ENTREVISTAS
Dan Deacon
A música enquanto meditação
· 31 Mai 2015 · 19:01 ·
Dono de uma discografia capaz de encher mil e uma carreiras, cheia de sonhos, experimentações e deambulações pop, Dan Deacon sempre foi um artista imprevisível, predisposto a mudanças erráticas e abruptas de álbum para álbum, titubeando entre o mundo electrónico e o analógico. Gliss Riffer, lançado em Fevereiro passado pela mui nobre Domino, é o mais recente tomo desta odisseia do norte-americano pelos recantos mais tresloucados da música pop; tendo-o como partida e embalados pela passagem que o artista tem anunciada para o próximo dia 6 de Junho pelo Palco Super Bock do NOS Primavera Sound, fomos falar com este artesão. Aqui fica o que daí saiu.
Gliss Riffer foi, no geral, alvo de críticas bastante favoráveis; após 12 anos nesta “indústria”, ainda ligas ao que a impressa diz?

Em algumas coisas ligo muito mais do que comecei, e noutras ligo muito menos. Quando comecei não recebia atenção nenhuma da imprensa e por isso nem sequer queria saber, era como se fosse um universo totalmente separado do meu. Não tinha nem boas críticas nem más críticas porque não tinha críticas nenhumas. Agora tenho-as, e claro que adoraria que fossem todas positivas mas, de certa forma, estou apenas feliz por tê-las. É bom saber que alguém ouve os meus álbuns e “perde” tempo para partilhar os seus pensamentos com outros. Independentemente de ser bom ou mau, tudo o que um artista pode esperar é diálogo acerca do seu trabalho.

Um crítico português escreveu, numa review a Gliss Riffer, que andas a “perseguir a canção pop perfeita”; concordas com isto? E se sim, como é que está a correr a “busca”?

A “busca” não está a correr nada bem simplesmente porque não a estou a fazer. Só faço a música que está dentro da minha cabeça; por vezes é pop, noutras é noise ou drone. A minha música pop costuma ter um orçamento de gravação maior e um lançamento mais ambicioso, enquanto que o meu material mais experimental tende a ser lançado em cassetes através labels mais pequenas, publicado no meu Soundcloud ou apenas tocado ao vivo, sem nunca ser gravado. A minha única “busca” centra-se em fazer a melhor música que me é possível fazer, e há muito tempo que deixei de fazer ideia de como está a correr.



Neste disco encontramos uma canção intitulada “Meme Generator”. És uma pessoa com “experiência de internet”? O que tens a dizer sobre a chamada “cultura da internet”?

Acho que a cultura da internet é muito parecida com o ensino secundário; há coisas que são incríveis e muito divertidas e outras que são terríveis, dolorosas e tristes. Gostava muito mais da internet antes de se ter centrado num punhado de websites gigantescos, quando estava dispersa em milhões de sítios pequenos e estranhos.

O teu disco anterior, America, foi inspirado pela geografia do continente norte-americano e pela forma como este contrasta com a sua política; de onde veio a inspiração para este Gliss Riffer?

Veio essencialmente da minha vontade de relaxar e de descobrir o porquê de estar tão viciado no stress.

America era, ao nível conceptual, um disco bastante óbvio e ambicioso, especialmente no quadríptico de “USA” que fecha o LP; Gliss Riffer, por outro lado, parece ser uma colecção bastante simples de canções pop. Há algum tema subjacente que não estamos a conseguir apanhar, ou este disco nasceu apenas de uma necessidade de “acalmar” e criar livremente, sem um conceito a pender sobre a tua cabeça?

Ao nível da produção, este disco é o inverso do America; enquanto que America foi um disco feito com instrumentos acústicos tratados de forma electrónica, Gliss Riffer foi gravado com computadores e electrónicas tratados de forma acústica. Liricamente, os temas deste disco prendem-se com a dúvida, o stress, a ansiedade e todo um questionamento do papel da consciência no pós-vida.

Musicalmente falando, Gliss Riffer tem um som muito mais “alegre” e “optimista” que os teus trabalhos anteriores; isto é um reflexo do que se está a passar na tua vida actualmente?

Os instrumentais, que são a parte por onde começo sempre quando estou a fazer um disco, tendem a nascer dum fluxo de consciência e são a minha forma de escapar dos aspectos mais duros da realidade durante algumas horas. De certa maneira, chega a ser muito parecido com meditação.



America era, admitidamente, um disco político, nascido de “frustração, medo e raiva” em relação aos Estados Unidos; quase três anos depois, continuas a sentir-te assim em relação ao teu país?

Sim, mas estou mais entusiasmado para ver qual o grau de percepção do resto do mundo em relação às grandes mudanças que já se avistam no horizonte. Só espero que lidemos bem com todas essas mudanças.

Tens feito pausas cada vez mais longas entre discos (de mais ou menos três anos), por oposição ao ritmo frenético dos teus “primórdios”. Houve alguma alteração no teu processo criativo, ou decidiste apenas relaxar o teu ritmo de trabalho?

Eu dou cerca de 200 concertos por ano e trabalho imenso no mundo da música clássica contemporânea, faço digressões de comédia e estou envolvido em imensos projectos, e por isso não tenho muito tempo para estar a mandar cá para fora discos pop uns atrás dos outros. Para além disso, para ser inteiramente justo, o último registo saiu há dois anos e meio, e não três.

Os teus espectáculos ao vivo são conhecidos por serem “estranhos”, exigindo um envolvimento do público fora do normal; tendo em conta que tens concerto agendado para o NOS Primavera Sound, podes dizer-nos que expectativas podemos ter para este concerto?

O melhor é ir sem quaisquer expectativas.

Já agora, para terminar: visto que o título deste disco é “Gliss Riffer”, podias dizer-nos quais são alguns dos teus riffs preferidos de sempre?

“#5” dos Arab On Radar, “Ride the Sky” dos Lightning Bolt, “Opening (from Glassworks)” de Philip Glass e “I Want You (She’s So Heavy)” dos The Beatles.
João Morais
joao.mvds.morais@outlook.com

Parceiros