ENTREVISTAS
Acid Mothers Temple
A música dos AMT é de quem a apanhar
· 02 Nov 2013 · 16:39 ·
O mistério em torno dos Acid Mothers Temple adensa-se de ano para ano. Nao pela existencia de mitos, ou sequer pelo anonimato. Talvez o mistério maior em torno da banda que Kabawa Makoto formou há 15 anos, seja mesmo o que eles vao fazer a seguir. Makoto faz q uestao de olhar e aceitar os Acid Mothers Temple não como uma banda, mas como um “colectivo espiritual” que na última década e meia tem espalhado psicadelismo pelo mundo fora, em discos (muitos!), mas principalmente em palco (ainda mais que muitos). A última vez que os vimos, estavam ocupados a transformar o Hard Club em fuzz e tínito (obrigado Amplifest). Para o reencontro, preparam-se para canalizar musicalmente os Black Sabbath, uma mímica muito particular que vamos poder ver na ZDB, em Lisboa e no Hard Club, no Porto. Fomos falar com o xamânico Makoto para saber um pouco mais sobre a sua visão do mundo e a música contida no universo que nos rodeia.
Se calhar a primeira questão não devia ser assim tão óbvia, mas vamos começar por aqui. Porque é que escolheram os Black Sabbath para homenagear e não outra banda qualquer?

Bom, a ideia não foi nossa. Um promotor espanhol perguntou-nos se queríamos fazer uma digressão baseada em versões dos Black Sabbath. Nós ficámso interessados e aceitámos. Depois só tive que escolher os elementos para este projecto e formei uma nova unidade de Acid Mothers Temple chamada Acid Mothers Temple & Space Paranoid. Gosto muito do período inicial dos Sabbath (os primeiros quatro discos), mas eles não me influenciaram muito. Prefiro bandas como os Led Zeppelin, Deep Purple, Pink Floyd, Frank Zappa, Captain Beefheart e música mais contemporânea, étnica, etc.

Há dois anos atrás, disseste numa entrevista ao Ponto Alternativo que funcionavas “como um receptor do universo”. Os Sabbath fazem parte desse universo ou o receptor é “desligado”?

Quando ouço a música dos Sabbath, é claro que gosto. Mas nós vamos torna-las mais profundas e bem mais psicadélicas. São versões, mas acabo por funcionar como um receptor. Acho que qualquer pessoa pode ser um receptor. Acho que é possível pessoas diferentes canalizarem a mesma música, mas interpretá-la de formas diferentes.



E vocês, vão tocar as músicas tal e qual como estão no disco ou vão dar margem à improvisação típica dos AMT?

A música não é estática, nem estanque. Nunca é igual. E muda sempre, consoante as pessoas, as situações, o tempo, o espaço… Para mim, improvisação significa compor (receber a música do meu cosmos), trabalhar o arranjo (através do meu corpo) e tocar (para as pessoas) ao mesmo tempo. Não acho que seja nada de especial, é o mesmo que tocar normalmente para mim.

Imagino que para embarcar num projecto destes, exista uma relação de proximidade muito grande entre os membros da família AMT.

Nós não nos vemos muito durante as nossas folgas no Japão. Quando estamos em digressão, estamos juntos 24 horas por dia, durante mais de cinco semanas, três e quatro vezes por ano – e isto já dura há 15 anos. Cheguei ao ponto em que, para manter a banda, basta haver boa relação e uma boa energia [entre os membros]. Para te ser sincero, já não ensaio desde que formei a banda em 1995. Eu prefiro músicos que não precisem de ensaios, que se entendam sem grandes palavras e prática. Acho que o entendimento mútuo é um ponto mesmo importante. Mesmo para gravar, não nos juntamos. Eu recebo as pistas mais básicas – baixo e bateria – e improviso por cima. Às vezes é preciso fazer um ou outro overdub, mas somos um colectivo espiritual, não precisamos necessariamente de estar no mesmo espaço.



Então como é que escolhes os músicos que andam contigo em digressão?

Tento simplesmente escolher os melhores músicos de acordo com o lugar. Ou seja, tento sempre ter a pessoa certa no lugar certo.

Li algures que vocês costumam adaptar o conceito dos vossos discos ao formato em que o lançam (CD ou LP). Ainda o fazem?

O vinil ou LP tem dois lados e o CD não tem nenhum, estava relacionado com isso. Mas não me importo muito com isso e costumamos lançar tanto em CD como em vinil… Ainda por cima as pessoas ouvem cada vez mais música em iPods e ainda ligam o modo “aleatório”, o que torna o conceito de ter ordem nas canções um bocado inútil… É um pouco triste.

Fazes ideia de quantos lançamentos de Acid Mothers Temple existem por aí?

Eu costumo dizer que a minha música é copyleft e não copyright. Até a editar ou lançar, a música é minha. Mas assim que a edito, deixa de ser minha para passar a ser das pessoas e para as pessoas. Qualquer um pode partilhar a nossa música! Não acho que a música deva ser de ninguém. Música é música e deve ser partilhada por todos.
António M. Silva
ant.matos.silva@gmail.com

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