ENTREVISTAS
Linda Martini
Salvação renovada.
· 18 Jan 2014 · 16:06 ·
A pergunta que abre esta entrevista, é provavelmente a mais honesta que já alguma vez fiz a alguém. A sério. Pensem bem: o que é que se pode perguntar aos Linda Martini em 2014 que ainda ninguém tenha perguntado? Os Linda Martini podem ser vistos como um caso raro de sucesso numa altura em que ainda há quem insista que o rock pode estar para morrer. Se estiver mesmo, Hélio Morais, Cláudia Guerreiro, André Henriques e Pedro Geraldes já cumpriram o seu papel de salvadores. O ano passado cumpriram dez anos de carreira que se traduzem em três álbuns editados e outros tantos EPs. Este equilíbrio mostra paciência e boa gestão do tempo, repartido nas doses certas entre estúdio e muito palco. Pelo caminho arrastaram uma legião de fãs que hoje faz deles uma certeza e uma aposta ganha a cada dia – seja para um concerto ou para o lançamento do disco. A mais recente foi “Turbo Lento”, um disco recebido com calor pelas hostes portuguesas e sobre o qual já não há muito para ser dito. É mais um capítulo na história da banda, cada vez mais igual e fiel a si mesma, sem nunca deixar de se desafiar. Aproveitámos esta altura em que a agitação em torno do disco parece ter amainado, para falar com o Hélio Morais um pouco sobre “não crescer de repente”.
Depois de toda a gente já vos ter entrevistado, o que é que acham que ainda ficou por perguntar aos Linda Martini?

Na verdade, acho que já foi tudo dito sobre este disco. Acho que não nos perguntaram porque é que não temos convidados no disco. Mas também não saberíamos responder muito bem.

Tendo também em conta o vosso background musical, acham que "Turbo Lento" é um reflexo mais claro da vossa essência do que o "Casa Ocupada" ?

Não diria mais claro. É, talvez, uma espécie de resumo de todos os discos que ficaram para trás, mas no momento presente, com tudo o que evoluímos enquanto músicos, pessoas e amigos. Revela uma certa paz e descontração da banda em se aceitar como é. Sentimos que o tempo de provar o que quer que seja, já ficou para trás. Só temos que provar a nós mesmos que conseguimos ser felizes a fazer música juntos.



As letras começam a merecer cada vez mais destaque na vossa música. Vocês constroem a música para as letras, ou as letras para as músicas?

As letras para as músicas. Pontualmente acontece em simultâneo. Mas, antes de mais, somos quatro instrumentistas que compõem juntos. A voz chega depois.

Dirias que há uma portugalidade inata às letras? Não só por serem escritas na nossa língua, mas pelo sentimento que a própria língua carrega.

É natural que haja, porque não só escrevemos em português, como somos portugueses e gostamos de o ser. Por isso, gostamos que as letras transpareçam as nossas vivências, cultura e forma de estar.

Algumas das letras do disco parecem abordar muitas situações e sentimentos que se vivem no nosso país. Essa atitude, de deixar e passar uma mensagem, foi assumida conscientemente?

Não. Mas vivemos tempos de uma maior consciência política e intervenção social. E como tal, somos, consciente, ou inconscientemente, influenciados por isso. Mesmo aqueles que têm, de algum modo, passado incólumes a toda esta agitação e sufoco económico, têm pessoas próximas com muitas dificuldades. Acrescentando, a isto, o total descrédito que os nossos governantes nos vêm merecendo e, com isso, trazendo ainda um maior sentimento de insegurança, naturalmente que as letras vão reflectir um, ou outro apontamento que remeta para a actual situação do país.

Tendo em conta algumas letras (nomeadamente a "Febril" e a "Ratos"), podemos vir a ver alguém dos Linda Martini na política? Até que ponto é que dirias que é uma influência? Não nos revemos na classe política deste país, pelo que seria muito difícil algum de nós enveredar por aí. É sempre uma influência, nem que seja pela negativa.

O nome do disco, "Turbo Lento", é um aviso da idade?

Não. Somos novos e sentimo-nos bem. Tem somente que ver com a forma como fazemos as coisas; de forma democrática. E isso exige diálogo, cedências, etc. Logo, é sempre um processo que por vezes é mais célere - turbo - e outras é mais difícil de gerar consenso - lento.



A masterização deste disco foi feita pelo Andy Van Dette. Como é que foi feita a escolha? Em termos "estéticos", ficaram contentes com a masterização final?

É quem trabalha com o Nelson Carvalho - quem misturou o disco - e, por isso, foi uma escolha natural. Ficámos contentes, sim.

Sentem que os Linda Martini são as pessoas para quem cantam em "Tremor Essencial", as que não quiseram (e souberam não) crescer de repente?

Gostamos de acreditar que sim. Sempre fizemos as coisas à nossa maneira, no nosso tempo e têm corrido bem. O que nos diz que não vale a pena querer demasiado, demasiado rápido. As coisas vão acontecendo. É aceitá-las como nos chegam. Trabalhar e depois receber os frutos desse trabalho, sem demasiadas expectativas.

Com dez anos de discos e palcos nas pernas, que retrato fazem do "circuito musical" em Portugal nos últimos dez anos?

Bandas: do caralho! Salas: escassas. Teatros: a morrer. Festivais: do melhor.
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com

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