ENTREVISTAS
Rodrigo Amarante
A arte de começar tudo de novo
· 29 Abr 2014 · 01:07 ·
Los Hermanos, Orquestra Imperial ou Little Joy. Depois de fazer canções em boa companhia ao longo das últimas décadas, o brasileiro Rodrigo Amarante decidiu lançar-se numa carreira a solo que produziu o fabuloso Cavalo, o disco de estreia que é editado em Portugal por estes dias. Rodrigo Amarante quis começar tudo de novo, assumir a coragem de colocar o contador a zero e construir tudo a partir daí. Porque a reinvenção é em tudo uma arte. Em entrevista, Rodrigo Amarante falou-nos do inevitável Cavalo - mas também dos caminhos que vieram dar até ele - , de ímpetos, de diferentes linguagens e de escolhas pessoais. Rodrigo Amarante apresenta-se em Portugal em Maio para dois concertos. No dia 5 de Junho actua no Optimus Primavera Sound, no Porto. No dia anterior o músico brasileiro apresenta-se em Lisboa para um concerto na Galeria Zé dos Bois.
Vamos directos ao assunto. Fala-me acerca deste disco. De como é que ele chegou à tua cabeça, de como o passaste para o gravador…

Como é que chegou a minha cabeça é a parte que não sei responder, o caminho até mim quem faz é o cavalo. O que posso dizer é que tentei ouvir às minhas tripas, única memoria confiável do corpo alem dos dedos, e delas desenrolar algum sentido, casar o que elas pedem com o que me dispõe na mente, achar os versos dentro desse engodo.

Há quanto tempo trazias em ti esta ideia de gravar um disco a solo?

Não muito tempo. Só depois do Little Joy foi que eu senti que era hora de fazer isso.

Pergunta óbvia mas mesmo assim inevitável: porquê Cavalo?

Esse disco fala, de um jeito ou de outro, sobre a minha viagem de saída do Brasil, a experiência de ser estrangeiro, o tempo disso e sobre o ato de escrever. Talvez por estar sozinho pela primeira vez a fazer um disco senti que quando escrevo há em mim duas entidades distintas, um que é a pulsão natural de amor pelo processo, pela música e pela palavra mas que não tem compromisso nenhum com a concretização de nada e outro que é aquele que observa essas pulsões e que tem como objetivo organiza-las, depurar, repetir e extrair o que há de melhor nelas. Dessa forma é como cavalo e cavaleiro que em dado momento trocam de função e guia vira quem é guiado. A cavalgada perfeita é quando quase não se usa rédeas, basta a presença dos dois e não é claro quem está liderando, uma utopia que busco com a escrita e que se reflecte nessa metáfora. Há ainda a dimensão religiosa desse nome que no Brasil representa aquele que recebe o espírito dentro do Candomblé e da Umbanda, ou seja, o veículo do externo que, para eles, não é necessariamente externo. Eu gosto disso, acredito nessa falta de limite entre interno e externo. Por isso esse disco é chamado assim.

© Eliot Lee Hazel

Quão pessoais são as letras neste disco?

Tanto quanto queiras. Na verdade não entendo isso de letras pessoais ou não pessoais. Escrevo o que me toca na esperança de contar a história de outros com a minha ou com a que represento. Tudo vem da minha pessoa. Não só elas são pessoais mas com sorte também Fernando Pessoais.

O que significa este disco para ti nesta fase da tua vida?

A magnífica oportunidade de dar mais uma vez o primeiro passo.

Tens ficado espantado com a grande receptividade que este disco tem gerado na imprensa e no público?

Tenho ficado muito contente em ver que há quem ouça, que os ouvidos para quem escrevi existem e que agora posso ir pessoalmente conhece-los!

Isto pode ser uma questão um pouco pessoal, do ponto de vista do entrevistador, mas… “The Ribbon” destaca-se para mim neste disco, elevando-se a todas as outras como uma canção excepcional. Sentes o mesmo? Tens alguma canção favorita neste disco?

Muito obrigado. Eu não tenho favorita mas acho maravilhoso ver que cada um tem uma favorita diferente. É um prémio!

Neste disco cantas em português, inglês e até francês. Como é que surgem estas opções quando estás a escrever uma canção. Como é que uma língua se chega à frente da outra?

Não sei bem, em algum momento da ideia decido ir por aqui ou por ali. A excepção foi "Mon Nom" que escrevi em francês porque achei que era a língua perfeita para aquele tema ou a forma que queria tratar dele.



Regressando ao passado, por breves momentos… O que é que aprendeste nas experiências com Los Hermanos, Orquestra Imperial ou Little Joy que usaste nesta estreia a solo?

Esse é uma pergunta muito mais complexa do que posso aqui resumir. Com cada uma dessas bandas aprendi muito, seria como tentar resumir o que aprendi nos últimos 15 anos, dos 20 aos 35. Mas posso dizer que com os Hermanos aprendi a escrever, com o Little Joy aprendi a escrever em grupo. Com a Orquestra Imperial aprendi a cantar e com o Devendra aprendi a tocar baixinho, para acrescentar as outras bandas.

E o que é que definitivamente aprendeste que evitaste a toda a força?

O que aprendi e que quis evitar com força? Não me lembro de sentir isso nunca. Se aprendo uma coisa não vejo porque evita-la. Se preciso evitar algo então é um vício não um aprendizado. A única coisa que conheço e que evito é o medo. Mas para isso não é preciso força, basta a calma e a confiança.

Parece-me seguro dizer que nos últimos tempos a música portuguesa e brasileira têm concretizado uma certa aproximação. Como vês essas movimentações? Que frutos achas que tudo isto pode trazer?

A música brasileira depois de Caetano e Gil se tornou mais faminta ainda do que sempre foi e nossa fome é de reinterpretar nossa identidade por isso faz muito sentido que a música portuguesa nos tenha tocado tanto, porque dividimos com ela muito.

O que é que te entusiasma na música portuguesa neste momento? O que é que conheces?

Não sei falar desse momento porque vivo um tempo algo destacado na minha pseudo-reclusão. A música portuguesa, sua alma e a delicadeza com que se apresenta sempre me tocou muito e seus temas, espelhados do lado brasileiro, estão em mim muito fortes. Jamais teria escrito "Tardei" não fossem Amália Rodrigues e Dorival Caymmi.

Tens dois concertos marcados em Portugal nos próximos tempos. O que esperas deles?

Ouvintes!
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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