ENTREVISTAS
Animal Collective
Sentir sem sentenciar
· 17 Out 2005 · 08:00 ·
Será muito provavelmente tempo perdido todo aquele que se ocupe de descobrir um padrão absoluto nas formas aleatórias do caleidoscópio. Não adianta, por isso, cagar sentenças que procurem fazer de um disco de Animal Collective uma tábua escrita em hebraico. Importa primeiro tentar descobrir se não terão sido a ganga e a televisão por satélite os responsáveis pelo desuso da manifestação afectuosa por instinto. A arrogância do que se auto-proclamou Sapiens tem vindo a desviá-lo dos compromissos primordiais a que obriga a vida em comunidade. O cão só é o melhor amigo do homem porque nunca meditou muito sobre essa sua subserviência indulgente. Talvez o melhor seja mesmo mijar de pata levantada ou chorar baba e ranho, e, na despreocupação desses comportamentos, voltar a apreciar a sensação do dar por dar (e não porque é socialmente gratificante, Paula Bobone). Feels é mais uma dádiva. Simplificada e gloriosa na sua essência. Parece haver uma qualquer urgência radiante em descobrir e reparar os elos perdidos que contribuíram para corromper a natureza daquele que um dia usufruiu do fogo para se aquecer e alimentar e agora o usa para se auto-destruir. Isso não faz da matilha que Brooklyn (Zoo) amamentou uma nova seita evangelista. Contudo, os discos de Animal Collective serão, na maior parte dos casos, comparáveis a fabulosas experiências “maiores que a vida” (“larger than life” à escala de assistir aos Radiohead num dos Coliseus). Panda Bear (Noah Lennox segundo o registo civil) falou-nos disso e do impacto do habitat luso na sua música, enquanto integrante do Collective ou fora desse.
Como se sentem agora que o novo Feels está pronto? [n.r.: a questão soa melhor em inglês e a entrevista começa com: ”How does it “Feels” having this new record ready?”] Eras capaz de me falar do processo que até ele conduziu e da vossa reacção perante o resultado?

Estávamos completamente “passados” em relação ao disco, mas fomos muito exigentes em relação ao material, de maneira que não parámos até estarmos realmente satisfeitos. Tocámos as músicas de Feels durante mais de um ano, em digressão e por aí, daí que esteja pronto para avançar rumo a novos sons. Mas ainda estou imerso no disco. Despendemos um mês de gravação constante com o Scott [n.r.: Colburn, ultimamente dedicado a compilar música do mundo para a especializada Sublime Frequencies, membro dos obscuros Clímax Golden Twins e colaborador de Mark Kozelek nos Sun Kill Moon] na sua casa-igreja e acabou por ser o mais divertido dos discos nesse aspecto. Organizávamos patuscadas e assistíamos a filmes à noite.

Não consegui deixar de pensar em Feels como um disco de “paisagens emocionais”, em parte porque as suas ambiências me recordam o teledisco “Jòga” da Björk [n.r.: que na música refere as tais “emotional landscapes”]. Concordas? Acreditas que o termo se aplica mais a este do que a qualquer outro disco de Animal Collective?

Sim, concordo, mas acho que todos os nossos discos correspondem a essa definição, pelo menos para mim. A maioria das coisas abordadas são muito pessoais e muitas vezes estamos a cantar uns sobre os outros. A maioria das músicas de Feels correspondem a expressões de amor e do próprio amar, e isso será certamente algo emocional. Nada disso foi totalmente intencional, mas houve tanto amor nas nossas vidas durante o último ano que suspeito que isso haveria de se manifestar.

O que levou Eyvind Kang a integrar as gravações do disco? Parece haver uma afinidade natural entre o Feels e o The Story of Iceland. Concordas? O Eyvind moldou de alguma forma o vosso material?

