ENTREVISTAS
Octa Push
Quatro braços, um cérebro
· 22 Jul 2013 · 21:23 ·
Intitulam-se Octa Push e do polvo ressalvam os oito membros e a cabeça comum. Leo e Bruno são dois irmãos que se juntaram após se terem iniciado na música com percursos a solo em géneros díspares. O convite inusitado lançado à dupla por parte de alguns amigos resultou num projecto que converge rock, folk, afro e hip-hop e que encontra na electrónica um “denominador comum”. Por norma dividem-se entre Lisboa e Londres. Depois de quase cinco anos juntos, e três EPs lançados, aventuraram-se na produção, pela editora Senseless, de um longa duração que dá pelo nome Oito. No percurso atropelaram-se em elogios feitos por Thom Yorke e pelos Buraka Som Sistema e em actuações em festivais como o Sónar, o Boom ou o Redbull Music Academy. Passaram pelas mãos do pessoal da Enchufada e iniciaram uma digressão com os Batida. O single "Françoise Hardy", que conta com a participação de Alex Klimovitsky, também já toca em algumas das rádios nacionais e as críticas ao disco têm sido maioritariamente favoráveis. Para a semana há Milhões de Festa.
Raramente os gostos musicais entre irmãos coincidem. O que vos levou a criarem música juntos?

Leo: O que nos levou a criar música juntos foi o facto de surgir um convite dos nossos amigos Conspira, em 2008, e haver também pontos em que os gostos realmente coincidiam. Já fazíamos música separadamente há algum tempo e por essa altura reparámos que andávamos a fazer coisas parecidas. Vindos de backgrounds diferentes, temos na música electrónica o denominador comum nas nossas influências. O resto vai variando entre rock, folk, afro, hip-hop e por aí.

Bruno: A certa altura fez sentido que ao longo de tantos anos a fazer música, experimentássemos colaborar, se bem que, como o meu irmão disse, o empurrão foi dado pelos nossos amigos Xu e Roka com uma marcação de uma data no Porto. Agradou-nos o resultado e tivemos bom feedback, depois disso decidimos concentrar energias numa cena conjunta.

Nesse sentido a junção foi enriquecedora pela maior diversidade musical?

Leo: Sendo irmãos a junção será sempre enriquecedora, nem que seja pelo facto de vivermos estas coisas juntos. Relativamente à música também, pois, apesar de tudo, a diferença de idades e influências também acabam por ter um papel importante no resultado final. No início talvez não se notasse tanto porque estávamos focados no mesmo e o objectivo era fazer um determinado tipo de música. A meio do processo as coisas foram-se alterando e as divergências começaram a ser maiores. O acto de produzir juntos passou a ser também um processo de conciliação de gostos. Para mim é mais interessante assim já que, no fim, podem sair coisas bem mais diferentes embora seja mais demorado.

Bruno: Convergimos em muito mas também temos maneiras de ver as coisas diferentes. Outro exemplo disso foram as actuações ao vivo, em que o Leo teve experiência de banda, e eu de DJ. Assim colocamos as diferenças a nosso favor e tentamos criar algo novo.

As críticas a Oito têm sido na generalidade positivas. Como tem sido a recepção do público ao disco? E, para vocês, o que mudou essencialmente dos EP's para o disco?

Leo: As críticas têm-nos deixado bastante contentes, tanto a nível de media como das pessoas com quem falamos, embora estas últimas, sendo amigas são também mais generosas. O facto do single ("Françoise Hardy") estar a ser tocado nas rádios também ajuda, e nesse sentido temos reparado uma maior movimentação nas redes sociais. Já agora, agradecer mais uma vez ao Ivo Sousa e à I DOUBLE S I pelo excelente trabalho no videoclip.

Bruno: Temos tido feedback de outro público diferente. A nossa música tem chegado a sítios que nunca nos passaram pela cabeça. Desde o lançamento do "Oito" até agora temos tido mais apoio, não nos podemos queixar.

O facto de se terem desviado em parte do kuduro, tão badalado actualmente, consistiu numa mais valia?

Leo: Essa questão é engraçada porque nós nunca assumimos o kuduro como um estilo predominante e ainda hoje somos catalogados de "kuduro veterans" como disse a XLR8R (risos). Houve uma fase em que assumimos estilos como o ragga, baltimore, afrobeat. O facto de termos editado na Enchufada e termos feito remixes para eles também contribuíu para isso. Por outro lado não somos ingratos e agradecemos o facto do kuduro e a Enchufada terem acabado por nos abrir portas e ter feito com que chegássemos mais facilmente a alguns sítios. Mas fazer um determinado estilo só porque “está a bater” e nos vai beneficiar não é correcto. Podemos dizer que perdemos seguidores com a mudança mas ganhamos outros também..

Bruno: Continuamos a ir buscar sons africanos, mas o lado mais tradicional, um bocado o som que a nossa mãe nos mostrava quando éramos miúdos. Acaba por ser um elemento que está sempre presente nos nossos temas, às vezes manifesta-se de uma forma tímida e de outras vezes de forma mais descaradona.



Divididos entre Londres e Lisboa, o que vos levou a editarem em Inglaterra?

Leo: Já conhecíamos a editora através de um remix que tínhamos feito em 2009 de um tema do DeVille com a portuguesa Violet. Na altura enviámos um email com umas músicas para uma lista de amigos e eles responderam logo a mostrar interesse.

