ENTREVISTAS
Arcade Fire
O romantismo da rebelião
· 15 Nov 2005 · 08:00 ·
Há quem lhes chame já reis do mundo indie e talvez não seja uma afirmação muito longe da realidade. Funeral colocou os Arcade Fire no centro das atenções, e bem vistas as coisas os motivos são mais do que suficientes. Cada canção em Funeral é um episódio cuidadosamente produzido por Win Butler, Régine Chassagne, Richard Reed Parry, Tim Kingsbury, Sarah Neufeld, Jeremy Gara e Will Butler. No espaço de dois anos os Arcade Fire passaram por muita coisa, boa ou má, o que acabou por trazê-los aos dias de hoje: em Junho de 2003 morreu a avó de Régine; em Agosto do mesmo ano Win e Régine casaram e no mês seguinte os Arcade Fire começaram a gravar o disco de estreia.

Em 2004 morreu o avô de Win e Will Butler, e, em Abril, a tia de Richard Parry. Explicado o título do disco de estreia da banda-família baseada em Montreal (Win mudou-se para o Canadá já lá vão alguns anos), urge dizer que o concerto em Paredes de Coura confirmou tudo aquilo que se esperava deles: canções maiores que a própria existência, quase épicas, e a o imaginário inseguro que se faz entre a morte e a vida. Mais do que isso, presentearam a massa festivaleira – mais indie do que nunca – com uma actuação surpreendente, repleta de momentos curiosos e folia em palco.

Algures no backstage de um Paredes de Coura fervilhante, com a banda sonora dos Futureheads de um lado e as gargalhadas contagiantes de Régine vindas sabe-se lá de onde, Win e Will Butler respondem a uma mão cheia de perguntas, riem ou falam entre si e até se confessam fãs do Porto, cidade que haviam visitado antes de terem rumado ao local do concerto. Para 2006, os Arcade Fire planeiam editar novo disco, acontecimento capaz de deixar umas quantas almas à beira de um ataque de ansiedade.
Funeral é de certa forma inspirado pela morte, mas as canções mostram amor e redenção. Funeral é uma espécie de reacção positiva aos eventos que se sucederam no seio da banda?

Win Butler - Nem todas as canções são subordinadas a um tema específico. Acho que estamos interessados em fazer canções sobre emoções complicadas. Sim, as relações são supercomplicadas. Acho que todos sabem, apesar de por vezes fazerem de conta que não são. É muito mais interessante para mim explorar as emoções, ir ao fundo, em vez de “estou feliz, estou triste, a minha namorada deixou-me” ou seja o que for.

Qual é a importância da família, tendo em conta a banda e a forma como escrevem as canções?


Will Butler – Bem, acho que uma família ou qualquer pessoa no mundo é mil vezes mais importante do que a maior parte da música, ou toda a música. Acho que se ignorares as pessoas... não que tenhas de fazer música sobre pessoas ou família... mas se não estás relacionado com as pessoas, mesmo que faças música realmente fantástica, podes acabar todo baralhado e infeliz. Por isso, acho que todos preferimos ser felizes, saudáveis e carinhosos do que sermos músicos com sucesso. Mas era óptimo ser as duas coisas.

Como é que escrevem as canções? É um processo simples para vocês? As canções de Funeral estão relacionadas umas com as outras?


Will Butler – Eu e o Win escrevemos muitas letras juntos. Eu pessoalmente, quando estou... não é uma coisa directa. Gosto de tentar novas canções, tentar ideias similares de um ângulo diferente e tentar expressá-las. Mesmo que seja uma ideia simples, tentar vê-la de uma forma aberta e expressá-la. Mesmo que seja uma coisa pequena.

Funeral foi gravado com a ajuda de um montão de gente. Como é que foram esses tempos de gravação?


Win Butler – Demorou muito tempo, uns oito meses. É muito esporádico, foram uns dois meses se realmente condensarmos tudo. Nessa altura estávamos a tocar concertos para ganhar mais dinheiro e depois ganhar dinheiro para gravar mais uma canção, ganhar mais dinheiro para gravar mais uma canção, dar mais concertos, comprar equipamento. Foi interessante, pois foi o primeiro disco verdadeiro que eu alguma vez fiz. Tivemos muita sorte em termos umas boas condições de estúdio em Montreal onde pudemos entrar e usar, e que pudéssemos pagar. E um grande engenheiro de som – Howard Bilerman – e isso deu-nos a chave para trabalhar muito no som. É duro. Detesto as misturas. Quando finalmente acabas tudo já não queres ouvir as canções de novo.

