ENTREVISTAS
Monkey Plot
Macacadas, ou não
· 12 Out 2015 · 16:38 ·
Se ainda não leram a reportagem do concerto que teve lugar no Desterro, na passada semana, deixem-me salientar novamente: estavam lá sete pessoas. Todas elas atraídas pela beleza infantil de Angående Omstendigheter Som Ikke Lar Seg Nedtegne, álbum que um não-norueguês terá dificuldade em pronunciar (eles, contudo, ensinaram) onde encontramos uma espécie de folk improvisada e vital, uma brincadeira de criança em florestas encantadas. Numa entrevista em modo guerrilha - olá, escrevo num site que ninguém lê, podem falar comigo dez minutos? -, feita após o concerto, os Monkey Plot abriram ligeiramente o véu e contaram-nos como chegaram até esta música. Ah, e para não comermos salmão da Noruega. Lembrem-se disso da próxima vez que forem ao supermercado. Christian Winther (guitarrista), Magnus Nergaard (baixista) e Jan Gismervik (percussão), em discurso directo ao Bodyspace.
© Colin Eick
Quando começaram a tocar juntos?

CW: 2009, creio. Juntámo-nos na Norwegian Academy of Music, no departamento de jazz e improv.

É esse o vosso background, todos estudaram música?

CW: Sim, é. Conhecemo-nos lá e começámos a tocar juntos, coisas free jazz, música ao estilo do Jimi Hendrix, tudo ao mesmo tempo... Depois apercebemo-nos de que aquilo era uma treta e decidimos começar a tocar música a sério.

Tenho uma amiga que adora black metal e que aprendeu a falar norueguês, que no outro dia gozou comigo por não saber pronunciar jeg elsker deg. Podem ensinar-me a pronunciar o título do vosso álbum para lho esfregar na cara? E o que significa?

MN: [pronuncia] Angående Omstendigheter Som Ikke Lar Seg Nedtegne. Significa "Em Relação a Circunstâncias que não Podem ser Gravadas, ou Escritas".

Que circunstâncias foram essas?

MN: Não sei. [risos] Não as podes dizer, não as podes escrever, não as podes gravar. É um segredo. Pode ser que esteja escondido na música. CW: Na verdade, não fomos nós que pensámos neste título, é de um amigo nosso, sueco, que no-los deu.

Alguma vez tinham tocado para tão pouca gente?

CW: Sim, já tocámos para uma pessoa, para nenhuma, para um gato... Uma vez tocámos para três.

MN: É esse o nosso recorde.

JG: Mas também já tocámos para muito mais gente, é importante mencioná-lo... [risos]

© Colin Eick

É triste, mas também tem um lado positivo: retira-vos a pressão...

MN: Não, a pressão que sentimos é sempre a mesma, a de que temos que fazer o nosso melhor apesar do resto.

JG: Sim, e ter pressão é bom. Falo por mim. A pressão é um auxiliar, quando tocamos ao vivo.

CW: Nós gostamos de tocar em salas pequenas - é corolário da nossa música, porque é acústica; quando tocamos para grandes audiências, temos sempre que ter em atenção os microfones, o volume, é um ambiente diferente. Mas gostamos das duas coisas. E não, não sofremos de stage fright...

Como se desenrola o vosso processo criativo?

CW: É um trabalho colectivo. Tudo o que fazemos é improvisado.

A maior parte das críticas que li ao vosso disco encaixotavam-vos no jazz, mas esta música, pelo menos para mim, encontra-se mais próxima de uma certa ideia de folk... Concordam?

MN: Sim! Não é, definitivamente, jazz. O que existe de jazz nesta música é o conceito de improvisação, é o que de lá retirámos.

CW: Ouvimos bastante folk: norueguesa, africana...

Porque, ao ouvir o disco, isto traz à cabeça um estereótipo que possamos ter de folk escandinava...

CW: Não, não é escandinava. Não soa a isso...

MN: Talvez soe assim para quem não conhece... Mas não sei: nós não achamos que isto seja especificamente folk norueguesa. Claro que a ouvimos, mas temos muitas outras influências.

Como por exemplo?

CW: Rock. Demasiadas bandas para indicar alguma em concreto...

MN: Tudo o que seja Noh [teatro japonês], folk norueguesa, Sonic Youth...

Qual é o vosso disco preferido dos Sonic Youth?

MN: Talvez aqueles da SYR [Sonic Youth Records]. Aquele em que tocaram uma música do Cornelius Cardew.

CW: Esses são muito bons, são aqueles em que há mais improvisação.



Notei, quando estavam a tocar, que a vossa música oscila entre o som, o espaço e silêncio - havendo sempre uma calma que rodeia toda a música. E que todos vocês, individualmente, parecem interiorizá-la; dá a ideia de que tocam individualmente, absortos uns dos outros. Quando se apresentam ao vivo, é a noção de espaço e de silêncio o mais importante?

JG: Não creio que toquemos individualmente, nem que estejamos sempre, cada qual, a seguir aquilo que os outros fazem. Começamos com uma coisa e vamo-nos adaptando ao que está a acontecer. Eu, pelo menos, vou tocando o que surge e, se me apetecer, vou por outro caminho. E eles é que decidem se se juntam a mim ou não.

CW: Sim, há alturas em que tens de ter iniciativa. Temos que tocar por nós, mas sabendo que se um de nós tiver a iniciativa de começar algo na música, os outros poderão juntar-se - e a música tornar-se-à em algo diferente. É como uma conversa. Isto quer dizer, claro, que nenhum dos nossos concertos soa ao mesmo.

Creio também que há uma qualidade na vossa música que diria "infantil"; dá a ideia de que estão ali a brincar, e até poderia traçar um paralelo com a expressão "fazer macacadas", que poderão ou não conhecer... A infância é uma influência na vossa música?

CW: Estás a fazer essa pergunta só por nos chamarmos Monkey Plot? [risos]

JG: Enquanto artistas, queremos que a nossa música seja clara; mas, ao mesmo tempo, não queremos ser "virtuosos". Queremos que a música seja clara e simples.

Algo como o punk, portanto.

MN: Sim, algo que seja simples. Mas concordo, há um lado infantil; parte é dessa vontade de manter as coisas puras.

CW: Para mim, a música feita por guitarristas "virtuosos" é muito mais infantil...

Já estão a pensar no futuro?

CW: Estamos a trabalhar num disco novo. Será composto por canções e não por improvisação... [risos] E será eléctrico. Claro que haverá improvisação, baseada no mesmo material musical, mas será diferente.

Estão em digressão pela Europa de momento, certo?

MN: Sim, já passámos por dezasseis países, e já estamos a trabalhar na próxima. Vamos até à África do Sul, América do Sul e Norte, França e Itália.

JG: Trabalhamos sempre a pensar no futuro.

Algum sítio específico onde gostassem de tocar?

MN: Brasil, Argentina e Chile, talvez.

JG: Que será em Janeiro.

Há mais alguma coisa que gostassem de dizer?

CW: Não comam salmão norueguês. São criados em "quintas para peixes", não é peixe fresco... Mas podem continuar a comer bacalhau! Trabalhei numa fábrica onde o processavam para exportar para Portugal, e asseguro que é muito bom... Já o salmão: fujam a sete pés.

Mesmo o do IKEA?

CW: Sim. Fujam!
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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