ENTREVISTAS
LASERS
As cidades invisíveis
· 05 Set 2014 · 11:05 ·
João Lobato tem vindo a construir uma casa para si mesmo nos últimos anos. Uma casa onde colocar um sofá, uma televisão, uma mesa de cabeceira; um local onde pousar as malas. Mesmo que em cidades diferentes. Chamou-lhe LASERS. O motivo não sabemos. Mas o que o move é evidente e não engana: a música electrónica. Depois de momentos de busca, depois da procura por uma estética, João Lobato chegou à fórmula mágica e tem vindo a aprimora-la desde então. No EP lançado em 2012 pela Bad Panda Records, João Lobato mostrou e provou tudo aquilo que LASERS é e pode ser no futuro: uma espécie de máquina orgânica que absorve melodia a cada viagem, a cada experiência. Em entrevista, João Lobato passou LASERS pelo Raio X, deixando à vista o caminho percorrido e o caminho a percorrer. No próximo dia 13 de Setembro é um dos nomes apontados para o NOS em D'bandada, onde apresentará um novo set com muitas novidades.
Comecemos pelo princípio. Como começas a fazer música e como chegaste até à música electrónica?

Desde os quatro ou cinco que andei em escolas de música, onde aprendia guitarra, percussão e piano. Mas comecei finalmente a fazer música quando arranjei uma cópia do Ejay para PC, tinha para aí uns 12 anos. Era um software de criação de música "drag & drop" à base de loops. Fartei-me rapidamente daquilo porque não podia criar propriamente nada de novo e mudei-me para o FruityLoops, onde comecei a fazer uns beats de Hip Hop. Acho que o que me fez chegar à música electrónica foram as ferramentas que utilizava na altura: computador e software. Do Hip Hop, passei à música electrónica de dança e depois andei uns anos "perdido" musicalmente, sem grande coerência na música que fazia.

Como chegas até LASERS? Chegaste musicalmente a LASERS de uma forma natural? Era algo que já trazias na cabeça, no palato?

O conceito de LASERS só se começou a formar depois de entrar para a faculdade, onde estudei música electrónica e produção musical. Conheci imensa gente nova ligada ao mundo da música, todos com backgrounds diferentes, o que me fez crescer bastante como músico. Aprendi muito, tanto dentro, como fora da sala de aula. Comecei a levar mais a sério a criação de uma identidade musical coerente e a sonoridade de LASERS acabou por acontecer quando me mudei para a Holanda para continuar os estudos. Acho que tudo o que precisava era somente de viver e conhecer mais do que até então. Peguei em alguns elementos que me interessavam dos tempos em que fazia Hip Hop, como o sampling, e juntei-os ao conhecimento que fui adquirindo até aí. Tudo isto aconteceu naturalmente, sem pensar muito, no meio de muitas viagens e ambiente Erasmus. Senti que tinha chegado a um ponto em que toda a música que criava estava dentro de uma certa estética, finalmente.



Estiveste três anos a viver na Holanda. Foi uma fase importante do crescimento como LASERS? Conseguiste mostrar por lá o teu trabalho?

Como disse anteriormente, sim, foi bastante importante. Foi lá que o som de LASERS, como existe hoje, começou a desenvolver-se. Acabei por ficar mais tempo do que o período de Erasmus e comecei a conhecer personagens da cena musical Holandesa. Daí a começar a colaborar com um artista visual japonês, Takuma Nakata, e a apresentar a minha música ao vivo em concertos audio-visuais, foi um instante. Foi também nesta fase que o EP LASERS foi composto.

Olhando para o teu último EP, parece-me que as cidades têm uma grande influência na tua música. Achas que a arquitectura, os hábitos, as vivências das cidades… Achas que tudo isso se repercute na tua música?

Acho que a minha música é bastante urbana, mas no fundo o EP tem mais a ver com o acto de viajar. As cidades que deram os nomes às músicas são algumas daquelas por onde passei e que mais me marcaram visualmente e emocionalmente. Inevitavelmente, uma delas é a cidade de chegada, a minha cidade. A minha música só existe desta maneira porque viajei e vivi o que vivi. Desconfio que se nunca tivesse saído de Portugal, LASERS não existiria. Pelo menos, não desta forma.

O Porto é, ainda assim, a maior influência na tua música?

Não diria que é a maior influência, mas tem um papel bastante importante, uma vez que foi aqui que cresci e para onde voltei (ainda que já esteja a pensar partir novamente).

Sentes-te parte de alguma realidade musical em Portugal. Ou seja, há algum grupo de criadores com o qual te identifiques particularmente?

Sinto-me parte de uma nova vaga de música portuguesa, não só electrónica, que acredito que é, mais do que nunca, capaz de vingar pelo mundo fora. Que não se destina somente a consumo nacional. Por outro lado, no que toca ao nicho da música electrónica em que me movo mais, acho que estou um bocado isolado. Começa a aparecer mais música do género, mas falta gente a tocar por aí e a ser reconhecida, tanto em Portugal como lá fora. Consumidores para este género de música não faltam em Portugal!



Parece-te que esta é uma boa altura em Portugal para fazer a música que fazes?

É definitivamente a melhor altura na história da música portuguesa para estar em Portugal a fazer este tipo de música, mas acredito que teria algumas vantagens em estar a fazer o que faço noutro país. Isto, infelizmente, aplica-se a muitas outras actividades que não a música.

O que te apetece dizer acerca da Lei da Cópia Privada?

Sinceramente, não me apetece dizer muita coisa. A não ser para dizer que quem vai ganhar com isto não vão ser definitivamente os artistas que "eles" usam como bandeira de toda a farsa que é esta lei (refiro-me, claro, ao facto de utilizarem como justificação para a actualização da lei, que as receitas são para compensar os direitos de autor).

Ouvimos dizer que estás a preparar um set diferente e música nova para o concerto da NOS em D’bandada. O que nos podes contar acerca disso?

Ouviram bem! Para o concerto da NOS em D'Bandada estou a preparar algumas modificações ao nível do material musical e das formas de apresentar esse material ao vivo, que espero que sejam mais interessantes e recompensadoras para o público e claro para mim. Mas nada como aparecer por lá para verem do que falo!

Para quando um disco de LASERS, um álbum?

Ainda me ando a decidir quanto a isso, mas o mais provável é que ainda haja um outro EP antes de um álbum. Muito brevemente, vão sair algumas músicas soltas, incluindo uma participação na compilação de uma editora do Porto e Hamburgo, a Container!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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