ENTREVISTAS
Filho da Mãe
O mundo é um lugar melhor
· 08 Mar 2014 · 15:35 ·
© Leonor Fonseca
Quando Palácio surgiu no imaginário musical português, ganhou logo aura de inigualável. Era um disco tão perfeito que parecia impossível de replicar, mas o lançamento de Cabeça provou que aquela premissa, já de si frágil, estava condenada a não superar a sua condição. O disco foi aclamado pela crítica, acarinhado pela crítica Voltámos a ser arrebatados por um disco que, perdoem-me a repetição, volta também ele a roçar a perfeição e confirma (não que houvesse dúvidas) Rui Carvalho como uma excepção à regra. Cabeça, editado pela Lovers & Lollypops e ainda bem presente na nossa consciência colectiva, é naturalmente o ponto de partida para uma conversa em que se fala um pouco de tudo - até de como é isto de ser português. Sem mais delongas, senhoras e senhores, este é Filho da Mãe.
Depois de Palácio (e de um split com Linda Martini) como é que este Cabeça surge na tua vida?

Surge como um segundo álbum normalmente surge, com alguma expectativa para ver como vai ser. Mas uma experiência óptima, como não poderia deixar de ser. Tardou no entanto... Mas vendo agora, se calhar ainda bem...

Este disco parece caminhar num limiar de tensão, como se algo estivesse constantemente para acontecer. Concordas? Achas que seria um bom fruto da pressão de o gravar?

Acho que a tensão é algo que vem de mim como guitarrista. Também é algo que procuro. Gosto de ouvir tensão e gosto de, num concerto, passa-la a outras pessoas. Ainda assim sinto muitos mais momentos de calma profunda neste disco. Mas não é uma calma daquelas que faz parte das palmeiras e das bebidas com chapeuzinhos...é daquelas que está sempre à beira de se levantar da cadeira.

© Leonor Fonseca

Isolaste-te muito para escrever este disco? É a música mais pessoal que já gravaste?

Não... Creio que a esse nível é semelhante ao que já fiz antes. É sempre pessoal e lá no fundo, por mais pessoas que tenhamos à volta, é sempre solitário.

Foste para o Espaço Tempo, em Montemor-o-Novo, gravar este disco. O que é que te levou a esta escolha?

Foi algo que surgiu como oportunidade e que não podia deixar de escapar. No entanto já andava com a ideia de sair do meu sítio do dia-a-dia para gravar o disco. Gostava de estar de corpo e cabeça longe das “coisinhas” normais dos dias. Foi dos melhores ambientes de trabalho que já vivi, pelo menos na circunstância em que me encontrava.

Gravá-lo lá influenciou de alguma forma o caminho ou o som do disco?

Claro. Influencia sempre, pelo menos a mim. Agora, como exactamente é que não te sei dizer. Tenho boas imagens na cabeça de não fazer a mínima ideia do que ia fazer com os microfones à frente e o Guilherme a olhar para mim lá ao fundo. Foi uma boa sensação. Acho que no fundo já trazia algures esboçado aquilo que queria fazer, foi só uma questão de o por cá fora. Mas acho que não teria sido igual se não fosse naquela altura e naquele sitio com aquelas pessoas.

Achas que há uma espacialidade – no sentido de se notar um espaço concreto – inerente ao disco?

Não creio que seja concreto... Acho que tem um pouco mais de banda sonora, embora sem filme. Mas sugeriu-me alguma coisa desse tipo. O espaço, deixámos que se ouvisse, fazia parte.

Dirias que a tua música também carrega uma mensagem?

Acho que sim. Mas provavelmente não interessa a ninguém.

Em 2012 tocaste no Maria Matos com mais alguns amigos e o resultado foi sublime. Nunca pensaste em repetir a façanha, talvez até editá-la?

Em repeti-la exactamente não, até porque não creio que seja possível. Haverá hipótese de editar algo, que a partir daí, fomos fazendo. Mas isso é uma estória daquelas que não se sabe bem quando acaba ou como...



Quanto é que a tua carreira em If Lucy Fell influencia o que fazes em Filho da Mãe - se é que influencia de alguma forma? É só na destreza e na técnica?

Não. Creio que poderia dizer que era tudo menos destreza e técnica, embora se calhar, de um modo natural, também o seja. Mas sobretudo acho que ganhei o prazer profundo de tocar ao vivo com If Lucy Fell. Vontade de fazer discos, percorrer todo o sitio e mais algum com uma guitarra. Por um lado não sei sequer se teria interesse em ter uma “carreira” se não fossem aquelas bandas que arranjamos com os amigos- If Lucy Fell é a primeira mais relevante nesse processo, mas já havia algo antes....

Já tentaste tocaste riffs de If Lucy Fell em acústica, ou temas de Filho da Mãe em eléctrica só para ver como soavam?

Alguns deles surgiram primeiro em acústica e eléctrica antes de se fazer a coisa bem em banda, portanto sei como soam. As coisas de Filho da Mãe na eléctrica soam cómicas, mas já adaptei algumas... Seja como for acho que as coisas pertencem ao instrumento para que foram pensadas neste caso.

Numa altura em que o país aparece constantemente à beira da ruína, sentes-te tão português como o teu nome?

Por mais que não o quisesse ou que não mo quisessem, português sou sempre. Isto diz-se sem orgulho e sem vergonha. Bom, algum orgulho e uma boa dose de vergonha na verdade. Estou farto de ouvir gente falar da ruína deste país mas não vou começar numa cegueira a desatar em prantos ou elogios. Há ruína em muito lado do mundo e não tem que se medir tudo pelo salário mínimo... Há muitas coisas boas aqui que não se encontram em mais lado nenhum, não acho que se tenha noção disso no geral. Mas é difícil viver num país que parece que te cospe para fora das fronteiras constantemente, há muita gente a viver com a cara a arrastar no chão há demasiado tempo. É difícil para mim traçar um optimismo infantil só porque parece ficar bem no papel. Mas em relação à música, não a ligo a bandeiras, mesmo que traga alguma lá dentro.
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com

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