ENTREVISTAS
Beach House
Amor e uma casa de praia
· 29 Dez 2012 · 03:18 ·
Aconteceu no segundo dia do Primavera Sound Porto, nas traseiras do palco onde mais tarde iriam actuar para uma plateia a rebentar pelas costuras e num palco claramente insuficiente para o sucesso que alcançaram. Com um ar cansado mas simpático, Alex Scally e Victoria Legrand sentam-se e durante quinze minutos e estão disponíveis para responder a perguntas de alguém que nunca viram na vida. E fazem-no com um sorriso nos rostos. A vida corre-lhes bem: ao quarto disco são um fenómeno de popularidade como não acontece muitas vezes para alguém que faz música com o nível de intimismo dos Beach House. Mas há algo na música de Alex Scally e Victoria Legrand que é universalmente arrebatador. E eles parecem ter noção disso. Numa conversa curta mas sumarenta, falou-se do processo de escrita e gravação de um disco, de Baltimore, dos primeiros anos, de falta de atenção, de rádio, da música actual, da sorte que é correr o mundo com canções nas malas e muito mais. Sempre com o coração perto da boca.
Bloom é o vosso quarto disco em oito anos. Quão diferente é escrever um disco hoje em dia para vocês? Está a tornar-se mais cada vez mais fácil?

Victoria Legrand: Torna-se cada vez mais intenso. Algumas coisas são mais fáceis por vezes, as partes mais fáceis são mesmo eufóricas mas as partes mais complicadas são devastadoras. Existem altos e baixo simplesmente loucos e intensificam-se cada vez mais. Acho que quanto mais discos fazes, mais profundo e profundo vais, independentemente daquilo que estás à procura.

Alguma vez sentem que perderam alguma inocência em todo o processo quando comparam com os primeiros discos dos Beach House?

Alex Scally: Acho que essa é a realidade da existência no geral. Não acho que haja alguém a quem isso não tenha acontecido.

Victoria Legrand: A partir do momento em que fazes uma coisa uma vez, não há volta atrás. Não podes voltar atrás. Mas podes chegar a um espaço em que sentes tudo de uma forma viva e inspiradora. Podes chegar a um sítio bom. Mas nunca mais poderás ter a tua primeira vez.



Disseram uma vez que era desafiante escrever música enquanto duo. Ainda acham o mesmo após quatro discos?

Victoria Legrand: Para nós é necessário e um desafio voluntário. Nós escolhemos isso. Para outros pode parecer uma limitação, mas para nós é uma dádiva. Temos todo o controlo que queremos e não temos de dar respostas a outras pessoas. Fazemos apenas aquilo que queremos. É um óptimo desafio.

Sei que este disco foi desenhado maioritariamente na estrada. Como é que conseguiram agarrar-se a essas ideias e usá-las neste novo disco?

Alex Scally: Gravamos as coisas. Normalmente quando gostamos realmente de alguma coisa gravamos com qualquer coisa, um telefone, qualquer coisa. Porque precisas de te agarrar a essas ideias.

Gravaram este novo disco no Texas, longe da vossa terra natal, Baltimore. Sentiram que precisavam de uma mudança depois de tanto tempo em digressão?

Victoria Legrand: Quando escolhes um estúdio é baseado naquilo que o estúdio tem, em termos técnicos. É isso que fazes. Não vais de férias, estás a fazer um álbum e queres que tudo soe exactamente como queres. Essa é a primeira coisa. A segunda coisa é… Nunca tínhamos passado tempo naquela parte do país para além de a atravessar a conduzir em digressão e por isso escolhemos esse local porque sabíamos que iria ser uma nova experiência. Nunca tínhamos gasto tanto tempo a fazer um disco. Nós trabalhamos muito rápido. Trabalhamos de forma muito intensa. Não gostamos de perder tempo. Perder tempo para nós… é uma perda de tempo. [risos]



Li que queriam que este disco fosse sentido como um álbum inteiro. Acham que as pessoas mudaram radicalmente a forma como se relacionam com a música e o seu consumo?

Alex Scally: Sim. Torna-se cada vez mais comum as pessoas apenas conhecerem uma canção de um artista. Ouvem apenas uma canção uma vez e seguem em frente, às vezes nem chegam ao fim da canção e aborrecem-se porque sofrem de ADD.

Victoria Legrand: ADD, é essa exactamente a palavra que descreve a realidade dos dias de hoje.

ADD?

Victoria Legrand: Attention deficit disorder, algo muito comum nos Estados Unidos da América. Raramente conheces uma pessoa que conheça o catálogo inteiro de um artistas ou de uma banda que esteja em actividade nos últimos quinze anos. As pessoas apenas conhecem canções. O que se passa connosco é que consideramos todos os nossos discos como álbuns, este não é diferente do que fizemos antes. Na nossa biografia estamos de certa forma a repetir um mantra nosso; se nos conhecem antes deste disco agora sabem que somos uma banda de canções e que fazemos discos. O nosso primeiro disco para nós é um álbum, sabes? São nove canções específicas, tem uma ordem específica, não faz sentido tirar uma canção ou juntar-lhe outra. É algo que apreciamos bastante e que está presente em todos os discos…

A imprensa portuguesa, a falar acerca de festivais como este, tem falado do triunfo da música independente. Sentem-se de alguma forma parte desta realidade?

