ENTREVISTAS
The Weatherman
Um disco aberto
· 26 Jan 2013 · 14:31 ·
Nem os ventos ciclónicos, nem a chuva torrencial que se têm feito sentir afectam o caminho trilhado por Alexandre Monteiro para o seu projecto musical. Participações em grupos de música coral e escutas fraternais de bandas como Beach Boys ou Beatles levaram-no aos primeiros acordes na guitarra. Contudo, depressa se aborreceu de tocar músicas dos outros. Durante a juventude decidiu que ia ser punk e, naquilo que parece uma inversão de marés, começou a tocar piano. De então em diante fez parte de várias bandas, lançando dessa forma a semente para The Weatherman. Se Cruisin’Alaska, em 2006, foi um disco concebido a duas mãos e, ainda assim, um murro na mesa da pop portuguesa, 2009, reservava Jamboree Park at the Milky Way. Contando já com a colaboração de outros músicos em estúdio, aqui evidenciam-se as influências do psicadelismo clássico. 2013 oferece, finalmente, o álbum homónimo - The Weatherman, onde o autor se expõe e se dá a conhecer, como nunca houvera feito, através de letras e sonoridades. Encaminhado para a internacionalização, é o assumir em definitivo de uma carreira que pode, por vezes, parecer virada de pernas para o ar.
Na primeira entrevista que deste a esta casa referes o teu variado percurso musical, entre o punk e aulas de piano. De alguma forma tudo isso te influencia ainda hoje no modo como compões ou o amadurecimento isola?

Sim, acredito que a minha personalidade musical se formou a partir de tudo o que me aconteceu durante o meu percurso. Tudo isso forma as bases nas quais me situo actualmente e se reflecte de alguma forma. Da mesma forma que a música que assimilei e me influenciou se tornou parte do meu ADN. O amadurecimento faz com que isso se manifeste de forma inconsciente e natural, e deixemos de sentir necessidade em usar t-shirts a dizer coisas como: "no fundo eu ainda sou punk" ou "eu queria ser o John Lennon" ou "tive umas aulas de piano incríveis que me mudaram para sempre". São coisas que se cravam na personalidade e, a partir daí, é viver-se bem com isso.

Como já disseste, o teu pseudónimo é inspirado no movimento radical The Weather Underground. Quando e como surgiu o teu interesse por este burburinho político dos sessentas americanos e como o relacionas com a música que fazes?

Na verdade não existe nenhuma referência directa, nem propriamente ideológica. Lembro-me que me chamou a atenção o facto de eles terem tido ideias muito doidas como ameaçarem contaminar os rios de S. Francisco com ácidos. Fiquei com o nome The Weatherman na cabeça durante algum tempo e achava estranho não haver nenhum artista ainda com esse nome (havia The Weathermen, não The Weatherman). Achei que era um nome que assentava bem naquilo que quero transmitir com a minha música, nomeadamente no facto de eu procurar ser multifacetado ao compor. E também por ser um nome que sugere algo clássico, intemporal. Ainda por cima dá espaço para criar uma personagem interessante. Tenho a ideia de transformar o Weatherman numa espécie de super-herói, uma personagem de banda desenhada... Talvez num próximo disco!



Admites o aborrecimento como fase do processo de criação? O que te aborreceu desta feita para surgir finalmente o álbum homónimo? Não deixa de ser curioso isso só acontecer ao terceiro disco…

Bem, eu tinha que aparecer com um disco homónimo alguma vez e, por isso, mais vale agora, enquanto ainda consigo lançar discos e, de uma maneira geral, estar vivo. Estou a brincar... Não sei se me aborreci com algo em especial mas pareceu-me lógico que este disco fosse homónimo por ser o mais auto-biográfico. Vejo aqui uma linha coerente: no primeiro disco era tudo à base da imaginação, no segundo já me inspirei um pouco em coisas que me rodeavam, e neste novo disco levei isso ainda mais longe. Felizmente a minha vida foi fértil em acontecimentos sobre os quais escrever.

O disco embrionário, Cruisin'Alaska, foi inteiramente composto e tocado por ti. No entanto, no segundo e terceiro discos, tocas com banda e até com alguns convidados. O que levou a desistir dessa primeira fórmula?

Não quis repetir a fórmula porque percebi logo que aquele disco era irrepetível. Assim sendo, mais valia deixá-lo ali e partir para outra. Por outro lado, comecei a sentir novamente vontade da sensação de tocar numa banda. Mas é provável que da próxima vez volte a isolar-me ou a tentar outra coisa diferente. Eu gosto disso. De não me acomodar, de criar desafios a mim próprio.

