ENTREVISTAS
Mazgani
Canto da urgência
· 08 Out 2015 · 16:14 ·
Não se tratava de estar pronto para interpretar grandes canções da pop-rock, mas antes de estar pronto para falhar. Nesse sentido, a essência de Lifeboat reside num humilde acto de coragem, de refazer canções mesmo sabendo que nunca seriam melhores que as originais. Nasceu um ano após a revolução de Abril, e foi graças à Revolução Iraniana, em 1979, que Mazgani e a família se mudaram para Portugal. Nunca lá voltou. Na música, ganhou projecção internacional ainda antes da edição do primeiro álbum, ao ser considerado um dos melhores 20 novos artistas europeus pela Les Inrockuptibles, em 2005. Desde o álbum de estreia Song of the New Heart (2007), já lançou mais três discos e mais alguns EP's pelo caminho. Antes deste último trabalho, houve Common Ground, produzido por John Parish e Mick Harvey, colaboradores de PJ Harvey e Nick Cave, respectivamente. Por cá, trabalhou lado-a-lado com Pedro Gonçalves, dos Dead Combo, no EP Tell the People, lançado em 2009 pela Optimus Discos. As músicas escolhidas para Lifeboat salvam o mundo de Mazgani: um mundo em que talvez seja possível saber como acabam os amores mas dificilmente se saberá como começam.
Um álbum de covers, porquê e porquê nesta altura?

Não sei se é possível dar uma razão válida para ter gravado este ou qualquer outro álbum. Todos os discos foram sem razão. Talvez um motivo importante tenha sido a vontade de cantar estas canções e de só agora me sentir pronto a falhar neste empreendimento. Sabia de antemão que todos os originais seriam insuperáveis.

Pode dizer-se que é a sua vida musical, as suas memórias, num disco?

Acho que pode ser visto como um “disco de memórias”, como serão todos os discos. Nesse sentido, as diferenças entre um disco de originais e um de versões não serão muitas. É de memórias vividas, ou construídas, ou roubadas, que se fazem os discos.



Como fez a seleção das canções para este disco?

Com alguma dificuldade. A lista de canções que poderia constar neste disco seria infindável. Talvez um critério para a escolha - o fio condutor - tenha sido uma certa urgência que atravessa todas as histórias. E penso que é essa urgência que faz cantar.

Em que se distingue o processo de criação um álbum de originais e este?

Julgo que em ambos os casos tem que se conviver com as canções, com as palavras, para as podermos cantar com autoridade. Esse processo é idêntico em ambos os casos. Mesmo quando cantamos originais, o desafio é tornar a história que contamos nossa.

Como começa a tua relação com a música? No Irão, ainda? Ainda guarda algo de lá?

Guardo muito de lá, mas não sei se é possível responder como começa a nossa relação com as coisas que amamos. Talvez seja possível saber como os amores acabam, mas é difícil saber como começam estas coisas. Ouvia alguém dizer no outro dia que é como responder à pergunta: "quando foi a primeira vez que ouviste um passáro a cantar?".

Há algo que é inevitável perguntar… Por que não a influência da música portuguesa ou iraniana?

Essa influência pode não ser evidente ou sentida de forma alguma mas é possível que exista. Não sabemos o que faz sermos o que somos mas certamente todas as estradas que percorremos serão fundamentais.

© Rita Carmo

Estas 20 canções salvam a sua vida ou salvam o mundo?

Estas canções salvam o meu mundo.

De que formas se tentou abstrair dos originais? Interessava-lhe o distanciamento?

Interessava-me apoderar-me e contar a minha história através destas canções. Esse talvez tenha sido o critério para o distanciamento ou a aproximação. E também, evidentemente, o lado estético ou plástico. Era importante dar uma roupagem às canções que permitisse que convivessem de forma coerente.

Disse que não tocar guitarra o libertava no sentido físico. Isso vai reflectir-se nas actuações ao vivo?

Espero que sim. O desejo é cantar com o corpo todo.

Quais são os planos para um futuro próximo?

Actuar ao vivo, fisicamente liberto.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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