ENTREVISTAS
Go Suck A Fuck
Chillin´a Purens
· 25 Set 2013 · 00:35 ·
Primeiro surgiu Para O Seu Marido, EP de curta duração onde os Go Suck A Fuck nos abriam uma cortina para o seu pequeno mundo, onde a electrónica se cruza com a infância e a despreocupação quase-punk, trechos de canções aparentemente inacabadas, Casios de brincar e o que mais viesse. Depois, as Maiorga Tapes escancararam a janela, objectos mais trabalhados e cuidados, desvarios por entre ruído, psych, batidas lo-fi, memórias de cassetes VHS aliadas a um je ne sais quoi de groove e uma dose certa de experimentação; nessa maravilha que é a Cafetra, os Go Suck serão talvez a banda mais difícil de se ouvir (porque não há uma guitarra e uma lírica alegre como nas Pega ou n'Os Passos) e, por isso mesmo, a mais injustiçada. Mas esse afecto pela pop que os compatriotas têm também existe aqui, talvez até seja maior - os Go Suck são outsiders dentro de outsiders, herdeiros das viagens de R. Stevie Moore e Ariel Pink, companheiros de guerra de nomes tão obscuros como KWJAZ, gente que quer ser grande mas não sabe ou sabe demasiado bem o que tem de fazer para lá chegar. Antes de regressarem ao Lounge, na próxima quinta-feira, o Bodyspace esteve à conversa com Leonardo Bindilatti, uma das duas caras que compõem o duo.
Qual é a vossa cena preferida do Donnie Darko?

Já não vejo o filme há algum tempo, mas gosto da cena em que a família está a jantar à mesa e a Elizabeth – irmã do Donnie – diz que vai votar no Dukakis e começa a haver uma discussão cliché de irmãos entre ela e o Donnie. É uma cena bué engraçada, até o sermão que a mãe lhes dá no fim da cena está bem apanhado. Foi por causa dessa cena que escolhemos o nosso nome.

Como avaliam o crescimento da Cafetra nos últimos dois anos?

Tem sido positivo de um modo geral - acho que o pessoal da Fetra está mais comprometido com o trabalho, estamos mais organizados no sentido em que cada um sabe qual é o seu papel dentro da Cafetra, e cada um faz o que pode e sabe para contribuir para o seu crescimento, seja a fazer música, a gravar, a marcar concertos ou a distribuir os nossos discos. Ainda temos que aprender bastante mas por agora o pessoal está mais focado e já tem as bases do que deve ser feito. Neste último ano começámos a fazer tours, e mesmo que sejam poucas as pessoas que vão aos gigs fora de Lisboa, há sempre pelo menos uma ou duas que estão lá porque curtem e conhecem a nossa cena. Tem sido fixe estarmos a conseguir divulgar a nossa música em mais sítios para além de Lisboa e até mesmo para além de Portugal. Acho que temos crescido, sim, e não foi nada pelo lado negativo, muito longe disso!

Estrearam-se com Para O Seu Marido em Janeiro do ano passado e desde então lançaram uma série de cassetes – as Maiorga Tapes – em que expandiram o vosso som, de trechos de um minuto ou dois para composições de quinze ou mais. Aquele primeiro EP foi, deste modo, uma espécie de “testar das águas”? Criar temas compridos e mais complexos é aquilo que queriam verdadeiramente fazer com os Go Suck?

Mais ou menos. Tudo o que nós fizemos foi um bocado um teste e uma descoberta para nós, mas a verdade é que nós não temos uma ideia bem definida do que queremos fazer quando fazemos música em Go Suck. Por isso é que talvez as cenas fluem bem e diferem bastante umas das outras, mas como é óbvio queremos sempre melhorar o nosso trabalho.



Em que medida é que Maiorga vos inspira?

É um sitio tranquilo no campo onde dá para se tocar e fazer música à vontade - eu sei que é um cliché dizer isto, mas é a verdade. Quando estivemos em Maiorga, a gravar, o nosso único propósito era tocar sem restrições, quando quiséssemos, às horas que quiséssemos - era só ligar as coisas e tocar que não íamos chatear ninguém, podemos estar à vontade para tudo e, nesse sentido, não há melhor do que terrinhas do campo. Tanto podia ser em Maiorga como em outro sítio, mas neste caso Maiorga é onde temos uma casa que dá para ir lá quando quisermos.

Como se desenrola o vosso processo criativo? Existe uma forte carga improvisacional ou é tudo pensado ao pormenor? Que tipo de equipamento normalmente utilizam?