Apesar de The Weatherman ser também fruto do Fundo Cultural da GDA, são cada vez menos os apoios dados à cultura em geral, tornando-se, várias vezes, impeditivo mor da criação. Como vês o futuro da criação em Portugal face a este tipo de limitações?

Eu estou profundamente grato por ter conseguido esse apoio porque, neste momento, vivo sobretudo da música e sem esse apoio as minhas dificuldades iriam ser muito maiores. Sinceramente, nem sei bem como iria fazer. Mas correu bem. O melhor de tudo ainda foi o facto de sentir que me estavam a dar mérito, e isso faz muita falta num meio que funciona muito à base de lobbies e de trocas de favores. Eu não concordo que menos apoios signifiquem um impedimento da criação, pelo contrário. Prova disso é que existe muita gente a fazer música por amor à mesma e não desiste face a terríveis adversidades. Nesse grupo me incluo. Acho que os bons acabam por resistir e o futuro passa muito por procurar caminhos alternativos. Os tempos estão propícios a isso porque a "indústria musical" está em agonia.

A dada altura na tua biografia online pode ler-se: "Nunca a música de Weatherman foi tão auto-biográfica". Nesse sentido, o que se altera em relação aos outros dois discos?

Para este disco inspirei-me em pessoas e lugares específicos que me rodeiam. Foi algo que comecei a explorar no segundo disco e quis aprofundar agora, mostrar-me um pouco mais transparente. Acho isso particularmente interessante porque me dá outro prazer tocar músicas que falam de coisas que me emocionam. Transpor isso para os concertos vai ser uma experiência muito boa.

Fala-se sobre pressupostas relações amorosas, sobre despedidas, sobre disposições… No fundo, sobre o Homem como ser social. É um reflexo daquilo que tu és e, subsequentemente, da tua vida?

Sim, de um modo geral as canções falam sobre a minha relação com os outros. Isso para mim sempre foi um tema complexo. Ao longo dos anos tive que superar imensas coisas subjacentes ao facto de ter uma personalidade muito introvertida. A minha comunicação com os outros normalmente falha em muitos aspectos porque tenho mesmo dificuldade em comunicar e em me dar a conhecer. O facto de compor música também ajuda no sentido de me dar a conhecer melhor.

Em termos de sonoridade, nota-se, relativamente aos anteriores trabalhos, um certo desvanecimento do psicadelismo em prol da canção pop, apostando seriamente em detalhes electrónicos ou da folk. Pensas que esta procura por novas experiências musicais é natural ou existiram causas específicas?

Eu sentia que tinha uma veia mais pop, no sentido da canção de 3 minutos com os refrões no sítio certo e isso tudo. Normalmente os discos mais experimentais das bandas nunca são os primeiros e é curioso constatar que estou a ter um percurso inverso. No fundo, o que quero mostrar é que "não sou só este tipo das cenas maradas do Cruisin Alaska. Também sou da “pop mais bem comportada".

“Proper Goodbye” foi o primeiro single e já tem videoclip. Como a maioria das crianças, também tu querias ser astronauta quando fosses grande?

Sim, tive ali uma fase... E sempre fui completamente vidrado em astronomia. Uma das coisas que sonhava enquanto criança era que no futuro, ou seja, por esta altura, já teríamos colonizado outros planetas e já estaríamos muito mais evoluídos "tecnologicamente" (não sei se é este o termos mais correcto a aplicar aqui). Nesse aspecto, a realidade foi bastante dura para comigo... Em muitos aspectos o mundo está muito atrasado. Mas, atenção! Continua a ser um bom sítio para se viver. Emocionei-me mesmo quando o Neil Armstrong morreu dois dias antes de o vídeo ser estreado. Literatura e cinema de ficção científica, sempre fui fã.



Tens tocado regularmente, pelos menos em Portugal. A internacionalização mais efectiva, se é que se pode dizer assim, é um objectivo? Das actuações ao vivo, devem-se esperar performances a solo ou acompanhado? Ou dependendo do formato?

Sim. Eu tenho já um plano mais ou menos delineado para, desta vez, tentar conseguir promover a minha música fora de portas. Das actuações ao vivo, podem-se esperar concertos com formatos diferentes consoante o tipo de espaço. Para já, tenho agendados os concertos oficiais de apresentação do disco com a banda completa. De resto, em sítios mais pequenos e informais, tocarei em formato reduzido ou a solo. Quem me dera poder vir a tocar muitas vezes com banda...

Doze canções, dois singles, um videoclip… O quê que este disco ainda poderá ter para oferecer?

Por agora, um novo vídeo, para o segundo single - "Fab". Tenho ideias de fazer pelo menos mais um vídeo. Provavelmente para outra canção do disco que não um single... Estamos a estudar.
Alexandra João Martins
alexandrajoaomartins@gmail.com

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