Bruno: O facto de a Senseless querer apostar num formato físico acabou por pesar também na decisão, já que queríamos mesmo algo que não tivesse um tempo de vida tão curto como um lançamento digital.

Após três EPs, o que vos levou à derradeira decisão de produzirem um álbum neste momento?

Leo: Já tínhamos isso em mente desde 2010, mas na altura não sabíamos bem o que queríamos. O EP da Optimus é fruto disso, e foi importantíssimo não a nível de sonoridade, mas de percebermos que o caminho que queríamos não era bem aquele.

Bruno: O fazer um longa duração acabou por ser um desafio, já que deu espaço para experimentarmos mais... Até porque estávamos mais habituados a fazer temas para a pista de dança e queríamos testar novas maneiras de fazer música, o EP Baluba marcou o início da experimentação..

Têm actuado em vários festivais e daqui a uns dias é o Milhões de Festa. Ao vivo, e mesmo em festivais, apostam num cenário audiovisual? Levam convidados?

Leo: Ao vivo as músicas ganham um lado mais orgânico, fruto de termos convidados e bateria. Como existem vários convidados no álbum que nem sempre podem estar presentes, temos também uma componente vídeo que acaba por fazer com que, de certa maneira, estejam todos presentes. O vídeo tem também, em algumas músicas, uma componente de levar o espectador a viajar um pouco por temas que nos dizem algo.

Bruno: Temos um vocalista convidado, o Alex Klimovitsky que entra em três temas, um dos quais o single ("Françoise Hardy"). Outros convidados por não poderem estar presentes fisicamente acabam por aparecer nas imagens, foi uma maneira de os integrarmos no espetáculo, mas contamos ter mais convidados futuramente e sempre que seja possível.

O que guardam, inclusive na tournée que fizeram com Batida, dos vossos concertos? Isto é, qual tem sido o cenário habitual da vossa plateia?

Leo: Acima de tudo o lado das relações humanas. Foram duas semanas espetaculares em que conhecemos muita gente num ambiente de partilha, o que acaba por ser diferente do que conhecer num ambiente de festa, noite, etc..

Bruno: Acabámos por conhecer muita malta porreira, assim como Nairobi numa perspectiva não-turística. Foi também a primeira vez que tocámos no continente africano e ficámos contentes com a reação das pessoas, estavam realmente abertas. Acabámos por conhecer muita malta porreira, assim como Nairobi numa perspectiva não-turística. Foi também a primeira vez que tocámos no continente africano e ficámos contentes com a reação das pessoas, estavam realmente abertas. Ainda tocámos ao vivo uma música que fizemos com o Batida, Oren o Alai e Isaac que acabou por ser quase uma Jam. Podem conhecer o projecto em ten-cities.com.

© Lukas Richthammer

O disco ficou marcado sobretudo por pequenos detalhes que se vão descobrindo ao longo de audições infindáveis. Qual é a vossa maior preocupação ou, digamos, objectivo, quando compõem?

Leo: O objectivo principal é desafiarmo-nos a nós próprios mesmo que para isso tenhamos que sacrificar alguns ouvintes. Para dar exemplo.. foi um desafio e é uma vitória chegarmos a 3 ou 4 meses do lançamento do single, e vermos que este está ou esteve no top de uma rádio nacional (Antena 3). Uma música sem refrão, com uma letra abstracta e em que tem uma estrutura que a meio passa de um compasso 4/4 para 3/4. Ou por exemplo na “Splendor” em que a bateria e o baixo vão numa direcção e o resto vai noutra, mas a sua soma fazem uma música. Talvez nem toda a gente chegue lá, mas para nós é importante que pelo menos algumas pessoas percebam isso. É fixe as pessoas virem ter connosco e dizerem-nos que gostam do álbum mas a música X ou Y era dispensável. Queremos acreditar que essas que hoje são dispensáveis, daqui a 1 ano ou assim possam ser ouvidas de outra forma. Mas daqui a 1 ano também pode acontecer que nós próprios possamos ouvir e achar que realmente são fracas e a tentativa foi gorada. Tentamos também combater o lado digital das coisas e o que isso significa, ou seja, um imediato que daqui a 3 meses está na pasta da reciclagem ou esquecido num disco externo. Daí também a preocupação em termos feito o formato CD e termos convidado o SALAZARE para o ilustrar.

Bruno: O objectivo é curtirmos o que estamos a fazer e tentar coisas novas. Se calhar é um bocado egoísta, mas antes de tudo temos que sentir o que estamos a fazer. Neste disco em particular tentámos pegar em várias linguagens sonoras, ritmos, estruturas, tempos e diferentes convidados e integrar tudo de forma a que o resultado final soasse como um todo e que tudo fizesse sentido. Também procurámos inserir pequenos "miminhos" sonoros, para os ouvintes mais atentos.

Múltiplos convidados no disco e elogios do Thom Yorke são resultados de uma junção frutífera. Já têm planos para um futuro a dois?

Leo: Os elogios são anteriores ao disco. Como o caminho se faz para a frente, o plano é continuar tipo jogador da bola: "trabalhar jogo a jogo" e tal e coisa.

Bruno: Começar com um almoço no Limo Verde e depois ver como as coisas rolam.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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