Conhecíamo-lo minimamente antes de ter gravado connosco e agora todos o achamos o mais dócil dos tocadores de violino e cordas. Gravámos em Seattle, bem perto de onde ele mora, e o Scott Colburn conhece-o bem. Achámos que seria porreiro tê-lo a tocar nas nossas músicas porque nunca tínhamos incluído cordas e ele foi a nossa primeira escolha. Sorte a nossa que ele estava disposto a isso. Ele é um tipo bastante “meloso” e gosto muito dele. Não me parece que tenha moldado muito os nossos sons. A sua intervenção é superminimalista. Ele começou por não conhecer as músicas, mas, após tê-las escutado, “apanhou-as” muito rapidamente. Gosto muito do The Story of Iceland. Ofereci-o à minha mãe certa vez.

E a Anna Valtysdottir [n.r.: parte integrante dos parceiros de editora Múm que em Feels se ocupou das teclas]? Como aconteceu? Fiquei com a sensação de que o seu contributo reduz a temperatura que sobe a cada vez que se lançam nos refrães e percussão. Achas que ela trouxe para o disco um pouco daquele esplendor glaciar aliado ao aconchego hibernal dos Mùm?

Sim, creio que sim, mas essa também é a natureza do piano. Julgo que tínhamos consciência disso e também procurámos isso mesmo. Tínhamos partilhado uma série de digressões com os Mùm e conhecíamo-los muito bem. Sabíamos que ela aceitaria acompanhar as nossas músicas ao piano e damo-nos optimamente. Por isso, pareceu uma excelente ideia. Ela já conhecia bem as músicas, tendo em conta a regularidade dos concertos que partilhámos com os Mùm.

A amplitude de temperaturas de Feels parece ser mais vasta que a de qualquer outro dos vossos discos. Explode com aqueles primeiros delírios uptempo, revolve a um núcleo gélido e depois estabiliza num campo intermediário. Achas que o Collective responde a experiências diárias um pouco como os animais respondem às várias mudanças de luminosidade durante um eclipse ou às vibrações que antecedem um terramoto? Isso aplica-se aos vossos concertos, não é?

Creio que toda a gente responde a esse tipo de coisas. Acontece que algumas pessoas tem maior consciência disso que outras. Mas acho que se torna impossível não nos influenciarmos pelo que nos rodeia, mas, lá está, isso aplica-se a quem estiver realmente atento. Ao vivo as coisas tornam-se um pouco diferentes, já que tens de lidar com o espaço em que te encontras e como toda a gente à tua volta se está a sentir, o que estão a pensar e por aí. Procuramos concentrar uma maior energia e produzir algo de diferente no momento partilhado com todo o público. Não estamos assim tão preocupados em respeitar todas as notas à risca. Acredito que tenhamos uma relação instintiva com a música, um pouco como os animais ou as crianças.

Se o comparares a Young Prayer, quão mais pessoal será o teu contributo em Feels?

Talvez porque me tinha dedicado a Young Prayer, optei por uma intervenção mais discreta neste disco. Diria que o Feels comporta menos de mim, se o comparares a Sung Tongs ou alguns dos outros discos. Dedico-me quase em exclusivo à percussão, sons diversos e voz para complementar as partes do Davey [n.r.: Avey Tare, na sua forma Animal] no Feels.


Atendendo a que muitas das faixas que compõem Feels estavam já “em construção” e a ser tocadas ao vivo pela altura em que Sung Tongs começou a ser abundantemente aclamado, não faz muito sentido mencionar a “pressão” como um factor nestas gravações, certo? Em todo o caso, suspeito que a “pressão” não vos afecte muito...

Sim, chega a ser difícil. Especialmente durante estes dias [n.r.: os que antecedem o lançamento oficial e digressão que promove o disco]. Mas tentamos não pensar muito nisso. Mas sou capaz de sentir diversas pressões, ainda que isso não seja necessariamente prejudicial. Tentamos dar prioridade à nossa felicidade, porque, a priori, se não estivéssemos “completamente passados” com isto, que razão teriam os outros para tal? Se é que me entendes… Seremos muito provavelmente os primeiros a exercer pressão sobre nós próprios, com vista a produzirmos algo de novo e realmente fresco. Algo que nos dê um tremendo gozo ao tocar ao vivo.

