ENTREVISTAS
Ora Cogan
Magia negra
· 11 Set 2013 · 22:31 ·
Ao terceiro disco, a canadiana Ora Cogan encontrou a magia. Negra, diga-se. Da boa, daquela construtiva. E foi em Espanha, mais precisamente em Castelló, que a encontrou, entre músicos desconhecidos e pomares. A paixão pela música encontrou-a muito mais cedo, influenciada por uma família que lhe ensinou que viver no meio das artes era um futuro possível. Mas antes de Ribbon Vine já Ora Cogan havia encontrado a sua magia - negra ou branca, pouco importa. Harbouring, o seu primeiro disco, editado em 2008, já tinha mostrado que dentro da canadiana estava uma alma curiosa - e um talento natural para a escrita de canções. E The Quarry, lançado em 2010, confirmou tudo isso. Ribbon Vine é obviamente a sua obra maior; um disco de crescimento óbvio e salutar. Para saber por onde andou até chegar a este novo disco, fomos falar com Ora Cogan que em altura nenhuma se desviou de alguma bala. 
O que é que te levou a fazer música em primeiro lugar? Conta-me o lado romântico da história, por favor…

Hmmm… Romântico. Acho que é romântico. Eu cresci numa pequena ilha no mar de Salish. A minha mãe faz música e teve sempre músicos e artistas a ficar em nossa casa. Aconteceu tudo naturalmente, na verdade. Tornei-me amigo de muitos jovens viajantes que vinham à ilha e me ensinavam canções. Acabei por ficar obcecada. A música é sobrenatural. É uma forma tão incrível de comunicar. Ainda me sinto tão apaixonada pela música…

Tu tocas um monte de instrumentos. Qual é a sensação de ser assim talentosa? Qual é o próximo instrumento da tua lista?

[risos] Estou a divertir-me imenso, quem me dera conseguir aprender as coisas mais depressa… Gostava muito de aprender a tocar oud. Gostava de ir aprender com um mestre antigo nas montanhas da Turquia e enfiar na minha cabeça as escalas orientais.



Em que disco sentes que deixaste mais de ti? Alguma vez sentes a necessidade de te proteger nas tuas canções, de tentar ser menos pessoal?

Eu sou uma pessoa privada às vezes, creio, às vezes vou para o mais íntimo e pessoal e outras vezes para o fantástico e o surreal e o expansivo. Neste ultimo disco que gravei, Ribbon Vines, foi necessário mais sangue, suor e lágrimas… Da melhor forma possível. Adorei gravar o The Quarry. Foi uma experiência mágica, com toda a certeza.

Levas muito tempo a escrever as canções e a gravar um álbum ou gostas de o fazer intensivamente? Encontras frequentemente ideias para uma canção? Quantas vezes pegas na tua guitarra durante o dia?

Depende muito do projecto. Quando nós gravamos o Ribbon Vines tínhamos apenas três dias no estúdio com uma banda de quarto elementos… Por isso foi tudo feito ao vivo e muito intensivamente. Com o The Quarry gravamos o álbum duas vezes e ao longo de dois meses. Por isso foi um pouco mais relaxado. Adorei fazer os dois discos. Em relação a tocar guitarra, tenho Alturas em que toco guitarra a toda a hora e outras em que raramente lhe pego… Ou então foco-me no violino.

Como é viver em Vancouver? Disseste-me uma vez que vivias numa parte particularmente difícil da cidade e que fazias imenso trabalho comunitário….

Já não vivo na cidade. Adoro viver no campo, encontro muita inspiração a passear pela floresta e ao estar em locais isolados. Passo algum tempo a norte em BC, algum tempo numa quinta nas Montanhas Kootenay e agora estou em Vancouver Island. Vancouver foi incrível. É uma cidade incrível para visitar com muito talento musical a nascer.



Li que a capa do teu segundo disco foi tirada numa escadaria de um hotel em Castelló, na Espanha. Consegues divertir-te alguma coisa em digressão?

Sim, divirto-me sempre imenso. Os meus colegas de banda e eu estamos sempre ansiosos por aventuras e tentamos sempre fazer o máximo possível entre os soundchecks e a hora do concerto. Do género, andar por edifícios abandonados, encontrar o melhor bar da cidade, conhecer novas pessoas. É sempre uma sensação tão excitante conhecer uma nova cidade…

Lançaste um novo disco recentemente. O que é que nos podes contar sobre ele?

O novo disco chama-se Ribbon Vine e foi lançado na Hairy Spider Legs este ano. Foi gravado em Castelló com um fantástico grupo de músicos que são agora a minha banda. Toda a gravação foi incrivelmente mágica e cheia de pressão. Ensaiamos numa cabana que ficava num pomar e gravamos o disco num estúdio todo luxuoso em Castelló durante três dias. Foi como um sonho. Eu nem sequer conhecia o Marcos, o meu baterista, até ao dia em que começamos o álbum e agora ele é como o meu irmão perdido em Espanha. É um projecto muito bonito e eu espero que as pessoas gostem do disco tanto quanto eu gostei de o gravar…

Este novo disco soa-me mais escuro que qualquer outro disco teu. Concordas? É sinal dos tempos?

Sim, é um disco escuro. Foi uma experiência bastante mágica estar em estúdio. Foi todo gravado em Castelló. Sentimos todos algo de muito especial quando estávamos a gravá-lo. É diferente de tudo o que eu alguma vez fiz…
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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