ENTREVISTAS
Castello Branco
A energia do serviço
· 07 Jan 2014 · 23:36 ·
O Brasil vive dias felizes de criatividade musical. Nos últimos anos não param de nascer nomes que parecem dizer que o cenário musical brasileiro vive um período de abençoada efervescência. Castello Branco é certamente um desses nomes. Depois de uma experiência enriquecedora com a banda R. Sigma, Lucas Castello Branco arregaçou as mangas suficientes para encontrar coragem que bastasse para se lançar num disco a solo. A sua estreia, Serviço, é um glorioso conjunto de canções que partem da MPB para se fazerem maiores, disparando depois em várias direcções para se tornarem livres. Para perceber melhor como chegou até este disco de estreia, fomos falar com Castello Branco. O que aqui se pode ler em seguida é uma espécie de Raio-X das suas motivações, das suas expectativas, do seu caminho até chegar a Serviço. Memorizem: Castello Branco. Vão ouvir falar muito deste nome nos próximos tempos.
Como é que começa a tua relação com a música? Qual é a tua história?

Meu primeiro contacto com a música foi no mosteiro onde fui criado, chamado Núcleo de Serviço Crer-Sendo, lá, me lembro que com cinco anos já tínhamos um coral de crianças. Depois veio minha relação com o violão. Minhas mães são mulheres que largaram tudo para viver uma vida voltada ao “Serviço”, me criaram até meus 15 anos me ensinando o que é o amor, fé e me dando espaço para que eu me conhecesse como ser humano, me aprofundando em questionamentos honestos e discernimentos ao longo dos anos.

Achas que esse amor, essa experiência no Mosteiro, transparece na tua música de alguma forma?

Sem dúvida nenhuma. Na minha persona também, mas nem sempre. Luto diariamente contra os aspectos involutivos que tenho mas ao mesmo tempo minha arte funciona como um memo, para que eu me atente ao que de facto é importante ter e o que não é.



Como foi o teu percurso com os R.Sigma? Que trouxeste dessa experiência para a tua carreira a solo?

O R.Sigma foi como uma escola. Pude estudar muito a relação fã-artista, o meu comportamento no palco, a minha vaidade perante a tudo isso. Ter uma banda e buscar a fama é bem diferente do que ser um artista por necessidade. Foi bom porque pude ter todo esse entendimento, descobrir o que eu era no meio disso tudo e também viver certos limites que todo mundo que tem banda sabe que passa.

Foi fácil sair dessa experiência e entrar numa carreira a solo? Foi fácil dar esse passo?

Nada fácil. Logo após o fim da banda eu entrei como num deserto. me senti muito sozinho. Mesmo sabendo que eu não iria parar de me comunicar artisticamente, afinal não é uma escolha e nunca foi, eu senti um vazio como que agora tudo teria que morrer (o ciclo) para que outro melhor nascesse em seu lugar. E esse processo na maioria das vezes é doloroso mesmo.

Fala-me deste disco, do Serviço. Como foi chegar até ele musicalmente? O que antecede este disco?

Esse disco, conceptualmente, foi uma necessidade. Eu precisei fazer isso. Independente de sucesso, dinheiro, etc. Precisei dar esse passo em busca do que vivi e estudei durante anos. Musicalmente... Bom, musicalmente eu não quis me amarrar e gosto de ouvir tanta coisa que não quis dar um norte musical, simplesmente quis trazer minhas canções e vesti-las como eu bem quisesse, sem necessariamente estarem todas unidas por um estilo ou qualquer outra amarra.

Fala-me do processo de escrita e gravação deste disco. Foi fácil chegar até ele, foi um processo orgânico e fácil para ti?

O processo de composição, foi um processo gostoso. O mais gostoso. Adoro isso e faço naturalmente durando o dia e a noite. Organicíssimo. O de gravação foi bem mais intenso. Porque eu dei liberdade aos produtores para que arranjassem e organizassem o disco comigo, então, esse processo foi muito cauteloso e super delicado.