O Devendra Banhart mencionou os bons tempos passados em Portugal em “Santa Maria de Feira”, incluída em Cripple Crow. Algum episódio ou experiência tua por cá manifestou-se directamente na tua música? Ou a vivência acaba por corresponder a algo enevoado que se vai derramando aos poucos sobre o que compões?

O material que tenho composto em nome próprio – durante este último ano - está impregnado de Portugal implícita e explicitamente. Mas quase sempre por efeito de coisas rotineiras, como andar por aí com a minha esposa [n.r.: Noah constituiu família em Portugal], a nossa casa com vista para o rio, ir à mercearia e por aí. Eu adoro as mercearias. A organização, as cores e a música. Sim, creio que essa tal “névoa” se tem vindo a formar há alguns anos. Acho que estou à espera que as coisas abrandem, mas provavelmente isso não acontecerá.

Que opinião tens da actual música portuguesa? Por mais que isto soe a cliché, já cultivas algum tipo de relação com o fado?

Eu gosto de fado, mas ainda não assisti a nada ao vivo e gostaria de fazê-lo. Eu adoro António Variações. Quase parece o equivalente português do Ariel [n.r.: Pink, que já conta com dois discos na Paw Tracks e actuou com Panda Bear aquando da sua passagem pela sala de espectáculos que Noah menciona já de seguida]. A Zé dos Bois parece-me ser um sítio realmente especial na Europa e acho que deviam ter imenso orgulho no que têm vindo a fazer. Sempre foram extremamente simpáticos para comigo. Toda a música portuguesa que tenho vindo a conhecer concentra-se naquele lugar e nas pessoas que lá tocam.

Podemos estabelecer Prospect Hummer [n.r.: o EP conta com resenha nesta casa] como um convite dirigido a Vashti Bunyan para se juntar a vocês na celebração da salubridade de Sung Tongs? Ou foi um disco elaborado em conjunto?

A primeira hipótese parece-me muito mais lógica. Basicamente, o Prospect Hummer foi elaborado a partir de músicas que nunca chegámos a gravar para Sung Tongs, mas que tinham sido elaboradas nesse sentido. Incluiu uma nova faixa que eu e o Joshmin [n.r.: conhecido por Deakin assim que ganha pêlo animal] tocámos há muito tempo numa passagem pelo Japão. Com o seu contributo vocal nas principais partes, a Vashti fez do nosso o seu próprio disco e não quero de forma alguma subestimar o seu contributo naquelas jams.

Já escutaste o seu novo disco - Lookaftering? És capaz de associar o título ao facto de ela ter sido tão cortesmente aclamada e acarinhada por músicos como vocês?

Entendo o teu ponto de vista, mas não sei ao certo se será essa a sua intenção. Já ouvi e gostei do disco.

Acreditas que a generosa recepção de que Sung Tongs foi alvo contribuiu para uma aceitação gradual de um drone tão denso e estranho quanto aquele que escutamos em “Visiting Friends” [n.r.: a mais longa e talvez “difícil” das faixas que compõem o disco]? Acreditas que o seu sucesso ajudou a que as etiquetas se tornassem inúteis quando associadas ao Collective?

Eu acho que as etiquetas são merdosas quando associadas a qualquer banda. Por vezes insuflam a exposição de bandas que o merecem e isso é óptimo, mas creio que os efeitos negativos são bem piores. É uma merda dares por ti enclausurado nessa teia. Contudo, duvido que o Sung Tongs ou “Visiting Friends” tenham sido universalmente aplaudidos. Algumas pessoas odiaram o Sung Tongs e especialmente “Visiting Friends”. Nem toda a gente, mas existem certamente detractores. Mas julgo que esses existem desde que começámos. Não podemos agradar a todos e quanto mais depressa aceitarmos isso, melhor.


O Lou Barlow mencionou nos seus diários [n.r.: nunca é tarde para descobrir http://www.loobiecore.com/] que a sua pequena filha adora adormecer ao som de Sung Tongs. Prescreverias o disco como soporífero? Achas que o Feels pode ser mais adequado a essa função? Não ficaram surpreendidos com o facto de Sung Tongs quase se ter tornado num item terapêutico na vida caseira das pessoas?