Will Butler – Ouves tipo mil e uma misturas ligeiramente enervantes e quando finalmente acertas na correcta já não queres saber de nada.

Win Butler – É mais “tirem isto da minha frente”, não é tipo “temos a versão certa”. Lembro-me que na “American Rebellion” começou a sair fumo de repente. Eu tinha todas aquelas misturas e não conseguia realmente notar diferenças nenhumas e disse “fica aquela em que o fumo começou a sair” e aquela era provavelmente a melhor [risos]. Até foi porreiro que a máquina se tenha avariado no final.

Foi quase, quase religioso...


Win Butler – [Risos.] Sim, “usem essa”.


Vêem algumas diferenças entre a forma como as pessoas olham para a vossa música no Canadá e nos Estados Unidos e a forma como as pessoas o fazem na Europa?

Win Butler – Tem de haver. Tem sido muito interessante, tem havido uma resposta muito similar em diferentes sítios. Uma banda como os Oasis, a maior banda do mundo no mundo e no Reino Unido, eles vêm aos Estados Unidos e é tipo: “quem é que quer saber?”. Temos tido experiências similares em quase todos os lados, excepto talvez na Alemanha, não sei. Tem sido muito interessante. As emoções simples parecem ser bastante semelhantes.

Costuma-se dizer que os alemães são pessoas frias...


Win Butler – [Risos.] Demos grandes concertos na Alemanha.

Como é que vêem a música que sai de Montreal? Há os Arcade Fire, os Unicorns, as bandas do selo Constellation...


Win Butler – Quando me mudei para Montreal, as coisas de que tinha mais conhecimento eram as coisas da Constellation. Há uma enorme cena de rock experimental e instrumental por lá que eu achei bastante interessante mas não era muito bem o que eu queria, eu queria fazer música pop. Lembro-me de darmos um espectáculo bastante cedo com os Unicorns e eu odiei. Depois arranjaram um baterista, ouvi-os mais tarde e disse “uau, isto é óptimo”. Mais ou menos por essa altura demos alguns concertos com os Wolf Parade que são uma das minhas bandas favoritas e de repente surgiram bandas pop que tocavam música rock. É estranho. Há todas estas novas bandas pop...

Escreveram uma canção para a banda sonora de Six Feet Under. Acham que os Arcade Fire se relacionam bem com a série?


Win Butler – Bem, nós recebíamos imensas ofertas do género “queremos usar uma canção vossa no LAX” ou em séries miseráveis, coisas de TV e o dinheiro é bastante bom para coisas relacionadas com a televisão e na Merge eles disseram “bem, façam uma lista das coisas que estariam interessados em fazer” e a única que nos interessou fazer foi a banda sonora de Six Feet Under. E tivemos a oportunidade de gravar uma música para lá, o que é bem melhor do que enfiar uma já feita, por isso...

Como é que é que transpor Funeral para os espectáculos ao vivo? O que é que esperam desta digressão? Como é que foram as coisas no Japão?


Win Butler – No Japão foi de loucos.

É sempre, imagino...


Win Butler – Não estamos a tentar verdadeiramente transpor as canções do disco para os concertos, é um pouco mais caótico do que isso. Tocar as mesmas canções da mesma forma não é aquilo em que estamos interessados. É muito mais o espírito da coisa. A maior parte dos concertos que eu vi... se alguém toca uma canção na perfeição, igual ao disco, não é isso que melhor recordas. Quando alguém faz alguma coisa inesperada, alguma coisa estranha, uma corda que se parte... isso é o tipo de coisas em que estamos interessados.

Estão a preparar um novo disco para ser lançado no futuro?

Win Butler – Sim, vamos parar de tocar em breve e depois vamos trabalhar no disco até estar pronto. Vamos trabalhar no Inverno e ver até onde podemos chegar. Nunca se sabe. Trabalhamos muito tempo sem parar, por isso... depende. Vamos ver. Estou entusiasmado por trabalhar nestas canções, há muitas canções em que estou entusiasmado por trabalhar com a banda.

(Bodyspace/Mondo Bizarre 2005)
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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