser dito, o "como" é somente um aliado. (sorriso)
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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