A sério?! Muito me contas. Não fazia ideia disso. Fico delirante só de pensar que ajuda as pessoas de alguma forma. Eu aprecio música para escutar ao adormecer ou acordar. Esses serão muito provavelmente os períodos do dia em que mais gosto de escutar música. Não oiço música frequentemente – até porque estou sempre a trabalhá-la -, mas, quando o faço, favoreço a noite, a manhã ou as ocasiões especiais, tal como quando estou a lavar um monte de pratos. Acho que o Campfire Songs é o disco mais adequado ao acordar e despertar, e não o Feels. Mas é bem provável que o Feels seja um disco mais sonolento/sonhador que Sung Tongs, que é muito mais enérgico se exceptuarmos “Visiting Friends” e uma ou outra das suas últimas faixas.

A globalidade de Sung Tongs não vos terá valido algumas propostas estranhas de publicitários ou algo semelhante? Agora não há disco emblemático que não conheça a sua versão de remisturas. De que forma encaras essa probabilidade? Que nomes gostarias de ver assinar um remix de uma das vossas faixas?

Sim, recebemos alguns propostas para anúncios e isso, mas não só referentes a Sung Tongs. Parece-me que os publicitários têm procurado música mais obscura por ser mais barata. Não sei ao certo. Decidimos manter a distância desse tipo de coisas, por agora. Eu adoraria ver as nossas faixas remisturadas. A minha primeira escolha seria Olaf Dettinger [n.r.: o mago da electrónica sedeado na alemã Kompakt]. Ele é o maior.

Grande parte das improvisações de toda a família Collective [n.r.: ou seja, todos os projectos nascidos a partir da base Animal Collective] têm vindo a emergir lentamente em bootlegs e lançamentos muito obscuros [n.r.: até porque limitados a um número reduzido de cópias]. Que parte de tudo isso está destinada a ficar para sempre perdida e que outra parte surgirá mais tarde ou mais cedo?

Estamos a pensar lançar um conjunto de três discos baseados em material gravado ao vivo nos últimos cinco anos, ou por aí. Tenho a impressão de que muito do material lançado em bootleg será incluído. As pessoas gravam os nossos concertos e fazem trocas. Isso agrada-nos. Alguns de nós chegavam a fazer o mesmo em concertos dos Pavement ou sei lá que mais. Podes ir até http://rerz.net/ [n.r.: excelente fan site de Animal Collective] e contactar aquela rapaziada. Estou certo de que te podem dar a conhecer todo o tipo de formas para conseguires os concertos e bizarras sessões de rádio que tenhamos feito.

Existe algum tipo de conspiração que una o Collective a Kanye West na tentativa de encorajar a juventude a evitar a universidade [n.r.: “college” incute maior sentido à questão]?

Não. Acho que procuramos frisar que essa opção não é única. Ao crescer, fica-se com a sensação de que é esse o caminho a seguir porque assim acontece com toda a gente. Por qualquer razão, afastei-me desse ciclo e encontrei uma via totalmente alternativa que me proporcionou muito de bom e tem vindo a resultar. Acho que tentamos encorajar as pessoas a pensarem por si mesmas e acreditarem nas suas próprias decisões. É só isso. A universidade pode ser fantástica se conhecer o melhor uso.

Que podemos esperar do concerto de Lisboa [n.r.: que, numa iniciativa que celebra também o 11.º aniversário da Zé dos Bois, terá lugar num cacilheiro em pleno Tejo]? O facto de te chamares Noah [n.r.: Noé] faz com que pense na ocasião como uma coisa de proporções bíblicas. Tendo em conta as circunstâncias, parece que todos vamos estar unidos pela condição animal e isso parece-me francamente bonito (ainda que metaforicamente). Encorajam o público em ir aos pares?

Pá... Nem sequer tinha pensado nisso, mas parece-me completamente louco. O meu aval é incondicional. Apoio todos os amantes, bons amigos ou gente assim.
Miguel Arsénio
migarsenio@yahoo.com

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