Victoria Legrand: Sim, acho que cada vez mais pessoas ouvem música e cada vez mais gente a fazer música. Por isso sim, considero um triunfo. Espero que isso continue a crescer e que as pessoas deixem de ouvir toda a porcaria Top 40 que há na música hoje em dia. A rádio, a rádio de massas, é neste momento pior do que algum dia já foi na história da rádio. Quando pensas no que foram as rádios comerciais, que passavam todos os sucessos nos anos 80, eram melhores do que aquilo que tens agora, percebes. A porcaria nos anos 80 que levavam as pessoas a dizer “eh pá, muda isso”, ouves isso agora numa jukebox e parecem anos dourados comparado com aquilo que se ouve hoje. Não sei se é um triunfo porque não creio que haja um fim nisto tudo. Um triunfo para mim é quando recebes um troféu. Acho que é algo que se está espalhar em popularidade. Há definitivamente muita música a ser feita hoje em dia. Há demasiados tipos de música em vez de um género ou estilo em particular. Duvido que alguma vez haja outra geração Nirvana, ou algo assim. Acho que vai haver montes de coisas diferentes.



Baltimore por exemplo tem sido berço de muitas grandes bandas nos últimos anos. Acham que existe um sentimento de comunidade na cidade? Existe alguma explicação social ou cultural para explicar o fenómeno?

Alex Scally: Há definitivamente uma comunidade lá. É uma cidade muito pobre por isso é muito barata. É muito fácil existir lá. Não precisas de fazer montes de dinheiro como em Nova Iorque ou Londres, ou assim. Podes ter um emprego em part time e mesmo assim ter um apartamento e fazer música. Torna a missão de ser músico um pouco mais fácil.

Victoria Legrand: É uma comunidade muito pequena e acho que é isso que torna possível que se mantenha pura e intensa.

Que novas bandas de Baltimore poderiam aconselhar?

Victoria Legrand: Acho que não é bem essa a questão. Acho que existem várias. A maior parte dos artistas, como Ed Schrader’s Music Beat, muita gente anda constantemente em digressão. O Dan Deacon anda a fazer coisas há anos, os Celebration, os Zomes, os Lungfish. Há uma variedade tão grande. São todos muito activos. Tocam em muitos concertos DIY e depois andam em digressão. Existem os Future Islands, bandas assim. Algumas mudaram-se para Baltimore há alguns anos atrás da Carolina do Norte e outras, como os Zomes, são de Baltimore desde sempre. Mas é como disse: são apenas umas duzentas pessoas, por isso... É mais ou menos como em Nova Iorque nos anos 70, onde havia umas 500 pessoas que faziam coisas. A diferença é que Nova Iorque naquela altura estava a mudar o mundo todo e não me acredito que Baltimore, não me acredito que nenhum sítio esteja a mudar o mundo. Acho que tudo se resume às coisas interessantes que as comunidades têm para oferecer a toda a gente. Para mim tem muito mais carácter do que Brooklyn ou algo do género. Não é uma cidade de destino. Algumas pessoas adoram e nós ainda vivemos por lá por isso é a nossa casa.

Uma ultima pergunta. Lembro-me de vos ver actuar no Porto no Passos Manuel…

Victoria Legrand: Sim, sim.

Alex Scally: Foi um concerto divertido. Estavas lá?

Sim. Acho que foi quando lançaram o vosso primeiro álbum?

Alex Scally: Foi o segundo. Em Novembro de 2008.

Tens uma excelente memória.

Victoria Legrand: Pois tem.



Hoje em dia tocam em grandes festivais e em grandes salas. Têm saudades de tocar em salas mais pequenas e intimistas?

Alex Scally: Ainda tocamos às vezes.

Victoria Legrand: Acabamos de dar alguns concertos em salas de 200 lugares, por isso…

Alex Scally: Nós gostamos de tocar concertos desses, são divertidos. E havemos de dar concertos assim em Portugal, espero. Gostamos mais desses concertos do que festivais.

Victoria Legrand: Nós não gostamos de tocar assim em frente de dez mil pessoas. É tenso.

O mais curioso é que a vossa música resulta mesmo assim…

Alex Scally: Às vezes.

Agora sim a última pergunta. Alguma vez se sentem surpreendidos com o vosso enorme sucesso?

Alex Scally: Não tenho a certeza que seja enorme. Mas acho que estamos constantemente surpreendidos com isso. Sentimo-nos uns sortudos. Mais do que tudo, não queremos que seja falso. Queremos que muitas pessoas gostem de nós porque realmente gostam da música e por nenhuma outra razão.

Victoria Legrand: Sentimo-nos muito agradecidos. Quando controlas a tua arte, quando controlas o teu mundo, o resto acontece naturalmente. As pessoas gostam de uma forma muito natural. deveria ser muito natural. dessa forma, deverias sentir as coisas de uma forma muito natural, sentir que espalhas o amor pela música. E se para nós isso está a acontecer… Desde que o amor esteja envolvido… [risos]
André Gomes
andregomes@bodyspace.net

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