É sempre diferente, como já referi, mas nós tivemos uma postura totalmente diferente com o Para o Seu Marido em relação às Maiorga Tapes e ao SILVX, porque as músicas do EP não são trechos de improvisos nem nada do género; nós gravámos todas aquelas músicas em casa para o computador - tanto na minha como na do Pestana - e sempre com a preocupação de fazer música que nós gostamos de ouvir, com uma certa descontracção nos temas e que, no conjunto, não fosse uma cena cansativa e chata para quem ouvisse. Gravámos isso com cada um a contribuir com alguma coisa, começávamos por gravar um riff ou uma linha de teclado base e depois íamos acrescentando detalhes as músicas, consoante o que nos soava bem e o que achávamos que era preciso, até sentirmos que a música estava pronta. Pode-se dizer que foi um trabalho de criação de estúdio, passámos vários meses a fazer o EP. As Maiorga Tapes foram uma experiência totalmente diferente logo à partida, porque os temas são todos improvisados e foram todos gravados com um Fostex Multitracker XR -7 para cassete em apenas três dias. Basicamente, as Maiorga Tapes são uma compilação das nossas improvisações durante esses três dias em que ficámos em Maiorga e lá não estávamos propriamente preocupados com o que estava a ser feito - foi o que surgiu no momento e pareceu-nos ser uma boa ideia mostrar o nosso lado mais free, onde se podem ter várias interpretações de uma narrativa. É importante referir que nas gravações estávamos com mais um elemento, o Pedro Saraiva – “Gajo de Go Suck” – e sem dúvida que a presença dele influenciou bastante o resultado final das Tapes. Com o SILVX, eu e o Pestana fomos buscar um pedal que estava para arranjar há algum tempo (um Memory Man) e assim que chegámos a casa ligámos o nosso teclado ao pedal e a um Amp com distorção, começámos a tocar e vimos que estávamos inspirados naquele dia - então, metemos rec num gravador de cassetes antigo que eu tenho (da onda daqueles que os jornalistas dos 70s usavam para entrevistar pessoal), sem grandes expectativas. Quando acabámos fomos ouvir o que tínhamos feito e achámos que as músicas estavam fixes e que o som com que o gravador as deixou trazia uma característica trashy e diferente daquilo que já tínhamos feito antes, e então decidimos lançá-las todas juntas como se fossem um pequeno set. Acho que nós não temos bem um método definido para fazer música; as ideias surgem simplesmente e vamos trabalhando como parece ser a maneira mais “certa” ou a que faz mais sentido consoante com o que temos nas mãos.

Que se segue a seguir a SILVX? Já estão a gravar o disco? Está previsto o lançamento ainda este ano?

Sim, já começámos a gravar o novo disco - temos algumas músicas gravadas mas, sinceramente, não devemos lançar este ano, porque o que nós queremos fazer é um disco da onda do Para O Seu Marido em que vamos ter calma a compôr as músicas e a gravar. Só quando acharmos que temos o que queremos é que vamos lançá-lo. Entretanto nada nos impede de lançar outras coisas pelo meio.



Qual é a diferença de maior entre gravar estes temas e transpô-los para um contexto de concerto? Tentam ser o mais fiéis possível àquilo que gravam ou aproveitam para transformar as canções noutra coisa de diferente?

Sem dúvida que tocar ao vivo sempre foi um problema para nós, porque quando começámos eu e o Pestana não pensávamos que viéssemos a tocar ao vivo com Go Suck, e quando gravámos o Para O Seu Marido não gravámos a pensar em dar concertos, mas assim que o lançámos começaram a surgir oportunidades de gigs e foi aí que começámos a pensar em como [havíamos de] fazer para dar esses concertos. Nós chamámos o “Gajo de Go Suck” para nos ajudar a tocar ao vivo porque pensávamos que tínhamos demasiados detalhes nas músicas para só duas pessoas conseguirem dar conta do recado; ele ainda ficou connosco durante uns tempos e a melhor maneira que encontrámos para tocar com ele foi fazer versões mais livres das músicas que nós tínhamos, e as que achávamos que davam para tocar ao vivo. Chegámos a dar uns concertos que eram puro improviso, mas também não nos sentíamos muito confortáveis a dar concertos só de improv porque acho que não é bem essa a nossa cena. Agora, recentemente, o “Gajo de Go Suck” saiu e nós mudámos uma bocado a onda do nosso set ao vivo, mas sem dúvida ainda estamos à procura da melhor maneira para transpor as nossas músicas para concertos.

Que podemos esperar para o concerto no Lounge?

O gig do Lounge vai ser a primeira vez em que vamos tocar só eu e o Pestana. Acho que o nosso set está mais simples, mas também está mais conciso. Vamos tocar novas músicas, algumas do SILVX e algumas do Para O Seu Marido. E vamos estar a vender CDs e podem sempre contar com o resto do pessoal da Fetra em primeira mão. PROPS RSPCTA!
Paulo Cecílio
pauloandrececilio@gmail.com

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