Olhando para trás, de que fala o teu disco? Sobre que temas é que achas que o disco se centra?

Como diz o título. Serviço. O serviço é um termo profundo à beça. É uma sabedoria. Sabedoria podemos atribuir a qualquer coisa em nossas vidas. Podemos servir em qualquer ou com qualquer coisa. Quase como doar-se, é servir. Além de que ser (ser humano) e viço (forte) é como um ser forte. Tudo isso faz parte do disco, e da maneira como o disco se materializou. Todos na energia do "Serviço".

Até onde esperas que este disco chegue? Quais são as tuas reais e sinceras expectativas para esta estreia?

A gente sempre espera o honesto, não? Quem não espera o honesto é porque não fez um serviço honesto. No meu caso eu estou bem satisfeito pois todos entenderam e mesmo que não fizessem o gosto, aceitaram aquilo como importante. Sinto orgulho mas não só de mim, orgulho de todo mundo que fez parte disso e extremamente feliz pelo disco estar tomando o rumo que ele tinha que tomar. No final das contas somos todos instrumentos. Espero uma estreia de Serviço com muita beleza, pois anda merecendo isso. E aonde pode chegar eu não sei, o que eu sei é que esse é só o comecinho do caminho.

Como é para ti viver no Rio de Janeiro? Existem muitas oportunidades para um músico como tu na cidade?

Adoro o Rio de Janeiro. Pelo Brasil eu já viajei muito em muitos estados, não todos, mas em muitos e até hoje eu fico com o Rio de Janeiro com toda certeza. Agora a respeito de oportunidade, acredito que como em todo lugar, o artista tem que estar sabendo o que quer e como quer. Quando ele tem plena certeza disso e direcciona de maneira honesta. Em qualquer lugar ele abre espaço.

O cenário musical brasileiro da actualidade entusiasma-te? Alguma realidade musical que te interesse particularmente?

Sim. Eu gosto do que estamos vivendo. Com a MPB e principalmente com o funk. Há-de vir a hora em que o funk terá o respeito total que merece. Mas eu entendo que pra isso ele precise ainda amadurecer um pouco mais.

Que nomes gostarias de destacar dessas realidades distintas?

Na profundidade, Mãeana que ainda não lançou o disco mas esse ano deve lançar, vai ter algumas composições minhas no regisro. Alice Caymmi, Luana Carvalho, Mahmundi, tem um menino do Ceará que muito me comove, não lançou nada ainda mas com certeza irá expor, Caiô. Quanto ao funk eu quis me referir ao movimento, dança e ritmo. Não tenho um artista que eu possa citar pois ainda os vejo faltando muito com o dizer. Mas há-de vir o momento.



Há uma série de músicos brasileiros que vivem neste momento em Portugal ou que vieram cá actuar e aproveitaram para ficar algum tempo a gravar discos, como o Cícero e o SILVA. Entusiasma-te essa ideia?

Lógico. Portugal sempre muito amada e bem dita.

Já estiveste alguma vez em Portugal ou na Europa?

Nunca, tenho nacionalidade italiana pois meu avô era italiano e veio para cá migrando da guerra. Mas nunca tive a oportunidade de conhecer fora do Brasil.

Como analisas toda a convulsão social que, mais activamente ou menos activamente, se sente no Brasil dos dias de hoje? Sentes essas dificuldades na pele?

Totalmente. O Brasil está passando por um período brabíssimo, tentando encerrar um ciclo velho e totalmente baleado. Basta viver aqui e ter um pingo de sensibilidade pra sentir na pele o que é que está acontecendo.

Já começaste a apresentar este disco ao vivo? Quais são os teus planos nesse aspecto?

Ainda não, fiz dois shows acústicos. Estou preparando a banda. Pretendo fazer um show de lançamento do disco início de Fevereiro. Depois, como sempre, vou sentido a real necessidade do ciclo e as portas que abrem, eu entro e as que fecham eu agradeço mais uma vez.
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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